Polícia investiga empresário que pintou o cabelo e a barba de idoso
Delegado abre inquérito para investigar empresário por constranger idoso de 83 anos a pintar cabelo e barba; o crime foi filmado e vídeo viralizou nas redes sociais, causando indignação

O delegado seccional de Rio Preto, Everson Contelli, determinou, de ofício, a instauração de inquérito policial para investigar o empresário Renato Eugenio Dias por dois crimes previstos no Estatuto do Idoso após tomar conhecimento de imagens que mostram o homem constrangendo um idoso de 83 anos a pintar os cabelos e a barba de vermelho como condição para receber uma sacola de roupas.
O vídeo, gravado por uma testemunha e divulgado nas redes sociais, mostra o aposentado João Batista, que vive em situação de rua, em uma garagem de veículos.
Apontado como proprietário da empresa, Renato tenta convencer o idoso a pintar o cabelo e a barba de “acaju”, como condição para receber uma doação de roupas usadas.
A vítima se recusa, dizendo claramente: “eu não quero”.
Mas o homem insiste: “Você não quer que te ajuda? Vou dar R$ 50 pra você. Estou te ajudando, sou teu amigo”.
O idoso cede e o empresário passa, com agressividade, uma mistura na barba e cabelo dele, chegando a passar na boca da vítima, que cospe a tintura.
Para o delegado Everson, a conduta configura discriminação e injúria. "Registramos o caso de ofício após tomarmos conhecimento dos fatos pela imprensa. Todas as circunstâncias serão devidamente apuradas, inclusive com a coleta da versão do suposto autor", disse.
A Polícia Civil também expediu requisição para que o idoso seja submetido a perícia no Instituto Médico Legal, de modo a apurar se a tintura provocou alguma lesão.
A cena causou revolta e repercutiu em rede nacional.
“A sociedade se perdeu! Desrespeitam o ser humano e quanto mais vulnerável, menor é o seu valor. Uma sociedade doente, perversa, que torna os 'invisíveis', agora visíveis para garantir likes”, escreveu Amena Ferraz, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa.
A situação de maus-tratos chegou à Secretaria de Desenvolvimento Social. Em publicação nas redes sociais, a secretária Lana Braga informou que vai formalizar denúncia junto ao Ministério Público contra o empresário.
“Nenhuma pessoa deve ser exposta ao ridículo, à humilhação e ao constrangimento por sua condição social. Quando isso acontece com uma pessoa idosa e em condição de vulnerabilidade, a gravidade é ainda maior”, publicou.
Segundo Lana, João Batista é acompanhado desde 2019 pela rede socioassistencial do município.
Ao Diário, o promotor de justiça Sérgio Clementino disse que aguarda o relatório do atendimento prestado pelo município para estudar medidas que podem ser tomadas.
“O idoso fez isso (permitir o tingimento) claramente contrariado. Isso ofende a dignidade da pessoa humana e o Ministério Público está abrindo uma investigação para apurar as responsabilidades, que podem caracterizar crime do Estatuto do Idoso e ensejar indenização por dano moral”, disse.
O defensor público Julio Tanone afirmou que orientou a equipe de abordagem social da Prefeitura a conversar com o idoso sobre a possibilidade de ação indenizatória. “Claramente, há responsabilidade civil. Só que isso depende da vontade, do desejo dele de tomar providências nesse sentido. Houve ali, evidentemente, um ato ilícito indenizável.
“Amizade”
Em retratação publicada em vídeo, o empresário Renato Eugenio chama a vítima de “Simão” e diz que o conhece há 20 anos.
“Era um clima de amizade. Como fazia muitos anos que eu não via ele, ele veio até a loja, estava cabeludo, barbudo, e até falei: vamos pintar seu cabelo, deixar você mais bonito. Jamais tive intenção de causar tudo isso aí”, justificou.
O homem ainda se desculpa com quem “interpretou” que ele estivesse fazendo mal ao idoso.
“Eu ajudo ele há vários anos, inclusive nesse dia ele levou uma sacola de roupa, de agasalhos”.
Na parede do estabelecimento dele está gravada a frase: “Tudo o que desejares a mim, que Deus lhe dê em dobro”.
Defesa
O advogado Edlênio Xavier Barreto afirmou, em nota enviada à imprensa, que a defesa "compreende a consternação, a inquietação e os questionamentos provocados pela divulgação das imagens, especialmente entre os familiares do senhor envolvido e entre aqueles que legitimamente se sensibilizaram com o episódio."
Contudo, acrescenta a nota, "é importante registrar que os fatos ocorreram em contexto mais amplo do que aquele retratado pelo vídeo que passou a circular publicamente."
"O senhor envolvido é pessoa conhecida de Renato Dias há vários anos, mantendo ambos uma relação de convivência cordial e respeitosa construída ao longo do tempo. Frequentador habitual do estabelecimento comercial, trata-se de pessoa com quem Renato já mantinha contato muito antes dos fatos que vieram a público."
Segundo o advogado, "o episódio divulgado ocorreu há aproximadamente um mês, e o vídeo amplamente reproduzido consiste em recorte parcial dos acontecimentos, sem retratar a integralidade das circunstâncias e das interações havidas entre os envolvidos."
Barreto acrescenta que "Renato Dias não realizou a filmagem, não participou da edição das imagens e tampouco promoveu sua divulgação em qualquer meio de comunicação ou rede social. A repercussão posteriormente alcançada pelo episódio jamais foi desejada ou imaginada por Renato."
A defesa informa que Renato Dias permanece à inteira disposição da Delegacia de Proteção à Pessoa Idosa, do Ministério Público e de quaisquer outros órgãos responsáveis pela apuração dos fatos, confiante de que a análise completa do contexto permitirá o adequado esclarecimento do ocorrido.