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DINORATH 100 ANOS

O dia em que a Vandeca ficou noiva

Moema do Valle Kuyumjian resgata crônica e poema inéditos de Dinorath do Valle, que sintetizam sua verve e potência como autora

por Por Dinorath do Valle
Publicado em 11/07/2026 às 19:07Atualizado em 11/07/2026 às 19:07
Vandeca marcou época em Rio Preto (Edson Baffi )
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Vandeca marcou época em Rio Preto (Edson Baffi )
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Segunda-feira, 23 de abril de 1979. Acabo de anotar tudinho do movimento da Estação Rodoviária. Guardo meu bloco com o esquema da pauta e me dou tempo na lanchonete. Quase termino o cafezinho chega a figura. Põe a mão de leve em meu ombro:

- Olá, Jornalista também levanta cedo como eu?

É Vandeca, emperiquitada numa blusa de seda velha, colete recamado de “botons”. Na cabeça o quépi de tiro-de-guerra cheio de brochinhos de personagens Disney. Senta-se no banquinho com desenvoltura, botas até os joelhos, plástico preto descascando.

- Está bonita hoje, Vandeca. É festa?

- Todo dia pra mim é festa, não tenho queixa da vida. Gosto de Rio Preto e Rio Preto gosta de mim. Exibe: – Viu minha bolsa? Foi dona Salime que deu. Para combinar com a bota, estilo balarino. Agora mesmo tomei café na casa dela, às seis da manhã. Café puro...

- Aceita uma coxinha?

Pega com elegância a coxinha, aproveita para exibir unhas pintadas de vermelho escuro. – Eu gosto assim, combina com meus “rubis” (destaca o dedo com o anel de fantasia). Ontem o Júnior me fez o penteado, (sacode os cachos). Nem virei na cama pra não estragar. Pôs bastante laquê, tá firme. O Júnior adora arrumar meu cabelo. Eu nunca pedi, ele que me convida. Me passa na frente das freguesas, ficam todas de roda especulando: Vandeca isso, Vandeca aquilo... Me disse: – Vandeca, agora você não pode mais descuidar. Abaixa a voz e me sussurra no ouvido: – Não espalhe, mas tô noiva. Namoro firme faz sete dias e meio. Lá pelas oito da noite ele pediu minha mão em casamento. Fiquei de pensar. Prometi não contar, acho que nem devo estar falando. Suspira. Estimulo, prometo que guardarei segredo.

- Sabe onde o sicrano está hospedado? No Hotel São Luiz, ali na frente do correio. Na banca de revista da frente tá cheio de revista dele.

- Não me diga! Ele é de fora?

- Decerto que é de fora! Não é nenhum boiadeiro! Abaixa a voz: – O nome dele é Super-Homem, disfarçado que nem o meu. Ali nem a polícia nem o bandido podem saber como é seu nome no registro.

Espanto as moscas da xícara e pego meu bloco. Vandeca pergunta, desconfiada, se estou querendo fazer entrevista. Digo que quero. Espero que me dê essa entrevista. Mas exclusiva, só para mim. Assim o jornal sobe meu salário.

Vandeca fica indecisa. Limpa a boca no guardanapo de papel que fica manchado de batom escuro, os lábios cheios de rugas verticais descoloridas.

Vandeca: Esta entrevista pode dar confusão, ele tem contrato; é proibido ficar noivo de brasileira...

Dinorath: Mas ele mora longe...

V: Em Petrópolis.

D: É muito longe, ninguém vai ficar sabendo, não sabem português.

V: Isso é. Você me garante que não vai prejudicar ele?

D: Garanto, se prejudicar, o jornal cobre a multa. Onde você achou o Homem?

V: No Cine Rio Preto. Estava olhando cartaz, ele chegou, puxou prosa: – Você não é Miss Guaraci? Falei sou, Miss Guaraci, Rainha do Rádio, Agente Secreta. Ele assustou: – Feito eu?! – Sorte que estava com a carteira, pude provar.

Vandeca remexe a bolsa de dona Salime: – Taqui. É uma carteira de verdade: capa em percalina verde oliva, escrito em letras de ouro Estados Unidos do Brasil. E mais: Carteira de Secreta – Departamento Estadual Decreto 00010002 de 1978 – São José do Rio Preto (SP).

Vandeca abre. De um lado, visível no bolso de plástico, a ficha: Agente X – Sexo feminino – Altura 1,60 – Cabelos escuros – Idade 28 anos – Residência: Censurada. Ao lado a foto para documento da Vandeca. De costas. Visível parte do quépi incrementado. No outro lado da carteira um atestado em papel timbrado. Muitos carimbos, datas, assinaturas.

“Autorizada a Diligenciar no Território Nacional e na Interpol”.

V: – Ele disse que minha carteira é melhor que a dele... não é, sei que a dele é melhor, ele quis me agradar...

D: – Como você sabe?

V: – Sou da Cavalaria Aérea, para a Cavalaria Aérea ninguém esconde nada. A carteira do Super-Homem é outra coisa. Ele não mostrou porque não pode, lá são rigorosos. Mas dá direito de mandar até na polícia. O presidente Garrastazu Médici me telegrafou avisando: – Dou a carteira mas não mexa com polícia, você trabalha para pôr o Brasil em ordem. Onde há ordem não há desordem.

D: – Então você estava vendo cartaz e ele disse o quê?

V: – Disse: Vamos tomar uma média. Ninguém tinha jantado. Passando do hotel me convidou: – É melhor jantar, Seu Luiz tem hoje carne ensopada. Jantamos e fomos namorar no Jardim de Baixo.

D: – O povo ficava espantado?

V: – Não, não! Ele não namorou de Super-Homem, ninguém reparou. Me perguntou se tinha visto o filme dele. E não tinha? Seu Curti me botou pra dentro. Vi a primeira e a segunda sessão. Gostei demais... Ele falou que trabalha também para a CIA, que nem eu. E faz uns biscates por conta própria. Coitado, não tem nenhuma medalha! Um país daquele e não tem dinheiro para medalha! Eu mostrei as minhas: do Correio Nacional, do Cruzeiro do Sul, Comendadora Vila Adolfo, Rainha da Primavera, Madrinha do Carnaval. De Miss não tinha, Miss não ganha medalha, as faixas estavam todas na caixa lá no quartinho de dona Salime. E as tiaras.

D: – Mas Vandeca, e a outra noiva dele?

V: – Aquela do filme? Noiva de filme não vale, ele gosta é de Mulher Secreta.

D: – Mas andou voando com a noiva do filme. Voou ou não voou?

V: – Avoou e não foi pouco. E eu vou ter ciúme de avoadas? Nem quero avoar! Tenho medo de avião, tenho medo até de subir em escada! Me dá tontura!

D: – Quer dizer que entre vocês não tem ciumeira!

V: – Ele tem! Andou me proibindo isso, aquilo. Disse que eu tava indo muito no Júnior... Pisei firme: – Você pode ser o Super-Homem, mas comigo não tem essa de proibição. Já larguei do marido uma vez por causa do assunto. Não tenho culpa se todo mundo gosta de mim. Me fazem festa, agrados, querem que eu seja vereadora pelo SAB. Me divirto mas sou direita. Mulher de um homem só.

D: – Então o Super-Homem é seu Homem Só?

V: – É o homem que tenho no momento. Amanhã, quem sabe?

D: – Não tem medo de engravidar?

V: – Não engravido, o Super é “estério” por causa da “estalatite” dele. Não tem perigo. A gente se casa em “maiêmi”, ele já telegrafou pro dono da revista.

D: – Que revista?

V: – Ué! Você não viu a revista ali na banca? O dono da revista dele é o patrão dele! A viagem de núpcias vai ser em Ibirá, lá tem aqueles banhos, aquela água de ovo choco, faz bem pro pulmão.

D: – Você acha que o Super-Homem vai gostar de Ibirá?

V: – Gosta! A gente vai de trem.

D: – Mas Vandeca, o trem não passa em Ibirá!

V: – Não passa? Como não passa? Se o Super-Homem quiser o trem passa. Duvido que não passe.

D: – E até agora vocês não fizeram “nada”?

V: (ofendida) – Eu? No Hotel São Luiz eu não durmo. Além disso sou separada, comigo só casando. Ele já sabe, avisei.

D: – Vandeca, agora preciso saber: você confirma esta entrevista? Não vai processar o jornal?

V: – Não sei, tenho que falar com ele...

D: – E quando é que você libera a matéria?

V: – Faço quê?

D: – Dá ordem pra matéria sair...

V: – Às duas horas, me procura às duas no bar do Mercadão.

D: – Então tome um vintinho pros pastéis. E cuidado com o vento...

Nota: Carmela Dalva Lombardi, a Vandeca, foi uma popular moradora de Rio Preto que acabou “adotada” pela população. Frequentava salões de beleza de graça, ganhava roupas e recebia carinho por onde passava. Viveu na cidade entre 1960 e 1989, vestia-se de forma extravagante e se autointitulava Agente da Cavalaria Aérea.

REGRESSO

Quando eu subir à tona

e regressar de mim

porque estive

no coração do rio

tentei bebê-lo

Quando eu regressar

sem o amor

que carreguei nos braços

Quando eu regressar

com olhos de pedra

que o buril das lágrimas

cinzelou de cegueiras

Quando eu regressar

com a procissão

ao meu encalço

– carpideiras malditas

da dor e da morte –

Quando eu regressar

de viagem impossível

sem partida

por túnel não aberto

na montanha

Quando eu regressar

sem sinais de passos

nas folhas do chão,

sem espinhos na coroa

com os cabelos

que se fingem tiara

Quando eu regressar

sozinha como um pêndulo

que se move e não se move

e se marca

de tola precisão

Quando eu regressar

vidrada em águas

que bebi no rio,

água do abandono,

Quando eu regressar

demasiadamente

feita de silêncio

morte e adeus

à margem do rio-eu

que me bebeu

como se eu fosse

cálice pela metade;

Quando eu regressar

com gestos de amor

entranhados nos dedos

como veias, ossos;

Quando eu regressar

totalmente morta

foi porque ateaste

fogo às águas.

Eu, nua de águas,

amor e espelhos,

regressei

quando eu regressar

Nota: Poema encontrado datilografado nos arquivos pessoais de Dinorath do Valle, sem data da escrita.