A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

Como a primeira vacina da história foi desenvolvida

Primeiro imunizante desenvolvido na história foi contra a varíola, de forma que não seria aprovada por nenhum conselho de ética: conheça a história das vacinas

por Millena Grigoleti
Publicado em 14/01/2021 às 22:12Atualizado em 06/06/2021 às 13:38
Vacinação (Divulgação)
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Vacinação (Divulgação)
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O pulmão de aço era um aparelho que exercia pressão na caixa torácica, permitindo que o paciente com poliomielite (paralisia infantil) que havia perdido os movimentos do pescoço para baixo respirasse. O Brasil chegou a contar com alas inteiras formadas por itens do tipo, cheias de pacientes, no auge da pandemia. Sem eles, os pequenos morreriam sufocados. O infectologista Guido Carlos Levi, ex-diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), chegou a visitar um desses locais, quando fazia o curso de medicina tropical no final da década de 1960. Uma ala lotada no Hospital das Clínicas, em São Paulo, hoje desativada.

"E posso dizer que foi um dos momentos mais chocantes da minha carreira. Essas crianças, em número muito grande, sabiam que nunca iam sair de lá, estavam condenadas a ficar com esse aparelho para o resto da vida e viam toda hora uma das amiguinhas do leito ao lado de repente não estarem mais lá porque tinham morrido", lembra. "E quando você entrava essas crianças viam seu desconforto e riam e puxavam conversa para te por à vontade. E isso porque pais não se devam ao trabalho de dar uma gotinha na boca dos filhos."

No final da década de 1960, a vacina da poliomielite já era uma realidade e permitiu um milagre: fazer os casos da doença desaparecerem no Brasil. O último foi notificado em 1989. Em 1994, o vírus foi considerado erradicado das Américas. Na primeira reportagem de série sobre as vacinas, o Diário conta sobre a história delas.

Os imunizantes começaram a ser esboçados de uma forma que hoje seria reprovada por todos os conselhos de ética. Na Índia, por volta do ano 1000, moíam-se cascas de feridas provocadas pela varíola e as pessoas inalavam. "Era um método muito primitivo, tinha alto risco de mortalidade, cerca de 10%, mas nesse período a mortalidade pela varíola era cinco, seis vezes maior", diz Levi. Essa forma de imunização chegou a ser levada pelo Cáucaso até Istambul e Inglaterra, inclusive com defensores entre as altas classes.

Foi em 1796, porém, que ocorreu a primeira inoculação. O médico inglês Edward Jenner notou que as pessoas que ordenhavam vacas não ficavam doentes por varíola, desde que tivessem contraído a forma animal da doença. Assim, ele extraiu o pus de uma ordenhadora que havia contraído a varíola bovina e o inoculou em um menino de 8 anos, seu filho, que adoeceu de forma branda e logo se curou. Menos de dois meses depois, ele inoculou na criança o líquido extraído de uma ferida de varíola humana, e o pequeno não ficou doente, o que significava que o experimento havia funcionado.

Jenner tentou levar seu trabalho para a alta sociedade de médicos de Londres, mas foi rejeitado antes mesmo de apresentar o que havia feito, então, algum tempo depois, publicou seus resultados por própria conta. O sucesso foi grande. Longe dos laboratórios existentes hoje, o vírus era cultivado e extraído do flanco de bovinos. "Napoleão Bonaparte tornou obrigatória a vacinação para seus soldados. Vários países tornaram obrigatória para toda a população ou para certos segmentos, por exemplo, universitários na França", relata Levi.

Quando as doses se tornaram termoestáveis, ou seja, puderam ser transportadas sem ser comprometidas, na metade do século 20, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou a missão de erradicar a varíola do mundo. Os últimos casos no Brasil foram rastreados em 1971. No mundo, o último relato data de 1977, na Somália. Assim, em maio de 1980, a Assembleia Mundial da Saúde declarou "o mundo e seus povos" livres da doença, causada por um vírus que assolou a humanidade por 3 mil anos, matando 300 milhões somente no século 20.

Acabar com o vírus só foi possível graças à vacina, uma das grandes invenções da humanidade e que definiu os rumos da saúde pública. Assim como só foi possível conter epidemias de sarampo, poliomielite, coqueluche, rotavírus (que provoca uma diarreia muitas vezes letal), rubéola (que leva os bebês a nascerem com uma surdez irreversível), HPV (cuja dose previne contra tumores) e meningite com imunizantes. Isso só para citar alguns exemplos.

Atualmente, as tecnologias são várias, como vírus vivo e atenuado, vírus fragmentado e que utilizam o RNA mensageiro. A cada dia, tornam-se cada vez mais seguras e eficazes e deixaram os flancos dos bois para ir para os laboratórios, seguindo inúmeros procedimentos éticos e de segurança, balizados por conselhos normativos.

As doses citadas e uma série de outros imunizantes estão disponíveis gratuitamente pelo Plano Nacional de Imunizações. Brechas nas coberturas abrem espaço para a volta de doenças que dizimaram milhares de pessoas, como o sarampo - em 2019, apenas no Estado de São Paulo, 14 pessoas morreram pela doença. "Nós estamos enfrentando um novo inimigo que é o antivacinismo", reforça Levi.

história da vacinação

Primeiras formas de imunização

Os primeiros relatos que remontam a uma forma de criar imunizantes contra doenças no mundo vêm do século 10, na Índia. Naquela época, surgiu um procedimento em que a população triturava cascas de feridas provocadas pela varíola e, em seguida, as esfregavam na pele ou inoculavam nas narinas das vítimas. O método, denominado "variolação", não era desprovido de riscos. No entanto, as fatalidades ligadas à sua utilização eram dez vezes menos frequentes que após a infecção natural. Por isso, seu uso persistiu por séculos.

Experimentos

Mas foi em 1796, na Inglaterra, que o termo "vacina" surgiu pela primeira vez. Até o fim do século 17, a varíola era uma doença que ainda causava a morte de milhares de pessoas no mundo. Em 1796, o médico britânico Edward Jenner percebeu que as vacas apresentavam ferimentos iguais aos da varíola no corpo de humanos.

Ele também observou que as moças responsáveis pela ordenha tinham uma versão mais suave da doença, ficando imunizadas ao vírus humano. Então, ao colher o líquido que saía destes ferimentos e passar deliberadamente sobre arranhões que ele havia provocado no braço de seu filho, o menino teve um pouco de febre e pequenas lesões, com uma recuperação rápida.

A fim de confirmar sua descoberta, o médico colheu o líquido dos ferimentos de outro paciente com varíola e, novamente, aplicou em seu filho. Semanas depois, ao entrar em contato com o vírus da varíola, o garoto mostrou-se resistente à doença. Edward Jenner continuou a aplicar esse procedimento em várias pessoas, como forma de prevenir a doença. Surgiu então a primeira forma de "imunização" que se tem conhecimento do mundo.

Após o início da utilização da vacina de Jenner, a prática da variolação reduziu-se progressivamente

Explicação: Ao entrar em contato com o sistema imune, a vacina provoca uma reação de proteção e gera uma memória, que possibilita ao sistema imunológico ter uma resposta rápida e eficiente de controle infeccioso quando esse mesmo agente entrar no organismo. A eficácia dessa técnica foi denominada vacinação, termo derivado de vaccinus, no latin, "de vaca".

Nascimento da vacina oficialmente

Em 1881, quando o cientista francês Louis Pasteur começou a desenvolver a segunda geração de vacinas, voltadas a combater a cólera aviária e o carbúnculo, ele sugeriu o termo "vacina" para batizar sua recém-criada substância, em homenagem a Jenner.

Desenvolvimento das vacinas

Foi somente no início do século 20 que foram desenvolvidas vacinas apropriadas para vacinação em massa: difteria em 1923, a seguir pertússis (coqueluche) e tétano, sendo esses agentes imunizantes combinados e empregados a partir de 1948, como vacina tríplice bacteriana, cuja sigla é DTP

Novos métodos

Na segunda metade do século 20, novas técnicas para criar imunizantes foram descobertas. Em 1955, o norte-americano Jonas Salk desenvolveu uma vacina de vírus morto, injetável, altamente eficiente na prevenção da poliomielite.

Logo em seguida, no começo da década de 1960, surgiu a vacina oral da poliomielite, a famosa "Sabin", criada pelo polonês naturalizado norte-americano Albert Sabin, cuja facilidade de administração permitiu o início de campanhas em massa de combate a doença.

História da vacina no Brasil

O grande marco para a vacinação no Brasil ocorreu no Rio de Janeiro, em 1904. O ano também foi quando o governo brasileiro lançou a primeira campanha de vacinação obrigatória para combater uma doença - varíola.

Naquela época, mesmo com a vacina da varíola disponível, as camadas populares rejeitavam a dose, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes. Pessoas acreditavam que quem se vacinava ficava com feições bovinas.

Então, em junho de 1904, Oswaldo Cruz motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional. Apenas os indivíduos que comprovassem ser vacinados conseguiriam contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, autorização para viagens.

Após intenso debate no Congresso, a nova lei foi aprovada em 31 de outubro e regulamentada em 9 de novembro. Isso serviu de catalisador para um episódio conhecido como Revolta da Vacina.

Mais tarde, em 1908, quando o Rio foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, o povo correu para ser vacinado, em um episódio avesso à Revolta da Vacina

Linha do tempo

1904 - Obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. 1961 - Início da produção nacional da vacina contra varíola e realização das primeiras campanhas com a vacina oral contra a poliomielite 1977 - Para todo o território nacional, definição das vacinas obrigatórias para os menores de 1 ano e aprovação do modelo da carteira de vacinação. 1979 - Certificação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) da erradicação global da varíola. 1984 - Introdução da estratégia de multivacinação por meio dos Dias Nacionais de Vacinação contra a Poliomielite em alguns estados. 1986 - Criação do personagem símbolo da erradicação da poliomielite, o Zé Gotinha 2008 - Campanha Nacional de Vacinação para eliminação da Rubéola 2010 - Campanha de Vacinação contra a Influenza H1N1 Pandêmica - 89 milhões de brasileiros vacinados.

Quem produz vacinas?

No Brasil, as vacinas distribuídas em postos de saúde são produzidas por laboratórios nacionais, internacionais ou por institutos especializados ligados ao poder público, como o Instituto Butantan (do governo do Estado de São Paulo) ou a Bio-Manguinhos (do governo federal). No mercado internacional, destacam-se as produtoras multinacionais GSK, Merck, Sanofi e Pfizer.

Fonte: Fiocruz, Ministério da Saúde, Unicamp, USP, SBim e reportagem

Coronavírus era pesquisado

Os coronavírus foram identificados na década de 1960. Eles provocam doenças respiratórias que, na maioria das vezes, não são graves. Em 2012, no entanto, começou uma das epidemias com a doença que ficou identificada como síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), que provoca Doença Respiratória Aguda Grave (SARS, em inglês, e SRAG em português), que foi identificada pela primeira vez na Arábia Saudita e até 2018 deixou doentes 2,5 mil pessoas matando 850 em 27 países pelos Estados Unidos, Europa, Ásia e África. O vírus mais agressivo já havia aparecido alguns anos antes.

Assim, pode-se concluir que os coronavírus não são novos, como explica o ex-diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o infectologista Guido Carlos Levi, que ressalta que a tecnologia da vacina não é nova, portanto é inválido o argumento de que as doses foram produzidas em um tempo muito curto, e que portanto não seriam seguras.

"Já existiam duas infecções importantes pelo vírus SARS-CoV, que chegaram a ter uma importante circulação, suficiente para se testar uma vacina", diz. Quando chegou-se a um estágio mais avançado das pesquisas, no entanto, os casos haviam desaparecido e com eles o interesse comercial. "O fato de se conseguir uma vacina tão rápida se deveu a duas coisas: primeiro que já existia uma base para produção e segundo porque a ciência deu uma resposta maravilhosa ao desafio de produzir uma vacina contra essa pandemia que foi a pior em cem anos, desde a gripe espanhola não se via uma coisa como essa. Fora isso, é claro, tem que levar em conta os interesses comerciais dos laboratórios, porque o laboratório que conseguisse desenvolver uma vacina contra uma pandemia como essa, pegando o mundo inteiro, obviamente teria lucros enormes", considera.

A gripe espanhola foi uma doença que assolou o mundo entre 1918 e 1920, infectando 500 milhões de pessoas - um quarto da população da época. Estima-se que o número de mortos possa ter chegado a 50 milhões de pessoas.

Maurício Lacerda Nogueira, virologista da Famerp e responsável pelos estudos da Coronavac na faculdade, destaca que as tecnologias já eram conhecidas para desenvolvimento da vacina contra coronavírus. "Partem de mais de um século de conhecimento de vacina. E havia muito dinheiro para fazer as fases um, dois e três. O investimento foi muito alto. As vacinas são seguras." (MG)

Processos que garantem a segurança

Desde a inalação de cascas de feridas moídas e a inoculação de vírus puro por Jenner, as tecnologias evoluíram muito.

Maurício Lacerda Nogueira, virologista da Famerp e pesquisador que liderou os estudos da Coronavac na instituição, pontua que o Instituto Butantan (São Paulo) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, Rio de Janeiro) foram os incumbidos de produzir as vacinas no Brasil. Para ele, o processo moderno começa em 1937, com a confecção do imunizante contra febre amarela a partir de ovos embrionados. "Nesse caso a Fiocruz também foi uma das pioneiras mundiais e esse método é até hoje utilizado para produção."

O infectologista Guido Carlos Levi afirma que a utilização do vírus inativado, para estimular a produção de anticorpos pelo organismo, começou no final da década de 1940 no Brasil. Uma data inesquecível para ele, que conta que o laboratório pensou que o ideal seria procurar voluntários para a vacina tríplice bacteriana (difteria, tétano e coqueluche) em um colégio americano.

"Mais de mil alunos na escola e só seis pais autorizaram a aplicação, todos pais de brasileiros. Eu fui uma das seis vítimas", brinca. "Tinha 7 anos e doía terrivelmente. Hoje dói muito menos, foi purificada."

É na metade do século 20 que começa a produção de vacinas mais modernas, com culturas de células - como a Coronavac, contra a Covid-19, como explica Nogueira. "Esse método vem até hoje com plantas que são fábricas de cultura de células e depois purifica o vírus. No final do século 20 aparecem as vacinas de biologia molecular, como a de hepatite B, que são vacinas recombinantes onde bactérias ou leveduras produzem pedaços de vírus que são purificados e iniciam grandes escalas industriais de produção que existem até hoje", descreve.

Segurança

Todo esse aparato tecnológico não surge do dia para a noite. O virologista explica que a produção de imunizantes passa por diversas etapas. A primeira exige conhecimento básico da doença para determinar quais são as melhores formas de evitá-la: o melhor é o vírus inativado ou atenuado? De biologia ou RNA?

Depois, como pontua Nogueira, são iniciados os testes pré clínicos, com camundongos na maioria das vezes e depois com macacos. Se tiverem sucesso, começam os testes clínicos, primeiro com relação à segurança, com poucas dezenas de pessoas, geralmente de 20 a 50, segundo ele. Na segunda fase, são testados mais voluntários para saber se a dose é capaz de gerar resposta imune e continuar verificando a segurança.

A fase três, etapa onde está a maioria das vacinas contra coronavírus nesse momento, é com dezenas de milhares de pessoas. O fator segurança é sempre primordial. Se forem seguras e eficazes, os laboratórios podem pedir o registro para uso para os órgãos regulares. E os testes ainda não terminam. "Mesmo após o licenciamento existem os estudos fase quatro, que acompanham não milhares, mas sim milhões de pessoas, para se detectar eficácia e segurança a longo prazo. Toda vacina que chega ao público passou por essas fases, então são confiáveis", garante o virologista. (MG)

Principais vacinas obtidas nas últimas décadas

1921 - Tuberculose

1926 - Tosse Convulsa

1923 - Difteria

1935 - Febre Amarela

1952 - Poliomielite

1963 - Sarampo

1967 - Caxumba

1969 - Rubéola

1974 - Meningite

1981 - Hepatite B

1991 - Hepatite A

1999 - Rotavírus

2009 - Gripe A (H1N1)

2019 - Ebola

2020 - Coronavírus