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Dinorath do Valle 100 anos

Edição especial do Diário homenageia a mais importante mulher da cultura de Rio Preto com a publicação de dois textos inéditos de sua autoria, relatos familiares, histórias e informações sobre vida, obra e legado

por Raul Marques
Publicado em 11/07/2026 às 18:41Atualizado em 11/07/2026 às 18:41
Dinorath do Valle (Lézio Jr.)
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Dinorath do Valle (Lézio Jr.)
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No bucólico Interior paulista do século 20, o reduzido espaço de fala das mulheres, a distância dos grandes eventos das capitais, as desigualdades sociais, as relações familiares e a pouca oferta cultural ajudaram a moldar a personalidade de uma mulher que nasceu em 1926, transformou a cultura de Rio Preto e se colocou em destaque na produção literária e cinematográfica nacional.

Para celebrar o centenário de nascimento de Dinorath do Valle, completado em 10 de julho, o Diário preparou um caderno especial sobre vida, obra e legado da autora, que passeia pela literatura, cinema, artes plásticas, educação, jornalismo, história e artesanato.

Dinorath do Valle jamais perdeu a urgência por realizar, buscar o novo, abrir portas aos artistas, propor caminhos, expandir a criatividade e acabar com a mesmice. A multiartista publicou 14 livros, deixou seis obras inéditas e ganhou prêmios no Brasil e exterior.

Para Romildo Sant’Anna, é extraordinário o domínio da escrita de Dinorath. “Transformava o comum em literatura: simples na expressão, arguta na observação humana. Aproximava o leitor aos dramas, afetos e contradições da vida diária.”

Membro da Academia Brasileira de Letras, Ignácio de Loyola Brandão acrescenta: “Tenho a maior admiração por Dinorath do Valle, fomos amigos, ela deu amparo a um mundão de bons autores. Honrou a cultura de Rio Preto.”

Historiador, escritor e editor, Lelé Arantes destaca dois livros de Dinorath do Valle. “Pau Brasil e O Vestido Amarelo devem ser leitura obrigatória para rio-pretenses que aspiram à carreira literária. Essas obras alcançam a universalidade da literaturalatino-americana, equiparando-se à produção de autores como Lygia Fagundes Telles, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa e Érico Veríssimo.” Lelé finaliza: “O Brasil ainda não conhece a dimensão de Dinorath do Valle, cujo valor literário é notável.”

“Dinorath do Valle foi uma das mais importantes escritoras de Rio Preto, deixando um legado marcante para a literatura e a cultura. Durante muitos anos, atuou como colunista do Diário da Região e foi amiga do meu sogro Norberto Buzzini, que também tinha respeito pelo trabalho dela. Em homenagem à sua trajetória, o Centro Cultural Diário da Região mantém um espaço dedicado à sua memória, preservando sua contribuição para as futuras gerações”, afirma Patrícia Buzzini.

Nas próximas páginas, o Diário publica informações, relatos, passagens e dois textos inéditos: o poema “Regresso” e a crônica “O dia em que a Vandeca ficou noiva”. Nada melhor do que começar a conversa com uma apresentação da própria autora.

Dinorath por Dinorath(texto escrito em 1990)

Meu nome é Dinorath, tenho 64 anos, peso 100 quilos, meço 1m 50 centímetros, calço nº 37. Sou descasada há quase 20 anos, tenho três filhos (o mais velho tem 44 anos) e três netos. Nasci em Itápolis e cheguei em Rio Preto com poucos meses. Estudei aqui, onde casei e descasei. Moro sozinha numa casa com quintal e árvores onde cantam os passarinhos todas as manhãs. Vivo com o salário de professora, lecionei educação artística durante 30 anos, estou aposentada desde 1978.

Sou jornalista na ativa, faço free lancer para o Suplemento Cultura de O Estado de São Paulo e estou publicando A História da Imprensa Rio-Pretense no jornal local “A Notícia”. Sou diretora da Casa de Cultura (Municipal) desde 1968 quando a organizei.

Gosto muito de cinema, faço crítica de filmes e até filmes. Fiz e participei com textos e roteiros de alguns super oitos, 16mm e 35mm, tenho um prêmio pessoal pelo curta metragem “RG-Zero”, sobre o índio.

Minha maior paixão é a leitura, leio dois livros por semana. O difícil é comprá-los. Gosto também de bordar, todos meus vestidos são feitos e bordados por mim. Durante minhas férias trabalhistas há mais de vinte anos viajo para o nordeste, os nordestinos me fascinam, é outro Brasil. Gosto de um bom papo, sou uma pessoa simples, mulher do povo, o que escrevo tem esse sinal. Faço literatura desde meus 17 anos, quando ganhei o 1º Concurso Literário (gênero crônica, na Rádio Rio Preto PRB-8 em 1943).

Durante 25 anos fui cronista nos jornais e rádios de São José do Rio Preto. Em 1969 ganhei o Concurso de Contos do Paraná e depois disso muitos outros: o Walmap de romances do Rio, o de contos de Goiás, o Prêmio Governador do Estado em 1971 e o de Literatura Brasileira da Casa de las Américas de Cuba em 1982. Fora os menores.

Plantei oito árvores. Não sei nadar, nem dançar infelizmente. Mas aprecio bons dançarinos e bons pescadores. Sou animadora cultural, promovo concursos literários e exposições para crianças e jovens. Gosto de viver.