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Bolivianos reconstroem a vida em Bady após escravidão

Seis anos após serem flagrados em condições desumanas, 500 bolivianos reconstroem a vida em Bady

Augusto Fiorin
Publicado em 12/12/2018 às 00:30Atualizado em 07/07/2021 às 21:17
Bolivianos de Bady trabalham
em confecções e descartam 
retorno ao país de origem (Augusto Fiorin)

Bolivianos de Bady trabalham em confecções e descartam retorno ao país de origem (Augusto Fiorin)

No campo de futebol improvisado, um grupo de bolivianos se reúne para aquele que é um dos raros momentos de lazer ao longo da exaustiva semana de trabalho. Aos domingos, homens, mulheres e crianças das mais diversas idades fazem daquele pequeno espaço, próximo à avenida Borboleta, em Bady Bassitt, um pedacinho do país de origem. Entre chutes, dribles e muita conversa, expressões de quem teve a possibilidade de um recomeço longe de casa.

O que surgiu em meados de 2010 como turismo para o boliviano Carlos Lujan Quiñonez, 28 anos, natural de La Paz, hoje significa trabalho e dignidade para ele e outras 500 pessoas de seu país de origem. Segundo dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra), da Polícia Federal, até o último dia 21 de novembro foram registrados 501 bolivianos com endereços em Bady Bassitt. Todos legalmente instalados no município e com autorização de residência no Brasil. E todos no mesmo ramo de atividade profissional: confecção.

A cidade de 16.850 habitantes, de acordo com o Atlas Temático - Observatório das Migrações em São Paulo -, é considerada polo de atração de bolivianos. Eles representam 3% da população do município. Atuando na fabricação de roupas femininas, cada trabalhador tem renda mensal aproximada de R$ 3,5 mil.

Casado com Beatriz Calle Cruz, também com 28 anos, Quiñonez é um dos líderes dos bolivianos. Pais de dois filhos brasileiros, o casal não tem saudade da vida que levava na Bolívia. "Aqui, apesar de muito trabalho, somos recompensados. Temos qualidade de vida e conquistamos nosso espaço com honestidade. Estamos totalmente inseridos em Bady, o que nos impede de pensar em retorno ao nosso país", afirma.

Silbério Sandoval Leon, 22, de Sucre, é solteiro e está há três anos no município. Reside com amigos, todos costureiros, em um imóvel alugado. Afirma que não conhecia a profissão, mas que, hoje, encontra-se realizado com o que faz. "Não tenho do que reclamar. Foi costurando que consegui ter uma vida melhor. A distância é, sim, dolorida. Mas temos também, além do futebol, uma igreja onde nos reunimos. Essa união ajuda a diminuir a saudade de onde viemos", diz.Dificuldades

Hoje, os bolivianos vivem com tranquilidade em Bady Bassitt. Porém, em 2012, uma operação deflagrada pela Polícia Federal constatou condições inadequadas e desumanas de trabalho. Muitos chegavam a trabalhar 14 horas por dia para entregar os pedidos feitos por empresas do setor, a maioria da capital paulista. "Não tínhamos registro em carteira e nenhum direito. Após a operação, nos adequamos e aprendemos, com as dificuldades, como realmente deveríamos trabalhar. Somos autônomos, sem vínculos trabalhistas. Escolhemos a quem vender nossas peças", complementa Quiñonez.

No setor de taxas e licenças de funcionamento da Prefeitura de Bady Bassitt existe o registro de mais de 20 microempreendedores individuais bolivianos. Já na rede municipal de ensino, 102 crianças estão devidamente matriculadas nas escolas municipais.

Bolivianos em Bady Bassitt (Augusto Fiorin)
Bolivianos em Bady Bassitt (Augusto Fiorin)
Bolivianos em Bady Bassitt (Augusto Fiorin)
Bolivianos em Bady Bassitt (Augusto Fiorin)
Campo de futebol improvisado é momento de lazer dos bolivianos aos domingos (Fotos: Augusto Fiorin)
Bolivianos em Bady Bassitt (Augusto Fiorin)
Bolivianos em Bady Bassitt (Augusto Fiorin)
Bolivianos em Bady Bassitt (Augusto Fiorin)
 
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