As novas armas contra o mosquito da dengue
Além da vigilância de cada um, ciência e tecnologia são aliadas no combate ao Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya

Armadilhas que capturam o mosquito ou fazem com que a fêmea espalhe veneno por outros criadouros e vacina. Essas são as armas de que Rio Preto dispõe, neste momento, contra o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. Somente no ano passado, foram 53 mil casos e 40 óbitos confirmados pela doença em Rio Preto.
Os aliados no combate ao vetor da dengue são o tema desta segunda reportagem “É nossa responsabilidade”, série especial do Diário que mostra todos os aspectos da doença. Apesar de ciência e tecnologia serem essenciais, inclusive no mapeamento de onde estão as maiores infestações do mosquito e o maior volume de casos, o papel de cada um, dentro de sua casa, trabalho, igreja e quaisquer outros espaços, é indispensável.
“Diariamente, em torno de 15 a 20 pacientes com suspeita de dengue são submetidos a testes. É fundamental manter os cuidados preventivos, como eliminar recipientes que possam acumular água, realizar vistorias semanais em quintais e áreas externas e adotar medidas simples que ajudem a impedir a proliferação do Aedes”, reforça Marcial Barrionuevo, médico e diretor de Recursos Próprios e Educativos na Unimed Rio Preto. “Somente com esses cuidados será possível manter o cenário da doença controlado.”
Por causa de sua situação epidemiológica, Rio Preto foi um dos municípios que receberam as doses da vacina da Takeda, para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, que devem receber duas aplicações, com intervalo de três meses entre cada uma.
A cobertura, no entanto, está longe de atingir os 90% preconizados pelo Ministério da Saúde - tanto que a Prefeitura chegou a liberar a vacina para adultos em alguns momentos, pois estavam próximas da data de vencimento devido à baixa procura. Segundo dados de dezembro de 2025 da Secretaria de Saúde, apenas 63,9% do público-alvo haviam tomado a primeira dose e somente 34,4% completaram o esquema.
Já a vacina do Butantan contra a dengue, totalmente desenvolvida no Brasil, protege contra os quatro sorotipos da doença com apenas uma dose. Ela foi testada em Rio Preto. Neste momento, o Ministério da Saúde está iniciando um programa de vacinação em três cidades brasileiras e, com base nos resultados obtidos, ampliará a estratégia para o restante do País gradativamente.
Ivo Castelo Branco, infectologista coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), coordenou os estudos da vacina do Butantan na UFC e estuda dengue há 30 anos. “As vacinas são boas e seguras, são armas contra a doença. Mesmo com elas, no entanto, é preciso ter cuidado com o mosquito transmissor”, reforça o especialista. “A da Takeda exige duas doses, então fica essa janela entre a primeira e a segunda, e a do Butantan protege contra os quatro sorotipos da dengue já na primeira”, comenta.
Maurício Lacerda Nogueira, responsável pelas pesquisas da vacina na Famerp, explica sobre a tecnologia de ambos os imunizantes. “As duas vacinas são de vírus atenuados, eles sofreram manipulações genéticas. São capazes de infectar o organismo, se multiplicam, induzem a resposta imune, mas não causam a doença”, esclarece.
As armadilhas
Em Rio Preto estão sendo utilizados dois tipos de armadilhas contra o Aedes. Em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), a Secretaria de Saúde instalou em dezembro 240 armadilhas do tipo BG Sentinel nas áreas do Jaguaré/Anchieta, Vetorazzo/Solo Sagrado e Parque Industrial. A pasta informou que cada ponto vai receber o equipamento mais duas vezes, até março.
“Os resultados da pesquisa poderão subsidiar novas estratégias de controle de vetor, com ações direcionadas e priorizadas. As instalações contam com auxílio dos agentes de saúde e também da Famerp”, disse a Secretaria. Os dispositivos atraem e capturam mosquitos adultos, permitindo que estratégias de controle do vetor sejam elaboradas pela Vigilância Epidemiológica.
Em paralelo, foram instaladas 6 mil Estações Disseminadoras de Larvicidas (EDLs), espalhadas em todas as regiões do município. Trata-se de um recipiente com água e um suporte impregnado com larvicida. Quando a fêmea do mosquito vai colocar os ovos no criadouro, entra em contato com o veneno e passa a levá-lo para outros recipientes, ajudando a interromper o ciclo do vetor de forma indireta e ampliada.
“As estações são instaladas prioritariamente em áreas com maior risco de transmissão, definidas a partir de critérios epidemiológicos, como número de casos notificados, histórico de infestação e características ambientais favoráveis à proliferação do mosquito”, explicou a Saúde. “A utilização da EDL integra um conjunto de ações que inclui ainda visitas domiciliares".
AS ARMAS CONTRA O MOSQUITO
VACINAS
Qdenga (Takeda - biofarmaêutica japonesa) - em duas doses, disponível na rede pública
para crianças e adolescentes
de 10 a 14 anos, mas pode ser tomada na rede particular por pessoas com idade entre 4 e 60 anos. São duas doses, com três meses de intervalo entre cada uma.
A vacina completamente desenvolvida no Brasil, pelo Instituto Butantan em parceria com universidades, inclusive a Famerp, de Rio Preto. O Ministério da Saúde está iniciando um plano de vacinação, começando pelos municípios de Botucatu, Maranguape (Ceará) e Nova
Lima (Minas Gerais), protegendo pessoas de 15 a 59 anos. A ideia é analisar o impacto da vacina e a dinâmica de transmissão da doença para então traçar ampliar a estratégia para todo o Brasil.
COMO FUNCIONAM AS VACINAS?
Os dois imunizantes disponíveis têm como base o vírus atenuado. Ou seja: sofreu manipulações genéticas que o tornaram incapaz de causar a doença, mas capaz de infectar o organismo, se multiplicar e induzir a resposta imune.
As duas vacinas são seguras tanto para quem já teve dengue como para quem nunca foi infectado.
ESTAÇÕES DISSEMINADORES DE LARVICIDAS
A Secretaria de Saúde de Rio Preto está trabalhando com as Estações Disseminadoras de Larvicidas (EDLs) como uma das estratégias complementares no enfrentamento à dengue. São 6 mil delas espalhadas em todas as regiões da cidade, de forma estratégica e com base em análises epidemiológicas.
Como funcionam? Trata-se de um dispositivo com água e um suporte impregnado com larvicida. A fêmea do mosquito, ao pousar no local para colocar seus ovos, entra em contato com o veneno e passa a espalhar o produto para outros criadouros durante seu deslocamento, ajudando a interromper o ciclo de reprodução do inseto de forma direta e ampliada.
ARMADILHAS DO TIPO BG SENTINEL
Rio Preto tem 240 armadilhas do tipo BG Sentinel que foram instaladas em dezembro nas áreas do Jaguaré/Anchieta, Vetorazzo/Solo Sagrado e Parque Industrial.
A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores alemães e fazem parte de um projeto da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Secretaria de Saúde de Rio Preto.
A armadilha libera substâncias similares às que estão na pele humana, para imitar sinais que atraem o mosquito - como cheiro, calor e correntes de ar similares às do corpo humano. Desta forma, atraem o vetor adulto, ajudando a planejar ações de vigilância.
Fontes: Secretaria de Saúde de Rio Preto, Ministério da Saúde, Ivo Castelo Branco, infectologista coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Maurício Lacerda Nogueira, virologista responsável pelo Laboratório de Pesquisa em Virologia da Famerp.