LUGAR HISTÓRICO
Dinorath do Valle abriu as portas da Casa de Cultura para a criação, o fazer artístico e iniciativas como o Festival de Teatro de Rio Preto

Em plena Ditadura Militar, Dinorath do Valle assumiu a direção da Casa de Cultura de Rio Preto. Transcorria 1968, ano de endurecimento do regime. Com coragem, não se intimidou com a patrulha e colocou ideias e projetos em prática.
A Casa de Cultura se converteu em um lugar importante, ao proporcionar liberdade artística e experimentação. Assim, Dinorath do Valle abriu espaço para desenvolvimento de artistas, grupos e eventos. “Foi a grande arte-educadora e ajudou a consolidar o teatro na cidade”, afirma Pedro Ganga.
Ao lado de Humberto Sinibaldi e Eduardo Vendramini, Dinorath do Valle criou em 1969 o Festival de Teatro de Rio Preto, que originou o Festival Internacional de Teatro (FIT). É criação da escritora também o prêmio São José Risonho, estatueta conferida a todos os espetáculos selecionados que participam do evento.
Dinorath do Valle liberava o acesso à de Casa de Cultura em horários e períodos poucos usuais. “Tive o privilégio de desfrutar de noites, madrugadas e finais de semana, porque a gente trabalhava o dia todo. A única solução, para que pudesse atuar nas montagens, era ensaiar depois das 11 da noite e aos sábados e domingos.” diz Ganga.
A Casa de Cultura não se restringia a teatro. Havia lugar para diversas linguagens e manifestações, em campos como dança, música, literatura, artes plásticas, mantendo, inclusive, um ateliê, coletivo, que revelou grandes artistas não só para a cidade, mas para o país, como J. C. Serrone, hoje um dos maiores cenógrafos do Brasil, Jocelino Soares, Jaime de Souza Filho, entre outros. Por muitos anos, Hudson Buck produziu lá. “A Dinorath do Valle teve uma potência muito grande para todas as áreas. Ali que surgiu o Balé de Rio Preto”, finaliza Ganga.
Além de ser incentivadora, Dinorath do Valle escreveu três peças teatrais: “Acauã”, “O Cachorro do Povo” e “Maria Me Dá Café”, a única a ser encenada, com direção de Wander Ferreira Júnnior. O conto “O jeito”, presente no livro “A idade da Pedra Lascada”, virou espetáculo teatral pelas mãos de Ganga, em 1993, embora não tenha sido escrito com esse objetivo.
Dinorath do Valle ocupou o cargo de diretora da Casa de Cultura até 1996 e, a partir de então, se tornou consultora. Parou em 2000. Como homenagem, a Casa de Cultura recebeu seu nome.
Alicerce da cultura
Em 1964, no auditório do Instituto de Educação Monsenhor Gonçalves, Dinorath do Valle votou a favor do espetáculo “O terrível capitão do mato”, de Martins Penna, na encenação do Teatro Estudantil Rio Preto (fundado por Ewerton de Castro), como vencedor da Fase Municipal do II Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo.
Além dela, faziam parte do júri o Dr. Nelson Seixas e João Rios (representante da Secretaria de Estado da Cultura, entidade organizadora do evento).
Faziam parte do elenco Leopoldo Miceli, Cláudio Lucchesi, Waldner Lui, Vera Caputo e mais um corajoso Grupo de Teatro Amador, que venceu as agruras de uma estreia cheia de contratempos e chegou à fase final, em Botucatu, de onde trouxe muitos prêmios e muita motivação. A revelação do resultado foi tumultuada, mas Dinorath do Valle defendeu valentemente o grupo que, em seguida, e com diferentes formações, continuou a fazer espetáculos de qualidade sempre crescente.
Até que – em 1969 – com a vitória do espetáculo “A mandrágora”, de Maquiavel, no Festival Estadual de Teatro Amador de São Carlos, a partir da entrega do Troféu para o então Prefeito Adail Vetorazzo, nasce o Festival de Teatro Amador de São José do Rio Preto. Dinorath do Valle escreveu o regulamento, com sua letra linda. Depois de muitas interrupções injustas e retomadas quixotescas, este evento é hoje o FIT - Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto.
Esta é a história do início de um riacho que um dia virou um Rio Amazonas, que existe até hoje, e que dignifica nacionalmente uma cidade que se orgulha da sua Cultura, da sua Medicina e da sua pujança econômica. No alicerce desta construção, uma Professora de Artes, absolutamente visionária, e que dá nome à nossa Casa de Cultura: Dinorath do Valle.
José Eduardo Vendramini
Encenador, Dramaturgo e Professor Emérito da USP. Membro fundador do FIT, junto com Dinorath do Valle e Humberto Sinibaldi Neto