O berranteiro das Américas
Com o berrante a tiracolo, Pedro Biondo foi de caminhonete para os Estados Unidos e agora faz o caminho inverso de mula, para Barretos

Pedro Henrique Biondo nasceu em Santo André, São Paulo, e, ainda bebê, enfrentou graves problemas respiratórios. Aos dois anos de idade, foi levado para Orindiúva, onde passou a viver com os avós. O clima mais ameno, o ar puro e o contato constante com a natureza no interior transformaram sua saúde. Foi também ali que surgiu, de forma inesperada, a paixão que marcaria sua vida: o berrante.
Com o instrumento a tiracolo, ele vive uma aventura quilométrica: após viajar de caminhonete de Barretos para os Estados Unidos, agora ele faz o caminho inverso. Detalhe, a volta é montado em uma mula, acompanhado do seu fiel companheiro, o cachorro Bastião.
Nas redes sociais (@berranteiro) e em um site (berranteiro.com.br/), ele conta histórias sobre a viagem e mostra cidades, pessoas, paisagens. Na última semana, estava hospedado na casa de uma panamenha - e é assim, com o apoio de moradores locais, que ele se mantém.
Viagem
Em 2023, após dois anos de planejamento, Pedro iniciou sua viagem. Saiu de caminhonete, na companhia de seu fiel parceiro, o cachorro Bastião, e cruzou 16 países até chegar aos Estados Unidos, percorrendo 35 estados. Somente então começou a etapa mais desafiadora: seguir viagem montado em lombo de mula, a partir de Fort Worth, no Texas.
Atualmente, aos 31 anos, ele continua a jornada montado, acompanhado por um veterinário - que faz a viagem de caminhonete. Já passou pelos Estados Unidos, México, Guatemala, El Salvador, Honduras e Costa Rica, até chegar ao Panamá. A expectativa é entrar na América do Sul, na Colômbia, e concluir o trajeto em agosto de 2026, em Barretos.
Berrante
A avó comprou um berrante para ajudar Pedro a fortalecer a respiração. O instrumento, que começou como terapia, logo se tornou brincadeira, hábito e, mais tarde, identidade. Ele viveu em Orindiúva até os 18 anos. Depois mudou-se para Rio Preto para estudar e trabalhar, levando consigo o som que o acompanhava desde a infância.
“Eu comecei a tocar o berrante por causa das minhas questões respiratórias e tocava sem pretensão. Fazia um toquezinho só, mais ou menos, nem sabia para que servia. O berrante ficou parado por um tempo e, depois dos 15 anos, peguei de novo para tocar. Aí não desgrudei mais dele”, conta Pedro.
Aos 19 anos, ele participou pela primeira vez do concurso de berrante em Barretos e conquistou o segundo lugar. Desde então, nunca mais abandonou a tradição. Hoje, acumula quatro títulos de campeão em Barretos.
Mesmo com a carreira consolidada como engenheiro, Pedro percebeu que vivia no automático. “Eu estava vivo, mas não estava vivendo”, conta. Foi nesse período de reflexão que conheceu Felipe Mascetti, o Cavaleiro das Américas, famoso por ter percorrido, a cavalo, o trajeto entre o Canadá e Barretos. A amizade entre os dois inspirou Pedro a realizar sua própria jornada.
“Eu falei para o Felipe que tinha vontade de fazer algo assim. Ele me apoiou”, diz o berranteiro.
Dois anos em lombo de mula
Ao entrar na Colômbia neste sábado, retornando ao Brasil, Pedro Henrique Biondo fez os cálculos e afirmou ao Diário: essa parte do passeio tendo duas mulas como meio de transporte dura em torno de dois anos. Só na viagem de ida, de caminhonete, a duração foi de um ano.
As mulas que ele reveza na volta ao País são americanas. Foi um presente que ele ganhou de um fazendeiro e criador de animais do Estado de Oklahoma. Pedro contou que, só para domar os animais, demorou dois meses.
Desta forma, ele vai se integrando às atividades do peão de boiadeiro e se consolidando num estilo de vida no contexto de um dos patrimônios históricos e culturais mais expressivos do País, com raízes profundas na chamada Paulistânia — território associado ao caipira, que abrangia áreas dos estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. (AN)