SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SÁBADO, 04 DE DEZEMBRO DE 2021
ENEM ENXUTO E DESIGUAL

Rio Preto tem o menor número de inscritos no Enem desde 2010

Prova está marcada para acontecer nos dias 21 e 28 de novembro

Rone Carvalho
Publicado em 21/10/2021 às 20:56Atualizado em 22/10/2021 às 13:06
Como teve de trabalhar para ajudar a família, Wilian, 18 anos, desistiu de prestar a prova neste ano (Johnny Torres 21/10/2021)

Como teve de trabalhar para ajudar a família, Wilian, 18 anos, desistiu de prestar a prova neste ano (Johnny Torres 21/10/2021)

Menos alunos rio-pretenses vão fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste ano. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) compilados pelo Atlas da Educação da Learning Data Analytic mostram que apenas 6.818 candidatos farão a prova na cidade em 2021. Até então, o menor número de inscrições havia sido registrado em 2010, com 8.053 inscritos em Rio Preto. No Brasil, foram 3.109.762 pessoas com a inscrição confirmada, menor número desde 2005. As provas estão marcadas para os dias 21 e 28 de novembro.

Dificuldades financeiras e de acompanhar as aulas remotas são apontadas como principais razões para a queda do número de candidatos rio-pretenses na principal prova de acesso a universidades públicas e privadas do Brasil.

Morador da favela da Vila Itália há seis anos, Wilian Daniel Bresle, de 18, sabe bem o que é superação para continuar os estudos. Faça chuva ou sol, o estudante percorria aproximadamente um quilômetro para pegar o ônibus e conseguir chegar na escola. Esforço que foi reconhecido. Isso porque ele conseguiu uma bolsa de estudos em um colégio particular da cidade.

Contudo, as dificuldades financeiras agravadas pela pandemia do coronavírus fizeram o adolescente adiar o sonho da faculdade para ajudar a família nas despesas de casa. “Me formei no ano passado, mas agora resolvi focar em ajudar a família. Eles estão precisando, por isso nem fiz inscrição no Enem. Isso porque acredito que para fazer a prova é necessária uma preparação e nesse ano, como estou trabalhando, optei por adiar o sonho da faculdade”, contou.

Mesmo longe da escola, Wilian não deixa de estudar. Acompanhado dos cachorros, gatos e do som dos vizinhos da favela, ele pega o lápis para ficar mais perto de ingressar no ensino superior. “Com a pandemia e o ensino remoto, tudo ficou mais difícil. Meu computador quebrou durante o isolamento, mas consegui arrumar para voltar a acompanhar as aulas”.

O estudante, que chegou a passar em matemática em uma universidade, não é o único da família que sonha em ter curso superior. A irmã Carla Kedna, 20 anos, há dois meses conseguiu ingressar no curso de design gráfico. Mesmo com o orçamento pequeno da família, ela se esforça para pagar a mensalidade. “Quando estava no terceiro ano do ensino médio, via coisas que ele (Wilian) estava vendo no primeiro ano do ensino médio na particular”, lembra.

Para a especialista em educação da Universidade de Brasília (UnB) Catarina de Almeida, faltaram iniciativas do MEC para incentivar os estudantes recém-formados do ensino médio a se inscreverem no Enem. “O fator mais determinante desse menor número de inscritos foi o próprio Ministério da Educação. Porque ele estabeleceu um conjunto de regras para excluir candidatos. Quem não compareceu na prova no ano passado, por exemplo, não podia ter isenção. Isso exclui muitos alunos com dificuldades financeiras”.

O abismo entre escolas públicas e privadas, que foi intensificado na pandemia também contribuiu para o menor número de inscrições na prova. Seja pela dificuldade de acesso à internet ou até pelo modelo de aulas adotadas. Em Rio Preto, enquanto estudantes de escolas particulares retornaram com aulas presenciais no primeiro semestre deste ano, na rede municipal os alunos retomaram apenas em setembro com 100% dos 40 mil estudantes.

Ao mesmo tempo, aumentou o número de jovens que viraram chefes de família, ajudando nas despesas de casa. Com a inflação em alta, mais gente de casa precisou começar a trabalhar para ajudar a pagar as contas das famílias mais pobres. “Muita gente ficou desempregada e isso contribuiu para menos pessoas realizarem inscrições no Enem”, completou Catarina.

Para Wilian, as dificuldades não podem desanimar os estudantes. E mesmo tendo adiado o sonho da faculdade, ele não desiste. “Eu sei que na hora certa vou conseguir”, afirmou o jovem.

 
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