Como lidar com conflitos conjugais
Entre Livros e Palavras
Tradução: Patrícia Reis Buzzini
Em geral, desentendimentos amorosos são sempre amargos e desagradáveis. Por isso, é natural que as pessoas queiram - de forma definitiva - superá-los. No entanto, considerando a natureza humana, isso não seria possível: como não podemos acabar com as brigas, deveríamos aprender a melhorar os nossos argumentos.
As discussões tendem a começar quando nos deparamos – inesperadamente – com alguma atitude egoísta, intransigente ou mesquinha de nossos parceiros. Sentimos uma vontade irresistível de reagir da mesma maneira, pois temos sangue nas veias. Fomos feridos e precisamos ferir também. Queremos que o outro sofra da mesma maneira que sofremos.
Há muitas formas de provocar o sofrimento. Podemos gritar. Bater a porta. Ou, quem sabe, fechar a cara. Mas o princípio subjacente é o mesmo: queremos punir a outra pessoa.
Nesse ponto, é preciso fazer uma pausa para reflexão. Afinal, não queremos fazer justiça por alguma razão abstrata. Não estamos em um tribunal ou na sala da diretoria. O que buscamos em um relacionamento íntimo é muito mais profundo: queremos que a outra pessoa nos ame de verdade e seja mais gentil. É por isso que batemos a porta, falamos besteira e fingimos que o outro não existe no café da manhã.
Surpreendentemente, uma das últimas coisas que fazemos, quando estamos magoados, é dizer que estamos magoados. Achamos que assumir a mágoa pode ser humilhante e nos deixará vulneráveis diante do indivíduo que - aparentemente – abusou de nossa vulnerabilidade.
Embora seja uma postura compreensível, não parece produtiva, considerando que não entramos em um relacionamento buscando estabilidade emocional. Na verdade, queremos uma conexão. Ser correspondido em alguma coisa pode nos dar a impressão momentânea de segurança, mas não aumenta nossas chances de alcançar o amor e a compreensão que esperamos em um relacionamento.
Nessa perspectiva, seria interessante considerarmos uma abordagem diferente e ligeiramente paradoxal: quando nos sentirmos ofendidos por nossos parceiros deveríamos, em vez de revidar, fazer o que chamamos de uma Digna Confissão de Mágoa e de Medo. Ao invés de ficarmos furiosos, seria muito melhor mudarmos o foco e fazermos uma dupla confissão. Em primeiro lugar, podemos dizer: é triste pensar que alguém em quem confiamos possa nos decepcionar dessa maneira. Em segundo lugar (é preciso coragem), podemos acrescentar: estou muito assustado por estar envolvido com uma pessoa que não sabe me tratar com respeito.
Isso deve fazer com que o seu parceiro comece a refletir. Você não o insultou ou reagiu da mesma maneira - o que, normalmente, pode causar bloqueios e desencadear um ciclo vicioso de ataques e contra-ataques. Pelo contrário, estamos sendo dignos e honestos. Não estamos nos impondo e nem sendo submissos. Não estamos sendo muito fortes, nem muito fracos. Não estamos agredindo nem procurando agradar. Estamos apenas mantendo a calma e admitindo, com propriedade, nossos genuínos sentimentos de tristeza, medo e vulnerabilidade.
Muitas vezes, as brigas podem parecer intermináveis para o casal, e estúpidas para os estranhos, pois nenhum dos envolvidos tem coragem de assumir que está triste. O motivo não é a melhor hora de sair para o aeroporto ou quem deve lavar os pratos. Ambas as partes estão, de maneiras diferentes, sentindo-se mal-amadas e incompreendidas – mas recusam-se a admitir.
Em uma sociedade mais desenvolvida, estudaríamos como lidar com desentendimentos na escola por pelo menos quatro anos (por tratar-se de um tema tão complicado e mais importante do que álgebra) e as pessoas teriam muito mais facilidade para confessar as mágoas sem perder o controle. Admitiríamos com tranquilidade que, apesar de sermos fortes e bem preparados em muitas áreas de nossas vidas, podemos estar feridos e assustados no campo afetivo – e seríamos corajosos, maduros e comprometidos o suficiente para amar e ousar dizer o que estamos sentindo. Assim ganharíamos muito tempo.