Diário da Região
RISCO DE SAÚDE

Mounjaro do Paraguai congestiona a rota do contrabando na região de Rio Preto

Entre 2025 e 2026 foram apreendidos 800 frascos de tirzepatida nas rodovias BR-153 e Washington Luís; tendência chama atenção da polícia

por Marco Antonio dos Santos
Publicado há 14 horasAtualizado há 2 horas
Apreensão de frascos do produto trazido ilegalmente do Paraguai, revendido com alta margem de lucro (Polícia Rodoviária Federal)
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Apreensão de frascos do produto trazido ilegalmente do Paraguai, revendido com alta margem de lucro (Polícia Rodoviária Federal)
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Grandes apreensões de canetas e ampolas de tirzepatida, conhecida pelo nome comercial de Mounjaro, despertaram a atenção das polícias rodoviárias estadual e federal para um fenômeno que começa a ganhar corpo na região. Os mesmos caminhos que ficaram famosos como "rota caipira do tráfico" passaram a servir de corredores de contrabando de substâncias emagrecedoras de alto valor no mercado financeiro.

Diante desse cenário, as polícias reforçaram o patrulhamento em trechos das rodovias Washington Luís e BR153. Entre 2025 e 2026, já foram apreendidos cerca de 800 frascos do produto trazido ilegalmente do Paraguai a preços mais em conta e revendido com alta margem de lucro.

Na ponta do negócio está o usuário do medicamento, que dói no bolso de quem consome: cada frasco pode chegar a custar R$ 3 mil. O prejuízo ocorre em dobro, considerando que geralmente o produto é de procedência absolutamente duvidosa.

A Polícia Rodoviária Federal é a responsável pela maior parte das apreensões na BR-153 de contrabando de emagrecedores. As equipes têm aumentado o monitoramento da pista, com viaturas e por meio dos radares inteligentes da rodovia. Além de serem transportados escondidos em compartimentos improvisados, os frascos viajam sem refrigeração adequada, o que pode alterar a composição da tirzepatida e colocar em risco quem consome o produto.

O porta-voz da PRF, inspetor Flávio Catarucci, afirma que o crime cresceu rapidamente por causa do alto valor agregado do medicamento. Cada frasco pode custar até R$ 3 mil. Os frascos transportados em uma única mochila podem render centenas de milhares de reais ou até R$ 1 milhão.

“As quadrilhas utilizam exatamente os mesmos caminhos já conhecidos no transporte de drogas, especialmente pelas rodovias Washington Luís e BR-153. A rota é a mesma. A gente aplica a mesma expertise do combate ao tráfico para enfrentar o transporte ilegal de medicamentos”, disse.

O delegado Malcolm Mano, da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise), confirma que o comércio clandestino desses frascos se tornou atrativo pela logística facilitada e pelo baixo volume transportado, o que dificulta a interceptação. Segundo ele, os responsáveis pela distribuição não pertencem, em regra, ao tráfico tradicional.

“Normalmente é outro segmento do crime. São contrabandistas que buscam mercadorias no Paraguai e trabalham conforme a demanda. Uma hora é telefone, outra hora computadores, depois drones. Agora é o medicamento, porque é caro, não tem para todo mundo e proporciona lucro alto.”

O delegado explicou que, embora os frascos não sejam classificados como entorpecentes, sua fabricação, importação irregular ou adulteração configura crime. Dependendo do caso, o responsável pode responder por contrabando ou pelo artigo 273 do Código Penal, que trata de medicamentos falsificados e prevê pena de 10 a 15 anos de prisão. “Se estiver falsificado, a pena pode ser muito grande”, afirmou.

Além das canetas de tirzepatida, a "rota caipira" também tem sido usada para transportar anabolizantes e estimulantes sexuais, como Drostanolona Propionato, Durateston e produtos à base de citrato de sildenafila, todos classificados como substâncias de alto risco quando utilizados sem acompanhamento médico.

Sério risco para a saúde

A médica Aline Zazeri Leite, da Atenção Integral à Saúde da Unimed Rio Preto, alerta para o perigo do uso indiscriminado das chamadas canetas emagrecedoras, especialmente diante das apreensões de produtos sem procedência garantida. Para ela, o cenário é “extremamente preocupante”.

“Não se sabe onde esses produtos foram fabricados, em quais condições, nem se realmente contêm a substância anunciada”, afirmou. Aline lembra que a tirzepatida exige armazenamento específico, inclusive controle de temperatura, algo inexistente no transporte clandestino. “Quando adquirido por vias irregulares, não há qualquer garantia de que o produto foi mantido adequadamente.”

A médica ressalta que a tirzepatida foi desenvolvida para o tratamento de doenças como o diabetes e não deve ser encarada como solução rápida para emagrecimento. “Trata-se de um medicamento que exige prescrição e acompanhamento contínuo. A recomendação deve ser individualizada, considerando histórico de saúde, doenças pré-existentes e outros medicamentos.”

Segundo ela, o uso motivado por indicações informais ou busca por resultados imediatos pode causar efeitos adversos graves, alguns ainda desconhecidos. “Na saúde, não existe atalho”, disse. Para Aline, emagrecimento saudável deve envolver orientação médica, acompanhamento nutricional e prática regular de atividades físicas. “Qualquer tratamento deve priorizar a segurança, a ciência e o cuidado integral com o paciente”, concluiu. (MAS)