Conheça o transtorno que faz a pessoa comer terra, giz e até tinta
A Síndrome de Pica é o transtorno que provoca nas pessoas um forte apetite por substâncias que não têm valor nutricional, como pedra, giz, sabão e tinta

O nome pode parecer estranho, mas a Síndrome de Pica - também conhecida como alotriofagia ou alotriogeusia - é uma prática relativamente comum entre as pessoas.
O transtorno de conduta alimentícia provoca o apetite por substâncias que não têm valor nutricional, desde gelo, terra, giz, carvão e papel até pedra, palito de dente, esmalte, sabão, cola ou tinta.
De acordo com a psiquiatra Lívia Penteado, para ser considerado um caso de alotriofagia, os sintomas devem persistir por mais de um mês, em uma idade em que essa ingestão seja considerada mentalmente inapropriada - em crianças com menos de 2 anos, o comportamento é tido como normal ao desenvolvimento.
A síndrome é uma condição multifatorial, que geralmente ocorre em pessoas com outros transtornos mentais que efetivamente interferem no desempenho, como autismo, incapacidade intelectual e esquizofrenia.
Segundo Lívia, ela pode ter diversas causas: deficiências nutricionais - principalmente ferro e zinco - e presença de transtornos mentais, muitas vezes com consequências psicóticas. "Desencadeadores de estresse, como problemas familiares, negligência dos pais, gravidez ligada à insuficiência de nutrientes e uma estrutura familiar desequilibrada também estão fortemente relacionados à alotriofagia", detalha.
Ainda segundo a profissional, o diagnóstico é comum durante a gravidez, podendo estar associado a deficiência de ferro no organismo.
RiscosO consumo de substâncias que não têm valor nutricional pode causar uma série de problemas de saúde, que varia de acordo com a substância ingerida. "No entanto, pode resultar em obstrução do trato digestivo, obstrução intestinal, além de revelar sintomas mais sutis, como deficiências nutricionais", pontua Lívia.
Além disso, a condição pode facilmente levar a outras complicações, como intoxicação, infecção e prejuízos no desenvolvimento físico e mental do indivíduo.
A psiquiatra Mayra Folgosi Ricci explica que o diagnóstico pode ser difícil de ser feito, pois depende do relato do paciente, "o qual pode ser escondido por vergonha ou medo de julgamento, principalmente entre pacientes que ingerem substâncias consideradas bizarras, como cinza de cigarro e fezes".
Por conta disso, o médico deve estar atento a queixas crônicas de problemas gastrointestinais, anemia, perfuração intestinal e outras complicações gerais. "Nos casos suspeitos, a entrevista familiar e exames laboratoriais são fundamentais. Realizar exames como hemograma, dosagem de ferro e chumbo, enzimas hepáticas, pesquisa de parasitoses, radiografia de abdômen e endoscopia podem ser necessários", acrescenta a especialista.
TratamentoO tratamento depende da causa do transtorno e pode incluir mudanças na dieta, suplementação de nutrientes - em casos de deficiência - e orientação psicológica e terapêutica, para desenvolver habilidades e estratégias para lidar com as questões relacionadas.
O uso de antidepressivos (inibidores seletivos da recaptação da serotonina) pode surtir bons efeitos, assim como a aplicação de técnicas comportamentais. "O tratamento deve ainda enfatizar abordagens psicossociais, ambientais, comportamentais e de orientação familiar", acrescenta Mayra.
A tradutora Lilly (nome fictício), de 35 anos, possui uma das variantes da síndrome, a pagofagia - compulsão por ingestão de gelo. O diagnóstico não foi atestado por médico, mas por ela mesma, em uma pesquisa na internet. "Eu não sabia que essa síndrome existia nem que ela tinha nome. Um dia, ao me dar conta de que o meu hábito de comer gelo já era um vício, resolvi pesquisar na internet", conta.
Ela diz que consome cerca de 15 fôrmas de gelo por dia - equivalente a 180 pedras, em média - e que o prazer está em mastigá-las.
O fato de trabalhar em casa favorece o desenvolvimento do transtorno, segundo Lilly. "Eu acho que ter o gelo ao meu alcance, com livre acesso, é um agravante. Minha rotina é encher as forminhas e colocá-las no congelador, mas a melhor parte é esvaziá-las."
A tradutora relata que os sintomas da pagofagia começaram a aparecer em fevereiro deste ano, quando ela passou por uma série de problemas pessoais que desencadearam uma depressão. "Eu sempre tive o costume de mastigar o gelo que ficava no final das bebidas, mas, de uns tempos pra cá, passei a consumir as pedras sozinhas. Me alivia o estresse, me dá uma sensação boa, não sei explicar. Mas hoje é um vício, a ponto de sentir uma certa falta de controle quando não tem (gelo) em casa ou outro lugar onde eu esteja", detalha ela, que diz que não pretende procurar ajuda médica para tratar a questão por enquanto. "Não acho que seja nocivo."
Em animaisA síndrome - que tem sido relatada desde o século V antes de Cristo (a.C.), quando Aristóteles e Hipócrates a descreveram pela primeira vez - também acomete os animais.
Os cães e gatos são os que mais manifestam o transtorno, principalmente por ingerirem pelos, cadarços, tecidos, plantas etc. Entre eles, o quadro está associado, especialmente, ao déficit alimentar.
As variantes
Principais fatores de risco
Alterações nutricionais: podem ocorrer por deficiência de ferro ou zinco, como na anemia ferropriva, em que pode ocorrer geofagia (ato de comer terra ou argila) e pagofagia (ato de comer gelo)
Alterações psiquiátricas: os transtornos mais comumente comórbidos com a Pica são os do espectro autista, deficiência intelectual e, em menor grau, esquizofrenia e transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Também pode estar relacionada a transtorno de escoriações e tricotilomania (ato de arrancar os cabelos), em que a pele e o cabelo são geralmente ingeridos
Aspectos culturais: em algumas populações, acredita-se que a ingestão de terra ou outras substâncias aparentemente não nutritivas tenham valor espiritual, medicinal ou social. Estudos mostram que mulheres africanas praticam geofagia, relacionando-a com a fertilidade. Nos Estados Unidos, existe um hábito de mulheres gestantes ingerirem argila para manter uma gravidez saudável. O hábito é tão enraizado que se pode encontrar argila branca em alguns supermercados em certas regiões norte-americanas. Motivos religiosos também são comumente citados. Nos Estados Unidos e no México, gestantes podem ter o hábito de ingerir santinhos de barro da Virgem de Guadalupe, a fim de que seus bebês sejam abençoados. Vale lembrar que tais comportamentos não justificam o diagnóstico de Pica
Aspectos sociais: a indiferença e má supervisão dos pais podem fazer com que alguns hábitos se perpetuem entre as crianças, visto que frequentemente a ingestão de substâncias estranhas é menosprezada. A Pica também pode estar relacionada a situações socioeconômicas e desorganização familiar, como ocorrem em alguns países africanos, em que são oferecidas às crianças substâncias estranhas para que sejam mascadas em substituição à comida
Aspectos sensoriais: sugere-se que mulheres grávidas teriam o sentido do olfato mais aguçado durante a gestação e uma perversão do apetite, desencadeando compulsão por substâncias não desejadas em outros momentos da vida, como giz e gelo. O diagnóstico de Pica durante esse período só é apropriado se tais fissuras levarem à ingestão de substâncias não nutritivas - não alimentares - até o ponto em que represente potenciais riscos médicos