PROJETO PILOTO

O afeto que afeta

Projeto 'O ninho que acolhe desde o berço' quer mostrar como o cuidado e acolhimento de bebês nas creches pode redesenhar o futuro de áreas socialmente vulneráveis

por Joseane Teixeira
Publicado há 15 horasAtualizado há 3 horas
Cuidadora Fernanda Batista Silva, apoio escolar do berçário da Escola Municipal Irmã Dulce, com bebê de 11 meses (Edvaldo Santos 13/03/2026)
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Cuidadora Fernanda Batista Silva, apoio escolar do berçário da Escola Municipal Irmã Dulce, com bebê de 11 meses (Edvaldo Santos 13/03/2026)
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Uma iniciativa pioneira desenvolvida pela Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, em parceria com o Projeto Ninho do Bebê e a Secretaria Municipal de Educação, aposta na troca de conhecimento entre as equipes do ensino infantil e especialistas em clínica de bebês como estratégia de educação, proteção e prevenção na primeiríssima infância.

OLHAR SENSÍVEL

Intitulado “O ninho que acolhe desde o berço”, o projeto-piloto, realizado em 2025 na creche Irmã Dulce, visa ampliar o olhar sensível e acolhedor sobre o bebê, reconhecendo-o como sujeito a partir da capacitação de professoras e profissionais de apoio escolar – um trabalho que começa pelo processo de escuta de quem atua na linha de frente do cuidado.

“O objetivo é fortalecer o vínculo afetivo entre bebês, famílias e profissionais; prevenir situações de sofrimento e vulnerabilidade na primeira infância e valorizar a atuação das creches como espaços de promoção da saúde emocional e social das crianças”, afirma a pediatra Claudia Boutros Carvalho, presidente do Projeto Ninho do Bebê.

SEMENTE

Segundo a médica, que é especialista em psicanálise de bebês, ao estabelecer um esforço coletivo pelo pleno desenvolvimento na primeiríssima infância, a comunidade planta uma semente para o amanhã: transforma a escola em lugar de proteção e pertencimento, diminui os índices de evasão escolar e reduz as demandas de judicialização dos atos infracionais.

Localizada em uma das regiões de maior vulnerabilidade social e econômica de Rio Preto, com impactos diretos na segurança pública, a creche Irmã Dulce atende atualmente 202 crianças com idades entre 4 meses e 4 anos, em período integral.

Psicóloga judiciária e coordenadora do Núcleo de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Naica), Railda Ferreira das Neves Galbiati explica que a Vara da Infância e Juventude tem trabalhado em estratégias de aproximação e fortalecimento de vínculos com populações carentes. Por meio da implementação do primeiro Polo de Proteção e prevenção da violência nas Comunidades no bairro Santo Antônio, o Naica tem coordenado, desde 2024, oficinas pedagógicas com as crianças, cursos profissionalizantes com os adolescentes e de geração de renda com as famílias.

“Essas iniciativas têm favorecido a articulação entre os vários serviços, formando uma rede interinstitucional de atendimento e proteção. A gente já estabeleceu políticas voltadas às crianças, adolescentes e adultos, faltava alcançar os bebês”, conta.

O “Ninho que acolhe desde o berço” é uma resposta institucional da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto ao Pacto Nacional pela Primeira Infância, criado pelo Conselho Nacional de Justiça.

Seguir trabalhando

Coordenadora pedagógica da creche Irmã Dulce, Josiane Francisco dos Santos afirma que o projeto agregou ao trabalho já realizado pela escola ao estabelecer conexão entre a prática pedagógica e o olhar clínico.

“Uma competência não atravessa a outra, elas se complementam. Em razão das formações em rede, nós já aplicávamos muitos conhecimentos, como o diálogo com os bebês durante as trocas de roupa e banhos, e as estratégias de acolhimento nos choros. Mas descobrimos, sob a perspectiva clínica, o que contribui para o desenvolvimento deles e o que pode deixar marcas permanentes”, disse.

A pediatra Cláudia acrescenta que a formação também inclui a importância da observação atenta sobre sinais de maus-tratos e transtornos do neurodesenvolvimento.

Como exemplo de boas práticas, ela citou a atitude de uma cozinheira da escola que compartilhou ter notado que uma criança estrangeira recém-matriculada não estava se alimentando e nem socializando na hora do recreio.

“Com muito amor, ela conduziu o menino até a cozinha e pediu para ele mostrar o que gosta. A partir desse gesto, ela se tornou para ele uma referência afetiva. Um menino que não comia e não falava poderia ser encaminhado para investigação de autismo, mas os sintomas sucumbiram ao estímulo”, exemplifica.

“Trata-se de um investimento essencial, que reconhece as creches como ambientes estratégicos para a promoção da saúde emocional e da construção de vínculos afetivos seguros. Avaliações qualitativas, como a realizada na creche participante do projeto-piloto, demonstram a relevância desse trabalho integrado, que favorece a troca de conhecimentos entre profissionais da educação, especialistas clínicos em bebês e o olhar técnico da Justiça”, comemora o juiz da Infância, Evandro Pelarin.

Rosicler Quartieri, secretária de Educação, afirma que a iniciativa é de extrema importância para a primeiríssima infância e as escolas da rede municipal porque contempla as ações referenciadas pelo Marco Legal da Primeira Infância. "É uma parceria com um projeto que realiza um trabalho sério e de qualidade, tanto com bebês e crianças pequenas quanto no que se refere à parte formativa dos profissionais de apoio que atuam na educação infantil, sensibilizando-os sobre a importância do acolhimento e formação de vínculos".

Questionada sobre a adoção do projeto como política pública em Rio Preto, a secretária respondeu que "a rede tem interesse em contemplar mais crianças e profissionais de apoio que atuam na educação infantil na rede municipal de ensino".

Os resultados do trabalho desenvolvido serão apresentados nos dias 24 e 25 de março no Simpósio-Satélite do 11º Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância, que neste ano tem como tema: “Crianças no centro das políticas públicas dos territórios”. Em Rio Preto, o evento será no auditório da Unorte. (JT)

Ressignificando vivências

Responsável pela estruturação pedagógica e metodológica do projeto “Ninho que acolhe desde o berço”, a psicóloga Karina Caldo explica que o grande diferencial dessa política pública é mostrar que todos os integrantes da creche – a professora, a auxiliar de apoio, a merendeira, a faxineira - têm o mesmo status de importância.

Por meio de encontros quinzenais após o fim do expediente, entre os meses de maio a outubro, a equipe escolar participou de dinâmicas de escuta empática e troca de experiências conduzidas por especialistas em pedagogia, psicologia e pediatria. O objetivo foi fortalecer boas práticas, reconhecer potencialidades e orientar sobre o desenvolvimento cerebral dos bebês.

“Eles ainda não falam, mas são capazes de reconhecer uma fala rude, tanto quanto um gesto de ternura. Por isso as experiências sensoriais e as interações afetivas na primeira infância estabelecem conexões neurais determinantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e motor da criança. A melodia na voz, o abraço acolhedor, o contato visual de cuidado e a palavra de validação têm o poder de transformar a criança em um adulto feliz e confiante”, diz Karina.

Durante as oficinas, as funcionárias puderam compartilhar experiências pessoais de abandono afetivo. Para 94% delas, há influência da história pessoal no cuidado com as crianças. O levantamento mostrou ainda que 79% se conectaram com a própria história durante as dinâmicas. E, ao término da ação, 75% reconheceram o bebê como um ser que sente, escuta e está formando sua identidade. “Foi algo que enriqueceu o meu fazer”, comenta Fernanda Batista Silva, profissional de apoio escolar do berçário da creche Irmã Dulce.

Essas dores emocionais não tratadas, segundo a pediatra Cláudia, podem impactar, por exemplo, no julgamento a outras mães.

“Um dos exercícios foi justamente incentivar o olhar de empatia sobre as mães que chegam na creche estressadas. Muitas vezes o comportamento agressivo é reflexo da exaustão, das dificuldades financeiras”, diz.

Karina completa que os benefícios do projeto extrapolam a proteção à infância porque fortalecem o senso de comunidade.

Vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas no ano 2000, James Heckman afirmou que o investimento na primeira infância contribui para o crescimento econômico.