Diário da Região

Mais um morador da região de Rio Preto morre em combate na Ucrânia

Jovem de Rubineia é o segundo morador da região de Rio Preto a perder a vida no campo de batalha contra a invasão russa, conflito que já dura três anos e 11 meses; ele teria promessa de receber R$ 25 mil mensais

por Marco Antonio dos Santos
Publicado em 20/01/2026 às 20:49Atualizado em 21/01/2026 às 11:31
Felipe de Almeida Borges, 25 anos, que morreu enquanto combatia como soldado contratado para defender a Ucrânia contra a Rússia (Arquivo de família)
Galeria
Felipe de Almeida Borges, 25 anos, que morreu enquanto combatia como soldado contratado para defender a Ucrânia contra a Rússia (Arquivo de família)
Ouvir matéria

A cabeleireira Clarice Batista de Almeida, de 49 anos, moradora de Rubineia, tenta há uma semana viabilizar o translado do corpo do filho, Felipe de Almeida Borges, 25 anos, que morreu enquanto combatia como soldado contratado na guerra da Ucrânia. Segundo ela, o Itamaraty e o consulado ucraniano confirmaram o óbito, mas ainda não há prazo para repatriação. Esta é a segunda morte de morador da região na guerra da Ucrânia.

A guerra teve início em 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu o território ucraniano com o objetivo de derrubar o governo e retomar áreas que integraram a antiga União Soviética, dissolvida em 1991.

Felipe teria sido contratado por uma empresa terceirizada europeia, com promessa de salário de R$ 25 mil por mês. Após treinamento militar, foi enviado para a linha de frente e morreu na primeira missão, atingido por uma arma disparada de um drone, conforme informações repassadas à família.

Caçula entre três irmãos, Felipe trabalhava na Usina Vale do Paraná e decidiu viajar para a Europa em novembro. À família, disse que faria turismo em Madri. Ele embarcou do Brasil em 19 de novembro, relatou que ficaria uma semana fora e retornaria em 1º de dezembro, o que não ocorreu.

Clarice afirma que só descobriu que o filho havia se alistado quando recebeu prints de conversas entre Felipe e um colega do trabalho. Nas mensagens, ele admitia estar na guerra, enviava uma foto uniformizado e dizia que iria ao campo de batalha entre 10 e 11 de dezembro. Também mencionava que pretendia voltar ao Brasil após o primeiro pagamento, embora o contrato exigisse três meses de serviço.

A última conversa direta entre mãe e filho ocorreu em 7 de dezembro, quando ele ainda falava como se estivesse em Madri. Depois disso, Clarice recebeu informações esparsas de um suposto soldado brasileiro que estaria na Ucrânia. Segundo ele, Felipe estaria vivo, mas sem acesso a comunicação por causa do frio extremo e das condições de combate.

A notícia da morte chegou à família em 17 de janeiro, por volta das 18h, quando uma amiga do jovem recebeu o contato de um combatente que afirmava ter estado com Felipe no front. Segundo o relato, o brasileiro foi atingido por um drone e ficou gravemente ferido. A confirmação oficial, diz Clarice, veio posteriormente pelo Itamaraty, que informou que o óbito teria ocorrido em 27 de dezembro, após período hospitalizado. Outros contatos informais apontaram a data de 20 de dezembro, o que ainda causa dúvidas.

Desde então, Clarice tenta garantir o traslado do corpo. Ela afirma que enviou todos os documentos solicitados pelo consulado e aguarda retorno da Embaixada da Ucrânia. O irmão dela, tio do rapaz, esteve em São Paulo para entregar registros que comprovam o parentesco. “Eu quero o corpo do meu filho. É meu direito como mãe enterrá-lo aqui”, diz.

Segundo Clarice, Felipe não informou aos ucranianos que tinha família, o que teria dificultado a identificação. “Eles disseram que só souberam que ele tinha mãe depois que meu irmão apresentou os documentos”, afirma.

A cabeleireira diz que pretende transformar o caso em alerta para outros jovens brasileiros que vêm sendo atraídos por promessas de salários elevados no front ucraniano. “Meu filho saiu dizendo que faria uma viagem de uma semana. Ele foi iludido. Eles prometem cerca de 25 mil por mês. Os jovens vão, morrem e acabam enterrados fora do Brasil. Peço que as autoridades parem esse aliciamento”, declara.

Emocionada, Clarice diz que fará campanha pública para orientar mães e impedir que outras famílias enfrentem a mesma situação. “Hoje é o meu filho. Amanhã pode ser o de outra pessoa. Se a gente não levantar essa bandeira juntas, outras mães vão chorar como eu estou chorando.”

O Diário procurou o Ministério das Relações Exteriores para questionar quais providências foram adotadas para trazer o corpo ao Brasil, mas o Itamaraty não havia respondido até o fechamento desta reportagem.

Leonardo, a outra vítima

Antes de Felipe, outro morador da região de Rio Preto morreu na guerra da Guerra da Ucrânia. O eletricista Leonardo Ribeiro dos Santos, de 33 anos, natural de Ilha Solteira, morreu em 26 de dezembro de 2025, após ser atingido por uma granada durante um combate.

Leonardo chegou a sobreviver por alguns dias, mas não resistiu aos graves ferimentos. Passados quase 30 dias da morte, o Ministério das Relações Exteriores não informou se o translado do corpo para o Brasil foi providenciado. Familiares não foram localizados para comentar a demora no trâmite.

Para o professor de relações internacionais Guilherme Câmara Meirelles, jovens brasileiros têm sido atraídos para a guerra na Ucrânia principalmente por altos salários, motivação ideológica e pela glamourização do conflito nas redes sociais.

“Eu acredito que o dinheiro vem em primeiro lugar, mas muito próximo da questão ideológica. Também existe a influência das redes sociais, que ampliaram a exposição dos conflitos internacionais. Cria-se quase um heroísmo, um desejo de participar da guerra para depois relatar tudo no Instagram ou no TikTok”, afirmou.

TECNOLOGIA

O professor lembra que, diferentemente dos conflitos militares do século XX, a guerra atual é marcada pelo uso intensivo de tecnologia. “Não é um combate entre homens, mas entre máquinas. São drones militares altamente armados, com sensores de calor, capazes de localizar combatentes em qualquer ponto do campo de batalha”.

Segundo Guilherme, "quando um jovem sai da região de Rio Preto para ir para a linha de frente na Ucrânia, muitas vezes ele não sabe o que está fazendo. Acredito que o principal motivo seja um pouco de dinheiro e um pouco dessa glamourização do combate”, concluiu.