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CIDADES

UM DOUTOR DE CORAÇÃO (E ALMA!) - UM PIONEIRO SEM LIMITES PRA SONHAR

Visionário com um pé firme no chão e outro nas nuvens, Domingo Marcolino Braile uniu sua paixão por voar, sua vocação para cirurgião, a fibra do pai ex-combatente de guerra e um "quê" de inventor para revolucionar a Medicina no interior do Brasil, a partir do pioneirismo deixado em Rio Preto

por Marival Correa
Publicado em 23/03/2020 às 21:30Atualizado em 07/06/2021 às 01:55
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Domingo Marcolino Braile não conheceu limites para alcançar os seus sonhos. Como cirurgião cardiovascular, foi um visionário com um pé no chão e outro nas nuvens. As mesmas nuvens que o encantaram, o fizeram tirar brevê e se tornar piloto, o levaram a sonhar longe e a feitos únicos dentro da Medicina. Piloto e cirurgião, atividades que exigem habilidades singulares que o desafiaram, mas também o impulsionaram. A opção pela Medicina, porém, não o impediu de exercer todas as atividades que almejou desde garoto - médico, empresário, piloto de avião, mecânico e também inventor.

Se, ao contrário, tivesse escolhido qualquer outra profissão, provavelmente ele não conseguiria ter sido cirurgião. Ou talvez não um cirurgião completo. Foi graças à influência do pai - italiano da Calábria, formado na Faculdade de Medicina de Nápoles em 1923 e um ex-combatente na Primeira Guerra Mundial - e a visitas constantes a oficinas de carros em Rio Preto que suas habilidades foram afloradas e posteriormente potencializadas.

Deixou um currículo com mais de 30 mil operações cardiovasculares realizadas, o pioneirismo ao lado de colegas igualmente hábeis e dedicados, a criação de uma empresa única que faz pesquisa e desenvolvimento de equipamentos cirúrgicos, a implantação de 21 serviços médicos em hospitais de São Paulo e de cidades do interior e uma intensa vida acadêmica, com mais 300 artigos publicados em periódicos científicos e uma legião de admiradores, de pacientes a pares de profissão que reconhecem sua marca na história da medicina.

Braile foi discípulo de Euryclídes de Jesus Zerbini (1912-1993) e com ele esteve no lugar certo, na hora certa. Zerbini foi o primeiro cirurgião a fazer transplante de coração na América Latina. E este foi o seu maior mestre e grande inspirador. "Ele tinha um sentido de brasilidade muito forte. Quando via uma bomba de cirurgia extracorpórea importada, Zerbini ia direto ao ponto: 'Desmonta essa máquina e veja o que tem lá dentro. Deve ter meia dúzia de peças simples e vendem para a gente por um preço absurdo'. Naquela época, no final dos anos 1950, só tínhamos duas bombas no HC, importadas. Ele dizia que se não aprendêssemos a fazer máquinas como aquela jamais progrediríamos."

Na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) foi aluno e colega de uma geração que criou e desenvolveu a cardiologia brasileira, cujo centro era São Paulo. Mesmo assim, manteve o plano original de voltar à cidade onde cresceu, Rio Preto, para fazer aqui o que só era feito na capital: cirurgias cardíacas a céu aberto, como é chamado o procedimento em que se abre o peito do paciente para reparar o coração por dentro.

Para tanto, era preciso o apoio de uma bomba coração-pulmão artificial - ou máquina de circulação extracorpórea como a que aprendera com o doutor Zerbini no Hospital das Clínicas de São Paulo - para fazer o coração parar sem levar o paciente a óbito. Braile já havia feito junto com Adib Jatene duas dessas bombas na oficina do Hospital das Clínicas.

Do desafio à realização

A tarefa, no início dos anos 1960, não foi nada fácil. "Rio Preto tinha 80 mil habitantes e 80 médicos. O exame mais importante que se fazia aqui era o hemograma. Não havia nem dosagem de gases. Quando casei, alguns tios da minha mulher nos deram dinheiro de presente. Usei para ir comprando alguns equipamentos e material já pensando em construir uma bomba. Fui a uma serralheria que fazia ferradura de cavalo e grades para jardins e vitrôs. E lá fiz uma máquina para que eu pudesse operar. Não teria dinheiro para comprar uma importada, que é muito cara. Como já construía as bombas do HC, fiz uma aqui também."

O empenho rendeu frutos em 1963 quando, com apoio de uma equipe dedicada, realizou, no Hospital Santa Helena, a primeira operação cardíaca com circulação extracorpórea do interior do Brasil. A equipe contava com os médicos Gilberto Lopes da Silva Junior, Cervantes Angulo, Amadeu Menezes Lorga, Neon de Melo e Oliveira, Antoine A. Yunes e Sylvio Jorge Macedo. O Santa Helena formou o primeiro serviço de cirurgia cardíaca criado no Brasil, fora das capitais.

A ligação entre Braile e o doutor Gilberto Lopes da Silva, aliás, é um capítulo à parte. "Em 1957, entrei na Faculdade de Medicina da USP, e desde aquele momento minha ligação com o Gilbertinho só cresceu. Tornou-se meu mestre, incentivador, orientador e amigo à toda prova", escreveu Braile no prefácio do livro "A Medicina que eu vivi", de 2008, que narra a trajetória do dr. Gilbertinho.

Era época em que uma plêiade da medicina fez história em solo interiorano, como o próprio doutor Gilberto, Oscar Dória, Radovir dos Santos, Nelson Seixas, Melchíades Cardoso de Oliveira, Domingo Braile, entre outros, que diariamente dispunham de seu tempo para quem não tinha condições financeiras, mas que recebiam tratamento idêntico, ou mesmo superior, aos pacientes que pagavam pelos seus serviços.

Hospital ganhará o nome de Braile

Além de decretar luto oficial de três dias pela morte de Domingo Marcolino Braile, o prefeito de Rio Preto, Edinho Araújo, anunciou em sua página oficial do Facebook, neste domingo, 22, que o hospital municipal que está sendo construído na região Norte da cidade receberá o nome de Braile.

A homenagem, segundo o chefe do poder executivo municipal, é em reconhecimento ao trabalho que o médico desenvolveu em Rio Preto e também pelo destaque não só no Brasil, mas em todo mundo como pioneiro na cirurgia cardíaca.

O aviador e o orgulho verde-amarelo

Defensor da tese de que não é possível inventar a roda, mas é possível (e necessário) torná-la mais eficiente, doutor Braile falava de um nacionalismo sem hipocrisia. Um sentimento de nação muito acima de ideologias políticas. "É bobagem ficar querendo inventar sempre a roda. Ao copiar, sempre se modifica alguma coisa e é possível patentear o processo de fabricação. Não dá para patentear a roda, mas dá para fazer isso com um processo de fabricação de roda mais eficiente. Temos alguns marcadores de viabilidade no Brasil - a Embraer, a Embrapa e a Petrobras são bons exemplos. E, claro, não podemos esquecer que a cardiologia brasileira compete em pé de igualdade com qualquer país do mundo e em todos os sentidos. Quando falamos de preço, então, ganhamos fácil", disse ele à revista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em outubro de 2010.

À Fapesp também elencou o que entendia ser os maiores desafios da medicina atual: "Apesar de já termos mapeado o DNA humano ainda não sabemos a cura de alguns dos principais grupos de doenças que nos afetam. As doenças mentais - como a esquizofrenia - são um exemplo. Outro é a moléstia cardiovascular. Cinquenta por cento das pessoas que têm infarto ou acidente encefálico não têm nenhum fator de risco conhecido. Às vezes, o infarto é o primeiro sintoma e o paciente morre. O inverso não é verdade - ou seja, quem tem algum fator de risco certamente vai ter problema em algum momento da vida. Questões como essas mostram que ainda há muito para ser descoberto, apesar dos enormes avanços. As outras duas são: artrite, uma doença autoimune, e o câncer."

O avião, um aliado

A aviação sempre foi uma paixão à parte do cirurgião. Braile aprendeu a pilotar avião aos 17 anos, o que terminou sendo útil anos depois, quando iniciou a carreira médica, para se deslocar rapidamente entre cidades distantes e difundir sua técnica e seus conhecimentos.

Piloto privado IFR de avião e planador desde 1955, tinha mais de 20 mil horas de voo. Presidiu o AeroClube de Rio Preto por 12 anos. Sobre o risco de voar, respondia sempre com o chiste do colega cirurgião Waldir Jazbik: Não! não tenho medo de voar, tenho medo é de cair!.

1968, outro ano marcante

O ano de 1968 também foi marcante na carreira do doutor Braile. Foi quando conseguiu reunir cardiologistas de Rio Preto, além de um colega de São Paulo e, juntos, criaram o Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC). "Foi nesse instituto que instalei uma oficina pequena em uma sala. Consegui bons mecânicos para trabalhar e começamos a fazer outros aparelhos. Antes disso, entre 1960 e 1961, começaram a aparecer as primeiras válvulas cardíacas. Quando se operava o doente, ou se conseguia reparar a válvula do coração ou ele morria", descreveu ele.

A partir do êxito com a criação da bomba extracorpórea, que levou à inédita cirurgia no Santa Helena, em 1963, Braile começou a lutar para desenvolver válvulas biológicas. "Operávamos os pacientes de graça em um hospital privado, o Santa Helena, do Gilberto Lopes da Silva Júnior. O problema é que não tínhamos válvulas biológicas. No HC (Hospital das Clínicas) de São Paulo começou-se a fazer válvula de dura-máter (a meninge mais superficial). Tirava-se a dura-máter da cabeça do cadáver e fazia-se a válvula. No início, foi um sucesso internacional, mas depois se mostrou inviável."

Braile percorreu um longo caminho, até fora do País, em busca de aperfeiçoar a técnica. Até que em 1973 desenvolveu a válvula de pericárdio bovino com sucesso, marco do início da Braile Biomédica. "Em 1977 ela estava no mercado. Já fabricamos mais de 70 mil válvulas", contou ele ao Diário há dez anos, ao definir esta como sua criação mais importante. "Foi algo nosso, do Brasil. Ela está muito bem estudada. Temos um banco de análise de pericárdio que ninguém tem no mundo. Foram 200 mil pericárdios testados para tração, encolhimento, elasticidade Fazemos com muito rigor e criamos os parâmetros do que é bom e do que não convém."

Também em 1968, o cirurgião foi convidado a fazer parte do corpo clínico do Hospital Infante D. Henrique da Sociedade Portuguesa de Beneficência de Rio Preto, onde criou o Serviço de Cirurgia Cardíaca. Ali implantou também o Serviço de Tratamento Intensivo e o de Residência Médica em conjunto com o IMC. Em 1969 foi eleito diretor clínico, exercendo esse cargo durante 17 anos.

Em 1991 fundou o "Instituto Domingo Braile", que realizou de 1991 a 2007, sob sua responsabilidade e orientação, 6.340 operações com circulação extracorpórea; 650 operações sem extracorpórea; e implantes de 5.760 marca-passos. E, no mesmo ano, criou o Serviço de Cirurgia Cardíaca no Hospital de Base de Rio Preto.

No total, pessoalmente ou sob sua orientação, foram realizadas mais de 30 mil operações cardiovasculares. Em toda sua carreira médica criou e auxiliou a implantação de 21 serviços médicos em diversos centros e hospitais, exercendo o cargo de chefia do serviço de cirurgia cardíaca e residência médica em sete deles, sendo preceptor de 220 residentes.

O seu crescimento profissional, sempre ligado à pesquisa científica, impulsionou-o a criar e desenvolver técnicas e produtos na área de cirurgia cardiovascular. Desde 1973 dedicou-se ao estudo da "proteção miocárdica", do que resultou a publicação de trabalhos científicos e a padronização de uma técnica, referência aqui e no exterior.