Pista de arrancada onde homem morreu foi liberada 'incompleta'
Documento da Secretaria de Obras, em resposta a questionamento de vereador, aponta que faltava sinalização, barreiras físicas e fechamento do local; no sábado, um homem morreu ao extravasar a pista em uma moto mil cilindradas

A Polícia Civil de Rio Preto instaurou inquérito para investigar se a falta de sinalização de fim da pista e de área de amortecimento pode ter contribuído para a morte do mecânico Jossimar de Jesus Souza, de 39 anos, ocorrida no último sábado, 21, na Pista de Arrancada pública de Rio Preto, administrada pela Secretaria de Esportes.
Em junho do ano passado, a Secretaria de Obras, provocada pelo vereador Renato Pupo, informou que a pista havia sido entregue incompleta pela administração anterior e cita, entre as adequações necessárias, a construção de barreiras físicas, a instalação de sinalização e o fechamento da pista. No entanto, a própria Prefeitura, por meio da Secretaria de Esportes, vem liberando o espaço para competições sem concluir a obra.
Vídeos gravados por testemunhas mostram que a vítima pilota uma BMW mil cilindradas e acelera em alta velocidade pela pista de pouco mais de 600 metros. A moto, que leva apenas 6 segundos para atingir 200 km/h, extravasa a pista e bate violentamente contra uma cerca de arame. Baiano, como era conhecido, morreu no local.
O acidente teria acontecido por volta das 17h40 – 40 minutos após o término de um evento de arrancada autorizado pela Secretaria de Esportes.
Ao Diário, o organizador da competição, Alberto Flores Gonzales Junior, afirmou que cumpriu todas as determinações do poder público, o que incluía contrato de locação, contratação de ambulância e aluguel de banheiros químicos.
“Encaminhei ofício à Guarda Municipal, solicitando apoio. Mas fui informado de que a corporação não poderia disponibilizar viatura de prontidão no local. É o terceiro evento que realizo na pista e, nos dois últimos, ocorreram acidentes após o encerramento. Da próxima vez, vou exigir a presença do policiamento até que a última pessoa deixe o local”, afirma.
O folder de promoção da arrancada comprova que a competição tinha como período de realização o horário das 9h às 17h. Alberto menciona ainda que a disputa era restrita a carros e não envolvia motos.
Prestador de serviços e amigo pessoal da vítima, o torneiro mecânico Carlos Augusto afirma que Jossimar tinha moto de alta cilindrada e habilidade para pilotar – embora tenha pedido uma moto emprestada no dia do evento para, segundo consta no boletim de ocorrência, “dar uma puxada”, ou seja, acelerar até a capacidade da motocicleta.
“Ele montou na moto e jogou ‘quarta’ numa moto de mil cilindradas, no espaço de 500 metros. Ele andava de moto havia muito tempo, conhecia a pista, não era um novato. Despedir-se dele foi muito triste. O Baiano era gente boa, amigo. Se alguém precisava, ele acolhia, ajudava. Só que, infelizmente, tomou uma decisão errada”, lamentou. Jossimar, que era dono de uma oficina mecânica em Rio Preto, foi sepultado nesta segunda-feira, 23, no cemitério São João Batista.
Inacabada
Nesta segunda-feira, 23, a reportagem do Diário esteve na pista de arrancada, localizada em região afastada, norte da cidade, próxima ao local conhecido como Fazendinha.
Sem qualquer restrição de entrada, o local é acessado livremente pelas pessoas, e entra até animal. Não há sinalização indicando o fim da pista ou barreiras que protegem o público e os próprios competidores de extravasarem a pista.
“Quase todo dia tem moleque empinando moto lá e racha de carro e moto”, disse uma fonte ouvida pela reportagem. A afirmação é comprovada pela grande quantidade de marcas de pneus na pista.
A reportagem questionou a Secretaria de Esportes sobre a liberação do local para eventos sem as adequações apontadas pelo próprio governo em junho do ano passado.
A pasta afirmou que a pista é um espaço público aberto, “de acesso livre à população”. “Assim como ocorre em outros equipamentos públicos, a realização de eventos organizados no local deve ser previamente comunicada e autorizada pelo poder público, com a devida solicitação de alvarás e demais licenças exigidas, além da apresentação de plano de segurança e estrutura adequada, quando necessário."
A secretaria informou que está apurando as circunstâncias relacionadas à utilização do espaço na data mencionada e permanece à disposição das autoridades, mas não respondeu por que liberou a pista incompleta para competições, tampouco se pretende fazer as adequações apontadas em documento.
Ao Diário, o delegado Adriano Nasser, titular do 4° Distrito Policial, afirmou que o caso foi distribuído ao delegado Gustavo Henrique Gonçalves, que já instaurou inquérito.
Questionado, o Corpo de Bombeiros respondeu que eventos em locais abertos não exigem Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB).