SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUINTA-FEIRA, 27 DE JANEIRO DE 2022
RESGATE ANIMAL

Apenas dois em cada dez bichos conseguem voltar à natureza

Apenas dois em cada dez bichos conseguem voltar à natureza após tratamento veterinário no Zoológico de Rio Preto. Feridos, eles ficam frágeis para a vida "selvagem"

Rone Carvalho
Publicado em 22/01/2020 às 00:30Atualizado em 08/06/2021 às 00:02
Mariana Ramalho, bióloga do Bosque, com filhote de tamanduá-bandeira resgatado após morte da mãe (Fotos: Johnny Torres 20/1/2020)

Mariana Ramalho, bióloga do Bosque, com filhote de tamanduá-bandeira resgatado após morte da mãe (Fotos: Johnny Torres 20/1/2020)

De cada dez animais atendidos no Zoológico de Rio Preto nos últimos dois anos, apenas dois conseguiram voltar para a natureza. São bichos de diversas espécies que chegam ao Bosque machucados, seja pelo tráfico de animais, pelas queimadas ou por atropelamentos. Há ainda os que ficam órfãos e não conseguem se manter sozinhos na natureza. É o caso de um filhote de tamanduá-bandeira de três meses, resgatado às margens de uma rodovia de Palestina neste ano. O bicho estava junto da mãe, morta, no momento do resgate, e chegou ao zoológico ainda bebê.

"A maioria dos animais órfãos não volta à natureza, porque [eles] são mansos. Então aí eles ficam no plantel do zoológico ou num centro de reabilitação de animais selvagens. A probabilidade de reintroduzirmos esse tamanduá na natureza é pequena, pois estamos tendo que alimentar com uma mamadeira. Tem também os que chegam muito debilitados e não sobrevivem mesmo com o tratamento", explicou o biólogo do bosque Samuel Villanova Vieira.

De acordo com dados da Secretaria do Meio Ambiente, dos 1.172 animais atendidos no bosque, em 2018 e 2019, apenas 20% foram soltos de volta ao habitat após receberem tratamento, ou seja, 237 animais. Houve crescimento no número de bichos encaminhados e socorridos no Bosque. Em 2019, foram 907 bichos levados ao zoo contra 678 em 2018. Desse total, 799 precisaram de tratamento veterinário no ano passado e 373 em 2018.

Além de tratamento, o Zoológico de Rio Preto também acolhe animais que são vítimas de apreensões feitas pelo Ibama e pela Polícia Ambiental no Noroeste paulista. Grande parte dos animais que chegam das mãos das entidades fiscalizadoras são aves e répteis, como serpentes enviadas via correspondência. "Recebemos do Ibama, no ano passado, uma corn-snake (cobra do milho) que foi enviada via correios", contou o biólogo.

Segundo o tenente da Polícia Ambiental de Rio Preto Emerson Mioransi, a maior parte das apreensões feitas pela corporação na região é de pássaros. "A espécie mais comum é o canário-da-terra, que tem fácil adaptação com a região. Mas também apreendemos muitos papagaios, maritacas e trinca-ferro".

Outros animais

Tucanos, macacos e até uma onça-parda recebem tratamento no hospital veterinário do Bosque. A maioria é composta por filhotes que precisam de cuidados especiais para sobreviver longe das mães. "Recebemos muitos pássaros também que caem do ninho, que o pessoal leva para a Polícia Ambiental e eles trazem pra gente. Muitos ficam órfãos também", explicou Samuel.

No Bosque, os animais passam por uma triagem feita por veterinários e biólogos para avaliação do estado de saúde de cada um. "Muitos chegam com múltiplas fraturas e o tratamento desses animais é muito pior que cachorro e gato, que já estão acostumados. Um animal que chega no zoológico, além de estar traumatizado e órfão, ele se assusta com barulho de tudo que é jeito. É um ambiente totalmente novo para ele. Então tem mais isso durante o tratamento", destacou o biólogo Samuel. 

Ao ser questionado sobre o aumento de animais atendidos, o biólogo ressalta a degradação ambiental como causa. "São Paulo já é uma região muito degradada. A fragmentação do Estado está há pelo menos três décadas ocorrendo. As espécies começaram a se adaptar aos novos ambientes que foram surgindo e, com isso, as populações começaram a crescer. Quando uma população aumenta, ela precisa migrar, então esses animais acabam confrontando com ações do homem, e aí ocorrem os acidentes, como quando atravessam a rodovia ou são atingidos por uma colheitadeira", destacou.

Apreensões e resgates

R$ 500 é o valor da multa para cada animal silvestre apreendido R$ 5 mil é o valor da multa em caso de animal ameaçado de extinção Em caso de maus-tratos, a multa é de R$ 3 mil por cada animal. Se o bicho morrer, a pena sobe para R$ 6 mil

Apreensões

2018: 239 apreensões 514 animais (entre mamíferos, aves, répteis)

2019: 180 apreensões 368 animais (entre mamíferos, aves, répteis)

Animais no zoológico

Encaminhados 2018: 907 2019: 678

Feridos 2018: 799 2019: 373

Solturas 2018: 115 2019: 122

Apreensão todo dia na região

Um animal silvestre foi apreendido por dia no ano passado na região. Ao todo, foram 368 animais resgatados pela Polícia Ambiental de Rio Preto.

Apesar de queda em relação a 2018 - foram 514 animais naquele ano -, a polícia destaca que o número continua alto e a reincidência também. "Quem comete esse tipo de infração são pessoas mais simples, de baixa escolaridade, principalmente quando falamos de canário-da-terra (pássaro mais apreendido). Agora quando falamos de arara-canindé, que vale mais no mercado, é um público de classe média", pontuou o tenente Emerson Mioransi.

A multa para quem é flagrado com animal silvestre é de R$ 500. Mas esse valor pode triplicar em caso reincidência. Além disso, se a espécie estiver com risco de extinção, o valor chega a R$ 5 mil. Os valores das multas também mudam em caso de animal mantido em cativeiro ou de maus-tratos, a multa de R$ 3 mil pode ser dobrada caso o animal morra. "Um animal, seja ele nativo, oriundo de comércio ilegal, a pessoa não consegue regularizar de jeito nenhum. O único que consegue regularização é o animal que vem de cativeiro", explicou o tenente.

Segundo Emerson, aves são as que conseguem ser reintroduzidas com maior facilidade na natureza. Entretanto, em caso de maritacas e papagaios, cujo contato com as pessoas é mais comum, a volta é mais difícil. (RC)

 
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