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RADAR ECONÔMICO

Ou você planeja, ou o mercado te engole

por David Borges
Publicado há 10 horas
David Borges (Divulgação)
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Sim, eu sei. O ano já começou, e talvez você esteja lendo isso com a sensação de que já está correndo atrás do prejuízo. O problema é que janeiro não dá desconto para atraso; ele cobra em forma de improviso, retrabalho e gasto maior. Ainda assim, antes um alerta tardio do que um trimestre perdido, porque 2026 pode ser um ano muito bom para quem decide organizar o digital como processo, não como aposta. E esse movimento começa agora.

Todo começo de ano traz uma promessa silenciosa para quem empreende: a de que “agora vai”. Mas 2026 tende a separar, ainda mais cedo, dois tipos de empresa, a que entra em janeiro tentando adivinhar o que o cliente vai fazer e a que entra em janeiro com metas claras, rotina de acompanhamento e campanhas prontas para rodar. Parece detalhe, mas é aí que nasce a diferença entre passar o mês apagando incêndios e atravessar o trimestre construindo resultado.

O universo digital deixou de ser apenas um canal de divulgação e virou, para muitos negócios, a principal vitrine. Só que vitrine, sozinha, não vende. Vende quem organiza o caminho do consumidor, do primeiro contato até a compra; vende quem respeita o tempo do cliente; vende quem transforma comunicação em processo, e não em improviso. Hoje, o consumidor compara mais, pesquisa mais e decide mais rápido. Por isso, a empresa que não se antecipa acaba pagando mais caro para aparecer, para convencer e para recuperar o que perdeu.

O primeiro movimento do ano não deveria ser criar uma peça “bonita” ou publicar por obrigação. Deveria ser definir, com simplicidade, qual número manda no mês e no trimestre: quanto precisa faturar, qual margem mínima precisa preservar e quanto pode custar cada venda obtida com anúncios. Quando a meta é vaga, qualquer resultado parece aceitável, e isso é um risco. A disciplina começa quando se escolhe um alvo e, ao mesmo tempo, se estabelece um limite para não sacrificar o caixa em troca de volume.

Depois disso, vem um passo que muita gente evita por ser desconfortável: escolher uma prioridade real. Quem tenta melhorar tudo ao mesmo tempo não melhora nada. Ou a empresa decide focar em aumentar a conversão e tornar a compra mais simples; ou decide fortalecer o relacionamento com quem já comprou, estimulando recompra e fidelidade; ou decide atrair público mais qualificado para reduzir desperdício em anúncios. A prioridade correta é a que destrava o resto, porque toda estratégia precisa de um centro, caso contrário, vira apenas uma lista de tarefas.

Planejamento comercial também precisa caber na agenda do empreendedor. Não é necessário transformar janeiro em um projeto infinito, mas é indispensável ter um calendário mínimo: quais campanhas vão acontecer, em que dias, com quais ofertas, e qual produto ou serviço será o foco. Quando não há respiro planejado, a empresa passa o mês reagindo e reação quase sempre é mais cara do que execução. Campanhas preparadas com antecedência permitem negociar melhor, produzir conteúdo com qualidade e ajustar detalhes antes da pressão do resultado.

Outra mudança que 2026 deve exigir é tratar relacionamento com clientes como parte do faturamento, e não como uma gentileza opcional. Separar quem é novo de quem já comprou, identificar quem demonstrou interesse e não concluiu, entender quem está há muito tempo sem voltar. Com esse básico organizado, é possível criar mensagens de boas-vindas, contatos pós-compra que incentivem a próxima aquisição e ações de reativação para quem se afastou. Isso não é tecnologia distante; é organização comercial aplicada ao digital. E tem impacto econômico direto, porque reduz a dependência de anúncios para cada nova venda.

Há também um ponto prático que muitos ignoram e depois chamam de “mercado fraco”: o caminho até a compra. Quando a oferta não fica clara em poucos segundos ou as condições só aparecem no final, o consumidor desiste em silêncio. Em muitos negócios, o problema não é falta de divulgação, é atrito. Melhorar esse percurso costuma gerar mais resultado do que aumentar investimento, e ainda protege margem, porque vende mais com o mesmo esforço.

Não se trata de transformar toda empresa em especialista em tecnologia. Trata-se de gestão, planejamento e método com a mesma lógica que sempre sustentou bons negócios: definir meta, escolher prioridade, preparar campanha, organizar relacionamento, reduzir atrito de compra e acompanhar com disciplina. Quem faz isso começa o ano com vantagem, porque entra no jogo antes do apito inicial. Em 2026, o mercado tende a ser menos paciente com quem decide “pensar depois”. Janeiro já começa valendo.

David Borges

Diretor de Comunicação e Marketing da Acirp