SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SÁBADO, 21 DE MAIO DE 2022
VIOLÊNCIA

Funcionários de restaurante tentam impedir agressão contra mulher em Rio Preto

Eles tentaram retirar mulher de dentro de carro que passava em avenida

Arthur Pazin
Publicado em 17/01/2022 às 23:20Atualizado em 18/01/2022 às 09:25
Imagem mostra um dos funcionários que saíram em defesa da mulher e tentaram retirá-la do carro (Reprodução)

Imagem mostra um dos funcionários que saíram em defesa da mulher e tentaram retirá-la do carro (Reprodução)

Seguranças e funcionários do restaurante Dai, localizado na avenida Alberto Andaló, em Rio Preto, tentaram resgatar uma mulher que estaria sendo agredida dentro de um carro, na noite deste sábado, 15. Dois boletins de ocorrência foram registrados na Central de Flagrantes e o caso será investigado.

No primeiro, a mulher, de 38 anos, afirma que era agredida e que, em determinado momento, tentou saltar do veículo em movimento. Ela disse à polícia que conseguiu sair do carro com ajuda de dois homens, não identificados, que a pegaram pelo braço enquanto o marido tentava segurá-la pelos cabelos.

O homem, de 36 anos, também procurou a polícia para dar sua versão sobre o ocorrido. Ele alegou que resolveu acelerar o carro na avenida Alberto Andaló e que, por conta disso, a mulher ficou alterada, passando a gritar para que ele parasse o veículo. O suspeito nega que tenha agredido a mulher e diz que ele é quem foi agredido com vários socos por um dos homens que a tiraram do carro.

A situação foi filmada por pessoas que estavam no restaurante. Na gravação, é possível ver o momento em que o carro está parado no semáforo, na esquina do restaurante. Não é possível verificar com clareza o que acontece dentro do veículo, mas testemunhas alertam que a mulher está sendo agredida, enquanto funcionários e seguranças do restaurante correm até o veículo e tentam resgatá-la. O motorista arranca em alta velocidade, com a mulher dentro do carro.

O vídeo foi compartilhado por diversas pessoas e grupos e as imagens repercutiram nas redes sociais, sendo publicado até mesmo pelo perfil do Instagram do próprio estabelecimento, que postou junto às imagens, no último domingo, 16, uma nota de repúdio, informando o caso e ressaltando que o homem "tentava tapar a sua boca para que não gritasse por ajuda".

A página do restaurante contou, ainda, em nota, que a equipe "rapidamente tentou tirá-la de dentro do carro para preservar a sua vida, mas infelizmente não tiveram sucesso", identificado a placa do veículo e denunciando à polícia.

Em seu perfil no Instagram, o núcleo Rio Preto do grupo Mulheres do Brasil repudiou o ocorrido. De acordo com eles, a violência contra a mulher, "em todas as suas formas, é inaceitável e preocupa, (...) toda a sociedade". O grupo destacou a ausência de políticas públicas para cessar a violência.

Na publicação, o estabelecimento também recomendou que as pessoas divulgassem e denunciassem "qualquer tipo de violência contra a mulher". Algumas horas após a postagem do vídeo, a página do restaurante afirmou que o restaurante e outros perfis que divulgaram as imagens foram "ameaçados (anonimamente) de ser processados judicialmente pela divulgação do vídeo". Muitas delas, inclusive, chegaram a usar a expressão "em briga marido e mulher, se mete a colher sim".

Procurado pela reportagem para falar sobre as publicações, o Dai informou, em nota, que não tem "interesse em abordar mais o assunto". “Não poderíamos ficar omissos diante da barbaridade ocorrida. Agora, soubemos que a vítima já registrou boletim de ocorrência e foi aberto inquérito policial contra o agressor. Portanto, não podemos mais interferir no trabalho do órgão competente para punir ou julgar o agressor", disse o restaurante.

Denúncia deve ser feita à polícia

A delegada Dálice Ceron, da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Rio Preto, ressaltou a importância de se discutir casos como esse e intervir, mas alertou sobre as formas como isso deve ser feito e lembrou que a denúncia sempre deve ser feita à polícia e/ou autoridades competentes.

“Existe uma diferença entre denunciar e divulgar. Não se deve divulgar vídeos de casos porque aumenta a exposição e dá abertura para uma situação conflituosa”, explicou a delegada. “A mulher não merece ser usada dessa forma. Ninguém merece a violência. É importante a comunicação, é obrigação denunciar no sentido de cessar a conduta para incentivar a mulher e conscientizar o homem, mas expor pode complicar, pois entra na individualidade”, disse Dálice.

A advogada Carla Andriguetto destacou que o fato mostra que a sociedade está repudiando cada vez mais esses tipos de comportamentos de violência contra a mulher, o que serve como “freio inibidor da violência”, tendo a conduta dos funcionários e outros envolvidos podido até mesmo ter impedido o feminicídio, conduta esta legal, de acordo com ela, já que o delito saiu da esfera privada.

A advogada, no entanto, lembrou que o fato de gravar a ocorrência e publicá-la nas redes sociais pode tornar o denunciante o denunciado. “A Constituição Federal assegura o direito de imagem, e isso inclui também a imagem do agressor”, explicou Carla.

Por outro lado, a advogada lembrou que não há problemas caso a vítima queira relatar uma violência nas redes sociais, tomando alguns cuidados. De acordo com ela, o relato pode conter a exposição da história, depoimento, descrição do agressor sem identificação evidente e publicação de provas, desde que não identifique de maneira clara o agressor ou o estabelecimento. Para ela, denunciar casos como este, com o devido cuidado, é importante, pois encoraja outras mulheres a denunciarem seus agressores.

 
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