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GUERRA NA UCRÂNIA

Padre rio-pretense na Ucrânia fala sobre a rotina após 106 dias de guerra

Padre rio-pretense que vive na Ucrânia conta como está a rotina dos moradores atualmente, 106 dias após o início da invasão russa: “Acho que ninguém imaginava que fosse durar tanto tempo”, diz

por Joseane Teixeira
Publicado em 10/06/2022 às 20:20Atualizado em 10/06/2022 às 23:55
Padre rio-pretense Robson Gaviolli de Mattos, que vive há dez anos na Ucrânia (Arquivo Pessoal)
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Padre rio-pretense Robson Gaviolli de Mattos, que vive há dez anos na Ucrânia (Arquivo Pessoal)
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Cento e seis dias de guerra e de fé. Quase quatro meses após a primeira entrevista com o padre rio-pretense Robson Gaviolli de Mattos, em missão na Ucrânia há dez anos, a reportagem do Diário voltou a falar com o religioso sobre a tensão no país europeu, que desde fevereiro resiste à invasão das tropas russas.

Vigário em uma igreja da cidade de Khmelnytsky, localizada a 800 km da zona mais próxima de conflito, padre Robson não esconde o otimismo ao informar que a população local está retornando aos poucos para as suas casas.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 5 milhões de pessoas deixaram a Ucrânia por causa da guerra. No entanto, a região em que o padre vive foi poupada dos ataques - com exceção de central de distribuição de combustível, que já estava desativada, mas foi bombardeada pelas tropas inimigas.

“As barricadas foram retiradas das pontes e das avenidas e continuam apenas em prédios públicos. Não fosse pelo toque de recolher, ainda em vigor entre as 23h e as 5h, e as sirenes de alerta, poderia dizer que vivemos em relativa tranquilidade”, diz.

O rio-pretense é responsável pela missa das crianças, celebrada todos os domingos de manhã. Das 50 que costumam frequentar a cerimônia, 30 já retornaram para a igreja.

Os supermercados também operam com normalidade, sem escassez de produtos nas prateleiras. “Nos primeiros dias, houve um temor inicial sobre a falta de suprimentos e uma corrida desesperada aos mercados, que provocou desabastecimento. Hoje não temos mais esse problema”, diz.

É quase verão na Ucrânia e a retomada das aulas presenciais está prevista para setembro.

Reprodução (Reprodução)
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Reprodução (Reprodução)

O combustível, no entanto, continua sendo item disputado no país e os preços dispararam. Robson ouviu relatos de taxistas que esperaram até dois dias na fila do posto. A quantidade de litros por motorista é limitada.

A igreja em que o religioso trabalha não abriga mais refugiados, mas continua o trabalho missionário de recebimento das doações e distribuição às tropas aliadas e famílias necessitadas.

Sobre o fim da guerra, no entanto, o padre rio-pretense muda o tom. “Acho que ninguém imaginava que fosse durar tanto tempo. E ainda não há sinais de que vai acabar em breve”, lamenta.

Questionado sobre o sentimento de testemunhar o sacrifício de voluntários em campo de batalha, Robson afirma que o grande desafio, como cristão, é reforçar a mensagem de Jesus em um momento de profusão do ódio: amar ao próximo.

“Não há nada de romântico na guerra. Não há vencedores. O que eu digo aos fiéis é que é tempo de reflexão. De misericórdia. De colocar em prática a mensagem universal de perdão”.

Recentemente, Robson conheceu um soldado que atuou no front de batalha. Ao saber que o padre era brasileiro, o combatente agradeceu: obrigado por ter ficado.

No início do conflito, o rio-pretense estava em um retiro localizado a poucos quilômetros da fronteira com a Hungria, mas, na contramão dos refugiados, escolheu voltar para “casa”.

Ucranianos dizem estar 'quase sem munição'

Prédio deteriorado após ataque russo em cidade ucraniana (Divulgação/U.S. Embassy Kyiv Ukraine)
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Prédio deteriorado após ataque russo em cidade ucraniana (Divulgação/U.S. Embassy Kyiv Ukraine)

À medida que a invasão russa da Ucrânia chega ao quarto mês, autoridades em Kiev expressaram temores de que uma "fadiga da guerra" possa prejudicar a disposição do Ocidente em ajudar o país militarmente. Com a Rússia mudando a estratégia de combate para a artilharia e os países ocidentais voltando suas atenções para a crise global de energia e alimentos, a Ucrânia tem esgotado rapidamente suas munições e perdido cerca de 100 soldados por dia, e teme que esteja caminhando para perder o conflito.

Até então, a Ucrânia havia acumulado surpreendentes ganhos militares na guerra, forçando a Rússia a recuar sua ofensiva no leste do país. Analistas atribuem o sucesso à resposta rápida do ocidente em enviar ajuda militar para Kiev, além de impor duras sanções à Rússia. Mas agora Moscou parece estar mudando a estratégia para uma guerra de artilharia, que vai exigir equipamentos mais sofisticados para a Ucrânia responder, tornando-a totalmente dependente dos envios ocidentais.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o vice-chefe de inteligência militar da Ucrânia, Vadim Skibitski, disse que a Ucrânia está perdendo para a Rússia na linha de frente e depende quase exclusivamente de armas do Ocidente para manter sua defesa. “Esta é uma guerra de artilharia agora”, disse Skibitski. “Tudo agora depende do que [o Ocidente] nos dá.”

Segundo ele, a Ucrânia tem uma peça de artilharia para cada 10 a 15 peças de artilharia da Rússia. “Nossos parceiros ocidentais nos deram cerca de 10% do que eles têm”, afirmou. E acrescentou que a Ucrânia está usando de 5.000 a 6.000 tiros de artilharia por dia, o que coloca em cheque o recurso em um futuro próximo. “Nós quase esgotamos todas as nossas munições e agora estamos usando projéteis padrão da Otan calibre 155”, disse.

Além disso, a perda de soldados tem sido um alerta para a Ucrânia. Embora o país mantenha em segredo o seu número de perdas militares, o presidente Volodmir Zelenski disse na semana passada que entre 60 e 100 soldados tem morrido por dia no conflito e outros 500 se ferem.

Segundo analistas, o Kremlin pretende explorar justamente a possibilidade de que, com o conflito se arrastando e entrincheirando, haverá um possível declínio do interesse entre as potências ocidentais que podem pressionar a Ucrânia a um acordo.

Zelenski já se irritou com as sugestões ocidentais de que ele deveria aceitar algum tipo de compromisso. A Ucrânia, disse ele, decidirá seus próprios termos para a paz. “A fadiga está crescendo, as pessoas querem algum tipo de resultado [que seja benéfico] para si mesmas e nós queremos [outro] resultado para nós mesmos”, disse ele. (Agência Estado)