Iboruna
O nome Iboruna pode ter causado incômodo na sociedade, acostumada com a europeização

Em 19 de março, Rio Preto completou 172 anos. Diante da data, destacamos a contribuição do projeto Giro na História, desenvolvido na Secretaria Municipal de Educação, para a aprendizagem escolar sobre a trajetória rio-pretense. Nele, produzimos materiais didáticos, além de vídeos acerca da nomeação das ruas.
Entre eles, lembramos do episódio 11, em que abordamos as ruas com nomes de povos indígenas. Sete vias públicas rio-pretenses possuem essas nomenclaturas. São grupos nativos do Brasil e da América do Sul, incluindo os guaranis, que viveram na região de Rio Preto, muito antes da fundação da cidade. O noroeste paulista foi local de passagem para diversos povos originários. Estes grupos diminuíram ao longo do tempo, devido aos conflitos com os colonizadores.
Em 1944, o prefeito da época recebeu um telegrama do Centro Geográfico, recomendando a mudança de nome da nossa cidade para Iboruna (Lelé Arantes conta com mais detalhes no Dicionário Rio-Pretense). Tratava-se de uma expressão tupi-guarani, aportuguesada, que significa “rio preto”. A mudança solucionaria o problema dos homônimos, pois havia outra Rio Preto, em Minas Gerais. Na época, estava em voga a valorização das raízes brasileiras (sobretudo indígenas), daí a escolha do nome Iboruna. De acordo com o linguista Eduardo Navarro, diversas cidades da região, fundadas naquele contexto, receberam nomes indígenas aportuguesados.
A possibilidade de mudança na nomenclatura gerou revolta na população em geral. Uma comissão de rio-pretenses foi até o presidente Getúlio Vargas para impedir a alteração. A solução foi retomar o antigo epíteto São José do Rio Preto, abandonado em 1906, por já existir uma cidade homônima no Rio de Janeiro (hoje chamada São José do Vale do Rio Preto). Os rio-pretenses da época alegavam que a mudança causaria transtornos, por conta da confusão nos endereços. De fato, a cidade existia há mais de 90 anos. A mudança não fazia sentido para os cidadãos.
Mas após tantos anos, podemos especular que esse motivo talvez não tenha sido o único. Historicamente, a colonização promoveu o apagamento das expressões indígenas. O nome Iboruna pode ter causado incômodo na sociedade, acostumada com a europeização de uma cultura colonizada. Até os dias atuais, em algumas cidades, tenta-se apagar os nomes indígenas de locais públicos. Após a redução da população indígena, ainda tentam extinguir sua memória. Cabe a nós o dever de preservá-la.
Danilo Wenseslau Ferrari, Doutor em História pela Unesp, coordenador pedagógico e formador de professores na Secretaria Municipal de Educação de São José do Rio Preto - SP. Articulador do projeto Giro na História