O outro lado do Jardim Paraíso
Conhecido pela prostituição e pelo tráfico de drogas, o bairro de Rio Preto abriga também "casas de famílias", que sem relação com os problemas constroem a própria história

Uma família formada por quatro filhos nascidos e criados entre as casas e bares da zona de meretrício de Rio Preto. Membros da Igreja Universal do Reino de Deus, eles entram e saem do bairro a qualquer hora, recebem parentes e amigos para um bate-papo na calçada, confraternizações e levam uma vida como tantas outras famílias da cidade. Este é o outro lado do Jardim Paraíso. O bairro estampado nas páginas policiais pelos problemas por trás da prostituição e do tráfico de drogas também acolhe pessoas que por lá construíram a vida.
Silmara Perpétuo, de 48 anos, mora em uma das três ruas principais da prostituição há 20 anos. É lá que ela vive com o marido e com uma das filhas, uma garota menor de 18 anos. "O pessoal aqui é muito bom, nunca implicou com a gente, nunca entrou na minha casa", contou. "Meus quatro filhos foram criados aqui."
Vidas e histórias que foram construídas no Jardim Paraíso. "Acordamos cedo, tomamos café, minha filha vai para escola, meu marido vai trabalhar, às vezes a gente senta aqui na frente (na calçada), família e amigos vêm, ninguém discrimina", afirmou. Sossego que é garantido também por um aviso na porta da casa avisando que ali vivem pessoas fora da prostituição. A expressão "Casa de Família" é um alerta para que os visitantes não procurem e muito menos entrem nas residências em busca de prostituição.
"Às vezes o pessoal parava aqui achando que era casa de prostituição. Depois que eu coloquei (aviso pintado no muro) parou de parar carro", contou Silmara. Ela afirma também que hoje o bairro está mais agitado do que quando chegou. "Quando eu vim era mais calmo", por conta das mudanças, Silmara afirma que a família evita ficar na rua durante à noite. Questionada se sairia do bairro, ela afirma que já pensou, mas não tem planos de se mudar de lá.
Quem também está no bairro há décadas e não pensa em sair é o aposentado Pacífico Alves de Oliveira, de 76 anos. Vizinho da família de Silmara e de pelo menos oito casas identificadas como "Casas de Família", ele lembra de quando chegou no bairro. "Trabalhava de guarda no Tiro de Guerra, me mandaram embora e me deram na época cinco mil cruzeiros. Peguei esse dinheiro e comprei a casa, desde então vivo aqui com meus filhos e minha mulher."
Sentado em uma cadeira na calçada de casa, ao lado do portão também com aviso de que ali é uma residência de família, o aposentado contou sobre a vida no Jardim Paraíso. "Ninguém mexe comigo, o som perturba, mas ninguém mexe com a gente. Trabalhei muito na vida, nunca mexi com coisa errada, e daqui não saio." O filho, Jorge Alves de Oliveira, de 52 anos, complementa. "Está cheio de família aqui, está tudo misturado."
Nas outras duas quadras paralelas à rua dessas famílias estão os outros dois principais pontos da zona do Jardim Paraíso. Das 21 casas, entre pensões e estabelecimentos da rua Décio Marra, a rua dois do bairro, pelo menos três casas são sinalizadas como de família. Já na rua Francisco Ovídio, a rua três, o movimento fica por conta das meninas, como são conhecidas as garotas que vivem da prostituição oferecida no bairro.
Um quarteirão acima do principal tour da prostituição da cidade, na rua Paschoal de Crescenzo, já no Jardim Itapema, está o Instituto As Valquírias, com a missão de garantir oportunidade às mulheres, crianças e jovens que se encontram em situação de extrema pobreza.
Depois, quatro quadras mais adiante do bairro está o senhor José Oshio, de 80 anos, com sua horta urbana. É de lá que ele colhe cheiro-verde, couve, almeirão, alface e outras folhas para vender na feira do bairro Boa Vista. Desde 1951 no bairro, hoje ao redor da zona, o aposentado conta como era a região quando chegou. "Não tinha bairro, era só pasto, para tomar o ônibus tinha que descer até a Campos Sales, depois na Cenobelino (avenida) e só depois veio ponto para o Jardim Itapema."
O tempo passou e muita coisa mudou, mas para o produtor a paz na região continua reinando. "Não tem nada. Cada um na sua. Toda vida trabalhei, aqui casei, tenho cinco filhos, três moram hoje no Japão, dois moram aqui comigo e sempre tirando a sobrevivência da horta", disse ele.
Polícia como vizinha
A poucos quarteirões da zona está instalada a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) da cidade. Do outro lado da avenida Domingos Falavina, no Jardim Vale do Sol, em um prédio grande e recém reformado, que concentra as investigações de crimes contra a vida, tráfico de drogas e outros tipos de violência. "Nunca temos problemas de violência trazidos pelas famílias que moram no Jardim Paraíso por conta da prostituição", afirmou o delegado coordenador, Fernando Tedde.
Segundo ele, a posição da delegacia é estratégica. "A construção da DIG, que remonta há mais de 30 anos, se deve ao fato da localização dos bairros com mais criminalidade." Já sobre a violência registrada no bairro, o coordenador afirmou que a Polícia Civil faz um trabalho para coibir os crimes. "Ao longo do tempo esse local (Jardim Paraíso) se transformou. A polícia está sempre atenta. Vários traficantes já foram presos por vender drogas ou frequentar o bairro, casos de exploração sexual alheia também são investigados, mas há dificuldade para acabar com as práticas."
Associação Paraíso
De acordo com dados da Secretaria Municipal de Educação, 1.175 alunos da região do Jardim Paraíso são acolhidos em creches e escolas da rede municipal. A Escola Municipal Walfredo Fogaça, no Jardim Itapema, vizinho do Jardim Paraíso, é a que possui mais alunos matriculados, são 564 crianças. Convênio do município com a Associação Paraíso também atende 440 alunos em projetos de contraturno escolar.
Segundo a Prefeitura, 900 moradores do Jardim Paraíso são atendidos por mês pelo Centro de Convivência da Família (CCF), com atividades para desenvolver capacidades e potencialidades dos participantes no sentido de encontrar alternativas para o enfrentamento das vulnerabilidades sociais.