Estudo do Butantan coloca a região de Rio Preto entre as mais perigosas para picada de escorpião
Noroeste paulista, sul da Bahia e norte de Minas Gerais concentram algumas das áreas de maior risco de acidentes por picada de escorpião no Brasil

A região de Rio Preto, junto com o sul da Bahia e norte de Minas Gerais concentram hoje as áreas de maior risco de acidentes por picada de escorpião no Brasil. O alerta faz parte de um estudo publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases, que analisou dados dos 5.570 municípios brasileiros e identificou avanço expressivo do escorpionismo pelo País, com mais de 1,7 milhão de acidentes e 1.230 mortes no período.
Ao longo desses 12 anos, a taxa nacional de incidência saltou de 31 para 142 casos por 100.000 habitantes, representando um aumento de 349%. A hipótese é que o crescimento dos acidentes esteja associado a uma combinação de fatores ambientais, climáticos, urbanos e sociais que favorecem a proliferação dos escorpiões nas cidades.
Elaborado por especialistas do Instituto Butantan, da Universidade de São Paulo (USP), do Ministério da Saúde e da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, o estudo pretende apoiar ações de vigilância epidemiológica e fornecer um mapeamento detalhado das áreas de maior risco no País, contribuindo para uma alocação estratégica e eficiente dos soros utilizados para o tratamento dos quadros mais graves de envenenamento por escorpião.
As regiões que apresentam o maior risco de escorpionismo no Brasil são o Nordeste e o Sudeste, que juntas respondem por 87% do total de casos registrados no país.
O noroeste paulista é a região mais crítica de São Paulo, segundo o artigo. O clima quente e as áreas de intensa urbanização oferecem as condições ideais para proliferação do Tityus serrulatus (escorpião-amarelo), espécie que é a principal causadora de acidentes em todo o país.
Dados da Secretaria de Estado da Saúde mostram que, no ano passado, a região de Rio Preto teve 8.835 casos de picadas de escorpião, com uma morte confirmada. Neste ano, de janeiro a maio, são 2.868 casos, sem mortes confirmadas. Com 2.233 registros, Rio Preto foi a cidade do Estado com mais casos em 2025. Neste ano, está atrás de Ribeirão Preto (748 contra 651).
Mortes
Além de registrar volumes massivos de casos de picadas por escorpião, Minas Gerais destaca-se pelo alto número de óbitos, com alerta para a porção norte do estado. Vale destacar que, no Brasil, a maioria das mortes ocorre em crianças de 0 a 9 anos.
O Nordeste tem sido historicamente afetado pela presença do Tityus stigmurus (escorpião-do-nordeste), sendo ele o principal responsável pelos acidentes na região. A Bahia desponta como principal área de risco. Além da região sul, o estado tem apresentado forte tendência de crescimento na região norte do estado entre 2018 e 2024. A possibilidade é que as altas temperaturas e a baixa pluviosidade favoreçam o ciclo biológico do escorpião.
Pontos em comum
As áreas classificadas como de alto risco apresentaram características semelhantes: temperaturas mais elevadas, menor volume de chuvas, menor cobertura vegetal e menores índices de alfabetização.
Já os municípios com maior índice de vegetação apresentaram menor risco de acidentes, enquanto as áreas urbanas quentes e secas favoreceram a proliferação dos escorpiões.
No entanto, os indicadores climáticos, ambientais e sociodemográficos mostram que as diferenças entre as áreas de alto e baixo risco são pequenas, sugerindo uma alta capacidade adaptativa dos escorpiões. Essa característica é ainda mais evidente em espécies partenogenéticas, como o T. serrulatus e o T. stigmurus, cujas fêmeas se reproduzem sem a necessidade de acasalamento. Dessa forma, um único espécime pode se instalar em um ambiente e se proliferar rapidamente.
Além disso, os acidentes também apresentaram comportamento sazonal. Os meses entre setembro e dezembro, especialmente durante a primavera, concentraram o maior risco de ocorrências em todo o País.
Como evitar
Os escorpiões conseguem se adaptar facilmente ao ambiente urbano e frequentemente ocupam galerias subterrâneas, redes de esgoto, terrenos com acúmulo de lixo e locais com grande oferta de insetos, como baratas, que servem de presa ao animal.
Em casa, é importante reforçar alguns cuidados para prevenir o aparecimento do escorpião, como evitar o acúmulo de lixo, entulho, folhas secas e materiais de construção. Até mesmo roupas sujas ou molhadas espalhadas pelo chão podem servir de abrigo para o animal, que tem hábito noturno.
A picada de escorpião provoca dor imediata e intensa. Em caso de acidente, a recomendação é lavar a região com água corrente e sabão neutro, aplicar compressa morna e buscar atendimento médico rápido – especialmente no caso das crianças, que podem evoluir para quadros graves em um curto intervalo de tempo.
Onde buscar ajudar
A maioria dos envenenamentos é leve e pode ser tratada com remédios para o controle da dor. Já os casos mais graves demandam o uso dos soros antiaracnídico ou antiescorpiônico, que são fabricados pelo Instituto Butantan.
A Secretaria de Saúde de Rio Preto ampliou os pontos estratégicos de soro antiescorpiônico. Agora, as UPAs Tangará e Santo Antonio também passam a contar com o soro, junto com o Hospital de Base, Hospital da Criança e Maternidade (HCM), UPAs Norte e Jaguaré.
“Essa ampliação é muito importante porque, com o soro disponível em todas as unidades de pronto atendimento além do Hospital de Base e HCM, consegue-se dar agilidade ao tratamento, que é mais eficaz nos casos moderados e graves,” afirmou a gerente de imunização da Secretaria de Saúde, Michela Barcelos.
A distribuição do soro antiveneno é de responsabilidade do governo do Estado de São Paulo, que mantém 243 pontos estratégicos em todo o território paulista. Por ser um insumo de produção limitada, a Secretaria Estadual da Saúde define os locais de envio com base em critérios técnicos e regionais.
Em caso de dúvidas ou denúncias de locais com infestação, a população pode buscar a Ouvidoria da Secretaria de Saúde, pelos telefones: 0800-7705870, (17) 3216-9758 ou (17) 3216-9765.
Após a denúncia, uma equipe técnica realiza vistoria no local, orienta os responsáveis e encaminha as providências cabíveis. Caso encontre algum escorpião na visita, o animal é capturado.