Operação contra lavagem de dinheiro do PCC cumpriu dez mandados em Rio Preto
Bancos eletrônicos e quatro pessoas foram alvos de mandados de busca e apreensão emitidos a pedido do Gaeco e da Receita Federal

A Operação Fluxo Oculto, deflagrada nesta quinta-feira, 28, para apurar crimes de lavagem de dinheiro e fraudes fiscais ligadas ao setor de combustíveis com envolvimento do Primeiro Comando da Capital (PCC), cumpriu 10 mandados de busca e apreensão no município. Os alvos foram quatro pessoas jurídicas e quatro pessoas físicas.
A operação foi deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a Receita Federal, a Agência Nacional de Petróleo (ANP), a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, a Procuradoria-Geral do Estado e a Polícia Militar. Foram cumpridos 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados.
O delegado regional da Receita Federal, Paulo Sérgio Claudio, afirmou que a operação representa um avanço no combate ao crime organizado ao atingir o fluxo financeiro das organizações. A ação é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de outubro do ano passado contra um esquema do PCC de rede de postos de combustíveis e usinas. As empresas foram compradas pela organização criminosa para lavar dinheiro do crime organizado com ajuda das fintechs, bancos eletrônicos sediados na avenida Faria Lima, região da cidade de São Paulo com maior concentração de instituições financeiras.
“Essa é uma etapa extremamente importante no combate a organizações criminosas, porque permite revelar a forma de enriquecimento por meio de toda a indústria de combustíveis”, diz Paulo.
Segundo ele, o esquema utilizava fintechs para ocultar a origem de valores ilícitos, explorando falhas no sistema. “Eles se valem de gargalos regulatórios e encontraram uma brecha, que é a chamada conta bolsão, em que dezenas de clientes operam sem identificação individual.”
O promotor de Justiça Tiago Dutra, do Gaeco, explicou que, internamente, essas instituições mantinham registros paralelos para controlar as movimentações. “Existe uma contabilidade paralela, uma conta gráfica, que é opaca e impede que os órgãos do Estado saibam quem é o verdadeiro dono do dinheiro.”
De acordo com Dutra, esse modelo permitia a circulação de valores bilionários oriundos de crimes. “As organizações criminosas utilizam essa estratégia para movimentar bilhões de reais e dificultar o rastreamento.”
Ele destacou que a operação não tem como alvo as fintechs em si, mas o uso ilegal dessas estruturas. “Não se combate as fintechs, se combate o uso indevido das instituições de pagamento.”
O promotor também apontou que houve tentativa de burlar investigações após a operação Carbono Oculto, com o repasse do dinheiro do crime organizado que estava nas fintechs de São Paulo para enviar para fintechs espalhadas pelo país, inclusive em Rio Preto. “Houve movimentação dos gestores, com criação de novas empresas em nome de laranjas, transferindo contratos para tentar escapar do controle estatal.”
Sobre o alcance da investigação, Dutra afirmou que os valores ainda serão apurados, mas já são expressivos. “Essa mensuração preliminar alcança centenas de milhões de reais.”
Por fim, Dutra afirmou que o objetivo da operação é ampliar a responsabilização dos envolvidos. “Precisamos identificar quem facilitou, quem sabia e quem se enriqueceu com isso, para levar à Justiça aqueles que sempre escaparam pelo controle financeiro.”
As fintechs
Entre os principais endereços alvo da operação estão empresas do grupo Ceopag, em São José do Rio Preto e Barueri; do grupo Sispay, instalado em conjuntos comerciais na Rua Joaquim Floriano, no Itaim Bibi; do grupo Smart Solutions, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro; e do grupo Yaw, com endereços em Alphaville e no centro de Belo Horizonte.
A investigação também alcançou a Ello Gestora de Recursos Ltda, com endereços na Vila Nova Conceição e na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo.
A reportagem pediu manifestação de todos os grupos citados. O espaço está aberto para manifestação.
Defesa
Em nota, a Ceopag negou irregularidades.
Veja a nota na íntegra:
"Em virtude das notícias de hoje veiculada em diversos veículos nesta quinta-feira, 28/05/2026, a Ceopag vem por meio desta nota se retratar e prestar os devidos esclarecimentos à imprensa. A Ceopag atua no segmento de meios de pagamento como subadquirente, sendo responsável por viabilizar transações realizadas por estabelecimentos comerciais por meio de maquininhas de cartão de crédito e débito, sempre em conformidade com as normas das bandeiras, como Visa e Mastercard, além das diretrizes estabelecidas pelo Banco Central do Brasil. Nesse modelo operacional, a empresa funciona exclusivamente como intermediadora das transações financeiras, processando e repassando os valores aos lojistas credenciados, sem qualquer propriedade, posse ou benefício sobre os recursos movimentados.
A empresa ressalta que os valores transacionados pertencem integralmente aos estabelecimentos comerciais que utilizam suas soluções de pagamento. Por essa razão, eventual utilização indevida das maquininhas por terceiros não pode ser automaticamente atribuída à Ceopag, que atua como intermediadora tecnológica e financeira dentro dos parâmetros legais e regulatórios do setor. A companhia mantém rígidos processos de compliance, incluindo procedimentos de KYC (“Know Your Customer”), análises cadastrais e monitoramento contínuo das operações, justamente para identificar e comunicar eventuais movimentações atípicas às autoridades competentes, cumprindo integralmente seu dever de diligência. A Ceopag também destaca que está colaborando de forma transparente e integral com as autoridades e com a Justiça, prestando todos os esclarecimentos necessários e contribuindo ativamente para o andamento das investigações.
A Ceopag reforça que cumpre integralmente com todas as obrigações legais e normativas do segmento, que não há qualquer desdobramento que comprove irregularidades praticadas pela companhia. A empresa segue operando normalmente e mantendo suas atividades dentro dos mais rigorosos padrões de conformidade, governança corporativa e compliance.
Destacamos que:
* Cumprimos sempre com todas as obrigações regulatórias e fiscais aplicáveis ao setor de meios de pagamento e instituições financeiras;
* Realizamos envio periódico de obrigações acessórias, incluindo declarações e reportes exigidos pelos órgãos competentes; assim como DIMP mensais, DECRED e E-financeira semestrais, além das demais perante aos órgãos reguladores;
* Possuímos processos rigorosos de KYC (Know Your Customer) aplicados em toda nossa base de clientes;
* Contamos com uma equipe especializada de compliance certificada, responsável pelo monitoramento contínuo das operações e pela adoção das melhores práticas de mercado;
* Atuamos em total conformidade com as normas legais e regulatórias vigentes.
Repudiamos veementemente qualquer acusação ou associação indevida que possa comprometer a reputação ilibada da empresa, de seus acionistas e de seus colaboradores, todos reconhecidos por sua atuação ética, idônea e pelo cumprimento rigoroso de suas obrigações legais.
Queremos destacar que, declaramos que somos fiscalizados pela Receita Federal do Brasil, COAF e demais órgãos competentes.
A Ceopag reafirma seu compromisso inegociável com a ética, a transparência e a segurança de seus clientes, pautando todas as suas operações no respeito às normas regulatórias e na construção de relações sólidas, responsáveis e de confiança com o mercado.
Atenciosamente,
Ceopag
Diretoria"