Cadê o ‘lanterninha’?
Os frequentadores da época certamente lembram-se do temido personagem que dava incertas durante as sessões e, notando alguma coisa fora dos conformes, mirava o farolete sobre o infrator

Você que experimentasse esparramar-se na poltrona e lançar os pés sobre o encosto da fileira da frente! Ou, pior ainda, atrever-se com mãos libidinosas em afagos na namorada! Não sei se essas coisas ainda acontecem sob a conveniente camuflagem do escurinho do cinema, mas o certo é que, entre as profissões que parecem ter entrado em extinção no mundo, está a figura a quem cabia reprimir essas contravenções: o “lanterninha”. Lembra dele?
No Cine Boa Vista, era o Gim. Os frequentadores da época certamente lembram-se do temido personagem que dava incertas durante as sessões e, notando alguma coisa fora dos conformes, mirava o farolete sobre o infrator, condenando-o, no mínimo, a uma descompostura pública ou, no máximo, à pena capital da expulsão do cinema...
Era uma espécie de inspetor a quem cabia a missão de manter a ordem durante as sessões, lançando o facho da lanterna dedo-duro sobre quem se comportasse indevidamente – fosse abusando dos assovios, exagerando nos gracejos e piadinhas em voz alta e, claro, ofendendo a moral e os bons costumes. E, convenhamos, essa não era uma tarefa simples nos filmes cuja censura permitiam a entrada de hordas de adolescentes no cinema.
Ao “lanterninha” cabia, por exemplo, impedir que os ansiosos espectadores que já tivessem visto o filme se atrevessem a narrar as cenas seguintes:
_ Olha só, o mocinho vai se jogar da diligência, presta atenção!
_ Vê só a marmelada, o Tarzan vai pular de cima da montanha e agarrar o cipó antes de chegar no chão...
Não era só isso. O homem com a lanterna na mão também se encarregava de admoestar aqueles que gostavam de esparramar comida para todo lado, os que exageravam nas carícias à vizinha ao lado e, fundamentalmente, os que insistiam em discordar dos atributos anatômicos das poltronas, preferindo deitar sobre elas e apoiar as pernas no espaldar da cadeira da frente.
O leitor que, assim como eu, já passou dos sessenta e poucos certamente se lembra de que o “lanterninha” trabalhava do apagar das luzes ao “the end”. A ele cabia também a função de ciceronear as pessoas que chegassem com o filme iniciado e que precisavam de ajuda para encontrar lugar no escurinho. E certamente também testemunhou sessões onde os espectadores mais barulhentos e indisciplinados eram capazes de promover concursos de arrotos, arrumar apelidos desonrosos para os atores e promoverem a si próprios, comparando-se, em altos brados, a um ou outro herói do filme.
Os “lanterninhas” desapareceram. Na verdade, os próprios cinemas quase que desapareceram, rendendo-se aos conjuntos de salas de exibição que praticamente só são encontradas nos shopping-centers. Não sei se essa categoria de inspetores da ordem, da moral e dos bons costumes resistiria, hoje em dia, à invasão dos telefones celulares nas sessões de cinema.
JOSÉ LUÍS REY, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos