SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 18 DE MAIO DE 2022
ROUBO A JOALHERIA

Ladrões se valeram de fator surpresa e 'blindagem humana' para assaltar shopping em Rio Preto

Para especialistas em segurança, quadrilha que agiu dentro do Shopping Iguatemi na noite de sexta-feira para roubar uma joalheria premeditou a ação ao escolher um dia com bastante movimento

Joseane Teixeira
Publicado em 16/01/2022 às 07:34Atualizado em 16/01/2022 às 07:42
Ladrões roubam o cofre da joalheria no Shopping Iguatemi, em Rio Preto (Reprodução/Câmeras de segurança)

Ladrões roubam o cofre da joalheria no Shopping Iguatemi, em Rio Preto (Reprodução/Câmeras de segurança)

Se antes buscavam não chamar atenção, hoje criminosos especializados em grandes assaltos estão escolhendo justamente locais com grande concentração de pessoas para atacar. A estratégia tem como objetivo evitar um confronto direto com a polícia, que é treinada para preservar vidas. Um ambiente repleto de famílias com crianças serve como uma espécie de “blindagem”, já que não é procedimento policial trocar tiros com criminosos nesses locais, sob o risco de ferir fatalmente um inocente.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, não foi por acaso que o assalto a uma joalheria localizada no Shopping Iguatemi Rio Preto tenha ocorrido justamente em uma noite de sexta-feira, quando os centros de compras costumam atrair mais clientes.

A Polícia Civil trabalha com a possibilidade de pelo menos dez bandidos terem participado, direta ou indiretamente, do assalto. Dois deles foram presos em Americana, a 320 quilômetros de Rio Preto, poucas horas após o roubo, ocorrido nesta sexta, 14. Em São Paulo, uma mulher foi detida e assumiu que colaborou para ludibriar a segurança. Junto com a filha, de um ano, ela ajudou um dos ladrões a simular um passeio em família pelo centro de compras.

Clientes, incluindo crianças, foram escoltados pela PM para deixar o shopping na sexta (Guilherme Baffi 14/1/2022)

'Clássico'

Para o professor titular da Fundação Getúlio Vargas e associado pleno ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rafael Alcadipani, o roubo a joalherias é um “clássico” entre assaltantes. “Não é novidade o interesse nesse tipo de atividade. O que se percebe no interior é que os empresários não estão preocupados em reforçar a segurança, como o sistema de abertura dos cofres, que é uma tecnologia amplamente implantada nas joalherias de grandes capitais e que ainda não teve grande adesão no interior”, afirma.

Embora reconheça a dificuldade em impedir que assaltos como esse aconteçam, ele defende que o investimento em inteligência policial poderia inibir boa parte das ações. “Quadrilhas especializadas, com grande aparato de armas e carros, são poucas. E boa parte dos membros, já conhecida pelas polícias. Com as interceptações telefônicas e monitoramento dos suspeitos seria possível impedir que os roubos acontecessem, ou surpreender os ladrões”, disse.

O fato de o roubo ter acontecido na sexta-feira não foi mera coincidência, segundo o especialista. “Às sextas os shoppings estão mais cheios, o que inibe a ação policial, que vai evitar o confronto direto para não ferir civis. A ação da polícia é sempre voltada para preservar vidas”, afirma Alcadipani.

Para o coronel José Vicente Silva Filho, especialista em Segurança Pública, criminosos costumam agir “onde existe oportunidade e baixo risco”. “Seja arrebatar um celular de um distraído ou uma ação mais articulada como no shopping”, afirma o coronel. “É muito importante agora a competência da resposta da Polícia Civil em prender todos os assaltantes”.

Câmeras mostram ação dos criminosos

Dois assaltantes entraram na loja, um deles empurrando o comparsa em uma cadeira de rodas

Imagens de câmeras internas da joalheria, obtidas pelo Diário, mostram que a abordagem inicial foi realizada por dois homens. Um finge ser cadeirante, enquanto é empurrado pelo comparsa para dentro da joalheria Costantini.

Já perto do balcão, o falso deficiente saca uma pistola e anuncia o assalto. Os funcionários são levados para o depósito. Um terceiro integrante entra armado com o que parece ser uma submetralhadora. Ele ajuda um dos bandidos a saquear o cofre e o outro fica de vigia na loja. Joias e relógios são colocados em bolsas e o trio sai tranquilamente.

Segundos depois eles voltam, acompanhado de um quarto assaltante, também armado, e levam a vendedora como refém. Clientes se desesperam e se escondem dentro de lojas, que baixam as portas. Usada como escudo humano, a funcionária é obrigada a acompanhar os ladrões até a saída. No trajeto, três seguranças são rendidos e obrigados a entregarem os revólveres.

Assalto relâmpago durou 4 minutos

Delegado Paulo Buchala Júnior destaca que ação em Rio Preto tem semelhança com roubo ocorrido em shopping de Sorocaba

A notícia do assalto, que durou 4 minutos ao todo, repercutiu rapidamente pelas redes sociais e logo todo o prédio foi cercado pela PM. Equipes se dividiram em varredura pelos corredores e nas portas de acesso. Mulheres e crianças foram liberadas primeiro. Já os homens foram revistados e tiveram as bolsas verificadas. Segundo o coronel da PM, Paulo Sérgio Martins, comandante do 17º Batalhão, havia a preocupação de parte dos criminosos tentar sair entre o público, tal como ocorreu no assalto ao Walmart, em 2018.

Por meio do circuito de monitoramento foi possível apurar que a quadrilha fugiu em dois veículos, um Volvo e um Creta. Eles foram abandonados em áreas rurais próximas ao shopping e apreendidos pela Polícia Civil, que tenta identificar impressões digitais.

Dois suspeitos em um Gol foram abordados por uma equipe do Tático Ostensivo Rodoviário em Americana. No carro havia algumas peças de joias.

O delegado Paulo Buchala Júnior, da Delegacia de Investigações sobre Crimes Patrimoniais, vinculada à Deic, pediu a prisão temporária da dupla, que foi deferida pela Justiça.

“Os elementos que tínhamos naquele momento não davam segurança para uma prisão em flagrante. Mas há fortes indícios de que eles deram cobertura para a ação”, disse o delegado em entrevista coletiva neste sábado, 15.

Para o delegado, a ação tem semelhanças com o assalto ocorrido no shopping Iguatemi de Sorocaba, em novembro. Ele não quis revelar as pistas obtidas pela Polícia Civil sobre a cidade da quadrilha.

Joalheria fica fechada

Vitrines da joalheria dentro do Shopping Iguatemi amanheceram neste sábado cobertas por papel; loja permaneceu fechada

Um dia após o pânico causado pelo assalto à joalheria Costantini, o Shopping Iguatemi funcionou normalmente. A joalheria, porém, manteve suas portas fechadas durante este sábado, 15, e as vitrines foram cobertas com papel.

Por meio de nota, a assessoria do centro de compras afirmou que está contribuindo com as investigações policiais e que “todas as medidas de segurança seguem reforçadas”.

Vant

Para o especialista em Segurança Pública Rafael Alcadipani, uma ferramenta importante que poderia auxiliar no combate ao crime organizado seriam os vants (veículos aéreos não-tripulados). “Mais baratos que helicópteros, poderiam não apenas patrulhar essas regiões mais sensíveis como acompanhar do alto o trajeto de fuga dos bandidos.”

Com a migração das ações criminosas para o interior do estado, a Polícia Militar tem realizado ações simuladas com o objetivo de treinar as equipes para situações de enfrentamento. Uma delas aconteceu justamente no shopping Iguatemi há poucos meses.

“No treinamento aplicamos a incursão no local, aproximação dos criminosos e até atitudes a serem tomadas quando há reféns. No entanto, o sucesso da PM depende da rapidez com quem recebemos a informação. Não é preciso que o assalto aconteça, basta que o cidadão denuncie uma pessoa em atitude suspeita e a abordagem será realizada. Assim, poderemos evitar o roubo”, disse o coronel Paulo Sérgio.

Ainda segundo o oficial, a PM tem como prioridade patrulhar áreas com grande fluxo de pessoas, como os centros de compras. Nos próximos dias está prevista uma reunião com a administração do shopping afim de discutir diretrizes de segurança a serem aplicadas com base na experiência deste assalto.

 
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