Perucas devolvem autoestima a pacientes em tratamento contra o câncer em Rio Preto
Ação da ONG Cabelegria no Hospital de Base leva acolhimento e reforça a importância do cuidado emocional durante a terapia oncológica

A perda de cabelo é um dos efeitos mais visíveis e sensíveis do tratamento contra o câncer. Mais do que uma mudança estética, ela pode afetar profundamente a autoestima e o bem-estar emocional das pacientes. Com o objetivo de amenizar esse impacto, a ONG Cabelegria promoveu a doação de perucas a mulheres em tratamento no Instituto do Câncer (ICA) do Hospital de Base, em Rio Preto.
A iniciativa transforma não apenas a aparência, mas também a forma como essas pacientes enfrentam o processo de tratamento. É o caso de Darlete Mendes de Oliveira, que descobriu a doença durante exames de rotina. “Foi bem difícil. É uma notícia que a gente não espera, mas graças a Deus está indo tudo bem. Descobri no exame de mamografia, vim da minha cidade para fazer o tratamento correto”, relata.
A rotina também precisou ser adaptada. “Mudou bastante. Diminui o serviço, não posso ficar pegando muito peso. Praticamente mudou tudo em relação ao esforço físico”, conta. Ao receber a peruca, ela descreve a experiência como um marco no processo de recuperação. “Está sendo maravilhoso, volta a nossa autoestima, deixa a gente mais alegre. Cortar o cabelo já deixa a gente com vergonha, mas estou realizando meu sonho de voltar. A sensação de me ver com cabelo de novo foi maravilhosa. Não tem nem palavras para falar”.
Autoestima como parte do tratamento
Para a mastologista do Hospital de Base de Rio Preto Silvia Perea, o impacto vai além do visual. “Esse projeto é muito interessante e muito válido. No tratamento do câncer, estão envolvidas muitas questões, e o cabelo representa a autoestima. Quando a mulher descobre que vai perder o cabelo, muitas vezes ela até pensa em adiar o tratamento”, explica.
Segundo a especialista, o acolhimento nesse aspecto é essencial. “Quando você oferece uma peruca ou um lenço, isso muda muito. Não é só um cabelo. Isso impacta em todo o processo. O médico pode estar preocupado com questões mais graves, como efeitos hematológicos da quimioterapia, mas a paciente está se vendo no espelho, lidando com a queda do cabelo. Precisamos respeitar e acolher essa mulher e, sempre que possível, oferecer opções”, afirma.
O diretor técnico do ICA e dos ambulatórios do Hospital de Base, Carlos Eduardo Miguel, reforça que o cuidado emocional tem papel direto na adesão ao tratamento. “Não é uma mera questão. Quando o paciente está psicologicamente mais estável, o engajamento com o tratamento é muito melhor, assim como as chances de resposta positiva. A autoestima é uma parte fundamental. Se ela está abalada, há maior risco de depressão e de redução no engajamento”, diz.
Ele destaca ainda que a preocupação com a imagem não é exclusiva das mulheres. “Também vemos isso em pacientes homens, que temem a queda de cabelo. Essa iniciativa é fantástica, tem todo o nosso apoio e gera um impacto muito significativo”, completa.
Solidariedade que transforma
A ação é viabilizada pela ONG Cabelegria, que recebe doações de cabelo de todo o país. “Nosso objetivo é levar autoestima e ajudar, de certa forma, a melhorar o tratamento”, explica a assistente administrativa Carina Sampaio Silva. “Qualquer pessoa pode doar, com no mínimo 15 centímetros. Pode ter química, aceitamos todos os tipos de cabelo. A partir disso, confeccionamos as perucas e fazemos a doação”.
O processo é simples: a paciente realiza um cadastro e pode escolher a peruca que mais se identifica. “Temos pontos de coleta no Rio de Janeiro e em São Paulo, além da possibilidade de envio pelos Correios. Atendemos pacientes em todo o Brasil”, afirma.
Para a equipe da ONG, o retorno é imediato e emocional. “Para nós é muito importante ter esse contato direto com a paciente, e saber que estamos proporcionando um momento de mais leveza durante o tratamento. Somos muito gratos ao Hospital de Base de São José do Rio Preto, por proporcionar essa ação às pacientes em parceria conosco”, finaliza a diretora da Cabelegria, Hanna Nogueira.
Ao unir solidariedade e cuidado integral, a iniciativa reforça que, no enfrentamento do câncer, tratar o paciente vai além da doença, envolve também resgatar a autoestima e a dignidade em cada etapa do caminho