José Luiz Franzotti conta como é a gestão da empresa familiar que comanda, a Poty

O nome é o mesmo de quando foi fundada em 1951. De gole em gole, passados 68 anos, 42 dos quais nas mãos da família Franzotti, a Companhia de Bebidas Poty virou potência regional. Diante das gigantes Coca-Cola e Ambev, a Poty é feito Davi que incomoda Golias. Seu parque industrial, na zona rural de Potirendaba, tem impressionantes 120 mil m², sendo 19 deles de área construída onde trabalham 821 funcionários. Fabrica 95 produtos em 25 marcas, cujas estrelas são a Roller, Poty, Levity e Trieste. Com a calma típica do interior, olhos voltados para os grandes centros e paladar de quero mais, está seu diretor presidente José Luiz Franzotti. Em sua sala na empresa, onde nos recebeu para esta entrevista, além dos computadores que o mantêm atualizado sobre as vendas minuto a minuto, tem o que para ele é música das boas: o barulho das máquinas envazando bebidas. Sobre a empresa, o orgulho de ser familiar com gestão profissional balizada pela governança. Sobre futebol, a alegria de perceber que a Poty é boa de chute e faz golaços com seus patrocínios. Sobre meio ambiente, mostra a galeria de prêmios e certificações, é a Poty do dedo verde e alma límpida. Sobre a política, o Franzotti prefeito de Potirendaba por três vezes, acredita que pessoas boas encaram cargos públicos como missão de Deus. Sobre o futuro, ele costuma fazer no presente. Conheça a sede do Davi.
V&A - O empresariado de Rio Preto e região prevê uma economia bem hidratada para 2020. Qual sabor terá a sede da Poty neste ano?
José Luiz Franzotti - Sabor de otimismo! Fechamos 2019 com um resultado excelente, maior do que o planejado. Nem bem colocamos uma nova linha em andamento, a da água mineral em lata, já iniciamos o envaze da água cartonada. Em 2020 vamos acreditar ainda mais. Estamos finalizando a aquisição de uma nova linha de produção. Um conceito totalmente inovador, são raras as empresas no Brasil, mesmo as de grande porte, que contam com essa tecnologia. Vamos iniciar a linha asséptica para fabricação de qualquer tipo de produto sem adição de conservantes. É um avanço enorme, um processo produtivo completamente novo. Vai permitir produtos mais naturais, que é o grande apelo do consumidor, a saudabilidade aliada a um paladar prazeroso. Com a tecnologia dos novos equipamentos adquiridos, as bebidas não terão conservantes, edulcorante, acidulante artificial. Ainda não posso dizer por qual família de produtos iremos iniciar, mas é um passo incrível e mostra a crença que temos neste novo Brasil.
V&A - A Poty é hoje uma gigante regional. Como é possível crescer num setor tão acirrado e com um público consumidor cada vez mais exigente, voltado a produtos naturais?
Franzotti - Com uma boa equipe, comprometida em cumprir aquilo que é a nossa missão. Também estamos muito atentos ao mercado. O consumidor hoje é muito rápido, ele quer novidades, ele muda rápido, quer produtos saudáveis e de bom sabor. É preciso pesquisa de mercado eficiente e bons parceiros. Um desses parceiros, por exemplo, é um laboratório americano que está conosco há muitos anos. Começamos com ele para elaborar a fórmula da Roller, que é o nosso principal produto hoje. É a conjunção de uma equipe valorosa, a atenção ao mercado com pesquisa para entender o consumidor, a busca da tecnologia. Competimos com as maiores do mundo: a Coca-Cola e a Ambev. E também com as pequenas empresas de cada região, que muitas vezes trabalham na informalidade. Somos pressionados pelos dois lados. Vencemos as barreiras com produtos de qualidade e diferenciados. Temos também uma prestação de serviço excelente com uma equipe de vendas capacitada, boas condições de negociação, entrega rápida. Tudo para que o cliente se sinta feliz em ser nosso parceiro.
V&A - No Brasil é mais fácil produzir ou distribuir o produto? Qual impacto da logística?
Franzotti - Ter uma boa logística é um enorme diferencial. Chegar com rapidez ao cliente ajuda muito. Tanto que é uma área que temos investido bastante. Nossa empresa de logística, a Potilog, conta com uma frota atual de 90 caminhões e seis carretas. Temos tecnologia de software de rastreamento de última geração. Trabalhamos com o que chamamos de D 1. Se o vendedor tira o pedido às 8 horas, o caminhão estaciona no cliente na manhã do dia seguinte, às 8h. Como empresa regional, somos privilegiados pelo bom estado das estradas do interior de São Paulo. A boa notícia é que avançamos um pouco para o Mato Grosso do Sul e Triângulo Mineiro. E estamos também no litoral e evoluindo com um bom trabalho nas grandes redes atacadistas da capital São Paulo, que distribuem para todo o Estado.
V&A - Segundo a consultoria Euromonitor International, houve uma queda em 2018 de 2,6% no consumo de refrigerantes em relação a 2017, e o Brasil foi ultrapassado pela China, caindo para a quarta colocação no ranking global. Como o Sr. ingere esses dados?
Franzotti - Esses números são sim importantes. No nosso caso, felizmente, não houve retração; pelo contrário, crescemos. Mas há a pressão contra o consumo de refrigerantes. De que o refrigerante faz mal. A Poty quer mostrar que isso não é verdade. O nosso refrigerante é saudável, a base dele é o açúcar absolutamente natural, colhido na nossa região. E temos trabalhado para diminuir o percentual de açúcar, como é o caso da Roller. Nós reduzimos o percentual de açúcar da Roller e a produzimos 100% sem conservantes.
V&A - Como a Poty orienta suas ações sociais com a comunidade e com o meio ambiente?
Franzotti - Nossa matéria-prima principal é a água, temos de preservá-la. Fizemos um reflorestamento de sete mil árvores no entorno da fábrica. Além de cuidar das nascentes, tratamos todos os resíduos que produzimos internamente. O resíduo líquido vai para uma estação de tratamento que garante uma resolutividade de 93 a 94%. Todas as caldeiras têm filtro que não prejudicam a camada de ozônio. Também o papelão, óleo e graxa têm tratamento e destino corretos. Idem para o lixo eletrônico e as lâmpadas. O Plano Nacional de Resíduo Sólido norteou nossas ações de logística reversa que determinou a abertura da Poty Ambiental. Hoje conseguimos retornar quase 100% das embalagens que colocamos no mercado. Nenhuma empresa no Brasil tem essa performance. Instalamos ecopontos nos clientes que indicam instituições assistenciais a serem beneficiadas. Esses clientes estimulam o consumidor a devolver as embalagens. A cada período, compramos o que foi recolhido e entregamos o valor para a entidade indicada. Na Poty Ambiental, usamos a tecnologia "bottle-to-bottle", em conjunto com empresas terceirizadas e fornecedores. Com ações assim, conquistamos importantes certificações como a ISO 9000, ISO14000, ISO 18000 e a FSSC 22000, de segurança alimentar internacional. Agora buscamos a ISO 45000, que atesta a segurança do colaborador.
V&A - Como está sendo conduzida a transição no comando da Poty?
Franzotti - Doze anos atrás, começamos a construir a nossa governança corporativa de maneira muito comprometida, pois todos nós estamos de passagem, mas a empresa tem que permanecer. Ano passado finalizamos o estatuto dos sócios, com responsabilidades não mais de pessoas físicas, mas de holdings. Temos o conselho de administração, e passamos por auditorias interna e externa. Atingimos um nível de gestão que eu nem imaginava. Graças a Deus e ao empenho dos sócios mantivemos a empresa familiar, mas com uma gestão profissional. Outro orgulho: nossa responsabilidade fiscal é imensa! Se nossos concorrentes não têm essa consciência, o problema é deles. O Brasil está mudando e as empresas percebendo que vale a pena proceder corretamente.
V&A - Qual é o volume investido pelo grupo no patrocínio de clubes de futebol? Quais são os clubes e que retorno o grupo obtém?
Franzotti - O termo de confidencialidade que assinamos com os clubes não nos permite divulgar, mas o retorno é muito bom. A Poty é muito ligada ao futebol e aos esportes. Com o Mirassol começamos há muitos anos, quando ainda era da terceira divisão. Investimos somente por causa do pedido de um parceiro fantástico, a Rede-Sol. Deu tão certo que não houve só retorno de imagem para a Poty: o Mirassol também começou a subir. Outros clubes começaram a nos procurar. Fomos aprendendo a prospectar, fazer bons contratos. Quando começamos a enxergar oportunidades para entrar no mercado da capital, fizemos contrato com o São Paulo FC. Após dois anos, um diretor não quis renovar conosco porque dizia querer limpar o uniforme e o assunto foi parar na grande imprensa. Ele acabou demitido do clube. Foi então que apareceu o Corinthians, que para nós tem sido incrível, inexplicável. Eles adotaram a nossa marca e fazem muito mais do que está no contrato. É igual ao Mirassol.
V&A - O que um clube tão tradicional como o América FC, de São José do Rio Preto, faz (ou não faz) para não despertar o mesmo interesse do grupo? O que o motivaria a investir no América?
Franzotti - Para estar associado à nossa marca, o clube precisa ter credibilidade e uma imagem positiva. Infelizmente não é o caso do América hoje. Se a situação fosse outra, é claro que a gente iria investir, não tenha dúvidas. (A Poty patrocina 12 times de futebol, entre eles, Palmeiras, Santos, Corinthians, Mirassol, Novorizontino e outros regionais. A empresa apoia ainda modalidades como basquete, rúgbi, vôlei, corrida, judô.)
V&A - Qual bebida o Sr. recomendaria ao empreendedor brasileiro em 2020: jurubeba, energético, vinho, caninha, água de coco ou guaraná?
Franzotti - De manhã, um bom suco, o Dona Elza. Na hora do almoço, a água Levity. No meio da tarde, pra dar uma revigorada, uma Jurubeba e final do dia, sem dúvida, uma cerveja Trieste. Sinal de que vai precisar estar bem hidratado, pois terá muito trabalho pela frente. A economia está retomando o crescimento. É um novo e promissor momento para o Brasil!