Os círculos do Inferno
O poema se vale da mitologia para concretizar a imagem do inferno e do Diabo

A Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri (1472), é poema épico da literatura italiana que se divide em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. A obra apresenta o Inferno com nove círculos, em cujo portal se lê: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais”.
No inferno descrito por Dante, o primeiro círculo é o limbo, destinado às almas sem batismo e que nunca chegarão a Deus. O segundo, é o Vale dos ventos, para onde iam os libertinos, que seriam arrastados ao mundo subterrâneo. O terceiro círculo, o Lago da Lama, era destinado aos gulosos, os quais ficavam atolados numa neve negra. No quarto círculo, jogavam-se os avarentos; lá eles carregariam grandes pesos. Para o quinto círculo, iam os irados, que seriam cuidados por Lúcifer. No sexto círculo, o Cemitério de fogo, ficavam os hereges, presos em túmulos de fogo. O sétimo círculo era para onde iam os violentos e os suicidas; lá, eles eram imersos no próprio sangue e arrastados para um deserto. No oitavo círculo, cheio de fossos, iam ladrões e corruptos, os quais teriam seus corpos roubados.
Na parte mais funda do Inferno, o nono círculo, eram punidos os traidores que se alimentavam uns dos cérebros dos outros.
Em A Divina Comédia, quando Dante finalmente avista Lúcifer, ele o descreve como um ser horrível, aprisionado da cintura para baixo, com grandes asas e três cabeças em que cada boca mastiga os traidores Judas, Brutus e Cássio. Nessa sua peregrinação, ele consegue se libertar dos círculos do Inferno, passa pelo Purgatório e, então, uma esperança surge em forma de Paraíso.
O inferno de Dante nos mostra todos os tipos de pecado e as punições correspondentes a cada pecador no pós-morte. O poema, que deixa claro a importância de se buscar a salvação em vida, se vale da mitologia e de seus monstros para concretizar a imagem do inferno e do Diabo. O desenho do inferno dantesco forma a construção de uma mentalidade da Idade Média e até quase dos nossos dias e nos mostra que o Diabo e os seus servos estão soltos, gerando o crescimento do medo frente ao desconhecido em uma sociedade contornada por círculos de erros, guerras e incompreensão. Tais representações fazem parte da condição humana que constrói sua identidade coletiva e passa a moldar suas regras e o seu comportamento. Que regras e comportamentos estão construindo?
Dante, em sua obra, nos faz entender que podemos evitar erros e “pecados” e quebrar o círculo vicioso dos Infernos que insistem em circundar nossas atitudes pessoais e coletivas. Para ele, isso precisa ser feito em vida, que simboliza a consciência, que só pode ser conquistada pelas almas virtuosas e munidas de força, justiça, prudência, fé, esperança e caridade, pois livre arbítrio possibilita que o ser humano mude suas atitudes.
Depois de ler Dante e me aterrorizar só de imaginar os horripilantes círculos do Inferno, convenço-me de que precisamos nos comportar por aqui...rsrs, afinal qualquer voltinha por lá pode ser eterna!
Simone Cristina Succi, Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos