Boi Soberano
Moda caminha para os 70 anos, desde que Izaltino Gonçalves a compôs. Se tornou clássico
Uma das modas de viola mais aplaudidas do grande público, e que dá título à essa crônica, foi composta em 1953, pelo rio-pretense Izaltino Gonçalves. Sim, rio-pretense. Ele nasceu aqui e, quando pequeno, a família se mudou para Tanabi, onde mora até hoje. Foi gravada pela primeira vez por Zé Carreiro e Carreirinho. De imediato, surpreendeu pela linda história e pelo desfecho surpreendente, digna de um grande poeta.
O fato é contado por um velho boiadeiro que vivia na lida desde a idade de 15 anos. Diz que não se esquece de um transporte, de 600 bois cuiabanos. No meio, tinha um boi preto, por nome de Soberano.
Na hora da despedida, o fazendeiro alertou: cuidado com esse boi que, na guampa é leviano. O tal era criminoso, tinha feito diversos danos. Os boiadeiros seguiram pela estrada, e ele sempre pensando, o que será que esse boi vai fazer dessa vez? Quando chegaram a Barretos, a boiada estourou, só viam gente gritando. Inclusive o comércio fechou as portas. Por infeliz coincidência, na rua tinha um menino brincando. Quando viu que morreria, desmaiou. Aqui o animal assassino ganha notoriedade de herói: Soberano parou sobre o menino e rebatia com os chifres os que iam passando. Imaginem o pai da criança ao ver o touro sobre o filho! Naquilo, o pai da criança de longe vinha gritando: "Se esse boi matar meu filho, eu mato quem vai levando". E o velho peão continua a contar suas reminiscências. Quando viu seu filho vivo, e o boi por ele velando, caiu de joelhos por terra. Depois de salvar o menino, o animal foi se "arretiranu". Imagino que ele olhou pra trás e se sentiu orgulhoso pelo feito. O pai da criança, agradecido, comprou o Soberano. E o antigo boiadeiro finaliza: "Esse boi salvou meu filho, ninguém mata o Soberano".
Através do meu amigo Ermelindo Pestile, morador de Tanabi, consegui o contato da filha do artista. Com a pandemia, ficou impossível encontrar-me com o compositor. Usando a tecnologia das redes sociais, enviei as perguntas pra Ângela, ela gravou com o pai e a reenviou para mim.
O relojoeiro, poeta e compositor já passou das nove décadas. No próximo mês de abril, completará 93 anos. Casado com dona Laurinda, 81. Pai de três filhos. Além de compor por volta de 500 modas, também poetiza. Sua alma de poeta sente orgulho em saber que grandes nomes do cenário caipira gravaram suas belas modas, foram mais de 20 duplas. Entre elas, Tião Carreiro e Pardinho, Liu e Léu etc.
A moda Boi Soberano caminha para os 70 anos, desde que nosso homenageado a compôs. Ela se tornou clássico e, tenho certeza, ficará ad eternum nos corações daqueles que, como eu, amam nossas raízes, amam e respeitam o passado. Passe o tempo que passar, ela continuará emocionando gerações vindouras, como se tivesse acabada de ser composta, por ser atemporal. Com certeza, estará no topo das dez mais, por tratar-se de algo genial saído da mente brilhante de Izaltino Gonçalves.
Jocelino Soares, Diretor da Casa de Cultura Dinorath do Valle; membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura