Não aponte o dedo
Prós e contras de nossos impulsos devem ser medidos pela quantidade de alegria e dor que causarão

Já reparou que cada vez que apontamos o dedo para alguém, outros três dedos se voltam para nós mesmos? Como que a natureza a nos dizer, instantaneamente no momento que julgamos ou acusamos alguém: cuidado! Você pode ser igual ou pior... E ainda tem o polegar? Ele aponta para cima, lembrando que "Deus tá vendo"!
Para quantas pessoas apontamos o dedo diariamente? Esposa, marido, sogra, irmãos, filhos, pais, colegas de trabalho, amigo, inimigo, políticos, religiosos, bandidos, policiais, famosos, vizinhos, e por aí vai.
Mas antes de apontar o dedo, pensamos se a crítica, o comentário pode ser infundado? Podemos estar baseados em boatos, achismos, puros orgulho e egoísmo em nos acharmos melhores.
É a chamada “Síndrome do dedo indicador”. Adoramos acusar, denegrir, fofocar, diminuir o outro. Gostamos mesmo. E geralmente, a acusação que fazemos ao outro não fazemos a nós mesmos. Porque somos os melhores juízes de nossas causas. A Síndrome é uma metáfora para refletirmos sobre se temos condição de exigir ou julgar definitivamente alguém com todos os vários defeitos e indecisões que temos.
Os defeitos alheios que apontamos podem ser diminutos frente ao que carregamos em nossa mente. Porém, o egocentrismo, o filhote do egoísmo, que nos faz vermos apenas o próprio umbigo, não nos deixa avaliarmos a própria conduta. Só que nos estimula a destacar com veemência o erro alheio.
A metáfora que destaca a Síndrome do dedo indicador serve também para refletirmos sobre nossos desejos. Apontarmos um dedo para o que queremos, algo que talvez nos dê prazer momentâneo. Só que outros três dedos também nesta situação nos alertam: quais são as consequências de nosso ato, do objeto de nosso desejo? Já que talvez aquilo que desejamos ardentemente, pode instigar choro e dor para o outro. Prós e contras de nossos desejos e impulsos devem ser medidos pela quantidade de alegria e dor que causarão não só para nós, mas para quem amamos, que convive conosco, e até mesmo para a sociedade.
O egoísmo nos impede de fazer esta avaliação de resultados. Imaginar quem sofre e quem goza com nossas ações. Importa, quando egoístas, o que nos satisfaz, material, física e mentalmente. Independente do raio de ação perpetrado pela nossa atitude. Por isso que a Síndrome do dedo indicador nos mostra que o problema maior da humanidade não é a fome, a doença, a pobreza, a corrupção. Todos estes males são filhos do egoísmo. Rebentos vindos do pouco caso que o ser humano tem para com os resultados de suas ações. Se eu estou bem, que mal tem? Este é o lema do egoísta-mor. Se analisarmos nosso cotidiano, veremos que tanto em nossa casa, no trânsito, no comércio, no trabalho e até no lazer presenciamos a Síndrome do dedo indicador. Um apontando o dedo para o outro. Raros, prestando atenção no que nos alertam os outros quatro dedos da nossa mão. E seguimos apontando!
Curarmo-nos desta Síndrome, prestando mais atenção aos nossos próprios defeitos e limites, usando possíveis erros alheios para aprendizado (e não para apontar o dedo), pensando também nos outros e não só em nós mesmos, pode ser a saída para o que tanto se fala e pouco se faz: homens construindo uma sociedade mais solidária.
Se der vontade de apontar o dedo, feche a mão e reflita: vale a pena?
Carlos Alex Fett, Coordenador acadêmico da Escola de Gestão Pública de Rio Preto e Consultor Empresarial – [email protected]