Adriana Neves ensina o segredo do sucesso para quem quer empreender
Com uma trajetória de 40 anos à frente dos negócios, a empresária diz em entrevista como vê o empreendedorismo feminino e planos para o futuro

Com muita luta e engajamento, as mulheres têm se tornado protagonistas da sua própria história. Diariamente, elas acumulam conquistas em diversas áreas e, em especial, no empreendedorismo nacional. A empresária rio-pretense Adriana Neves é uma destas mulheres que administram um negócio, fazem a gestão e têm sucesso.
Diretora administrativa financeira da Conebel, uma das maiores distribuidoras de cervejas e refrigerantes do País, Adriana trabalha na empresa desde os 13 anos. Atuando no setor de distribuição de bebidas, a executiva celebra as conquistas do negócio familiar. A Conebel faturou, recentemente, o Top 3 (Leão de Bronze) no PEX - Programa de Excelência AmBev, concorrida certificação que contou com a participação de 140 revendas de todo o Brasil.
Mais velha de duas filhas, Adriana assumiu a missão de dar sequência ao legado da empresa fundada por seu pai. Na liderança dos negócios, ela se espelha no otimismo e no dom empreendedor que lhe foi ensinado desde a infância para gerir e alavancar a empresa.
Mãe do Enrico, a empresária também foi presidente, por duas gestões, da Associação Comercial e Empresarial de Rio Preto (Acirp). E planejamento é um dos conselhos poderosos da executiva. Diariamente, ela tem buscado conhecimento para adquirir ainda mais habilidades e aperfeiçoamento para atuar no mercado de bebidas, tradicionalmente dominado pelos homens. Leia a seguir:
Revista Bem-Estar – O papel da mulher no cenário corporativo nacional é cada vez mais relevante numa sociedade que permaneceu por séculos subestimando o papel dela no mercado. Ela empreende, lidera, inova e transforma. Por isso, quero começar esta entrevista diferente. Quero que você comece falando com o público feminino. Como uma mulher pode dar o primeiro passo e se transformar em uma empreendedora de sucesso, como você?
Adriana Neves – Para uma mulher começar a empreender, a receita é a mesma de qualquer pessoa que queira empreender. O primeiro passo é ter vontade, ter um sonho, saber onde quer chegar e quanto quer crescer. Depois vem a busca pelo autoconhecimento, entender qual é a área que eu realmente gosto, me idêntico e vou trabalhar também com prazer. Depois disso, é preciso estabelecer um plano de ação com técnica, fazer um rascunho escrevendo o que eu quero, como vou fazer, quem é o responsável, quando eu vou me dedicar a isso e quanto vai me custar. Depois da organização financeira, é preciso ter um fluxo de caixa para manter o negócio até ele realmente ter sucesso. Principalmente, porque nada acontece da noite para o dia. Parece complicado, mas, por incrível que pareça, o mais difícil é o primeiro passo. É preciso ter vontade.
BE – Você comanda a empresa Conebel, onde atualmente é diretora administrativa financeira. Me conte um pouco sobre o seu trabalho como administradora de uma das maiores distribuidoras de cervejas e refrigerantes do País? Como é liderar diariamente centenas de funcionários?
Adriana – Todo negócio de distribuição é um negócio de margem baixa. Então, a gente tem que ter um alto giro para realmente o negócio valer a pena. Com isso, a empresa precisa ser muito organizada, olhar todos os detalhes e cuidar do custo com muita acuracidade. E a gente só consegue fazer isso com gente boa. Então, o meu papel hoje em dia é muito mais olhar para as pessoas e garantir que tenhamos pessoas boa na operação. Gente boa, qualificada, preparada e motivada. O engajamento da equipe com os objetivos da empresa, com o propósito da empresa, é o que garante o sucesso. Nessa jornada não tem atalhos. Ela é de transparência e honestidade, com cuidado genuíno com as pessoas, promovendo um ambiente de segurança psicológica, além de cordialidade, capacitação e reconhecimento. Se liderar é inspirar a equipe a crescer, pensar e agir, nós, juntos, vamos contribuindo, estabelecendo direção, garantindo alinhamento e promovendo o comprometimento, dia a dia.
BE – Recentemente, a Conebel ficou com o Top 3 (Leão de Bronze) no PEX - Programa de Excelência AmBev. O que representa este reconhecimento para você e a sua empresa?
Adriana – Nossa, representa muito, muito mesmo. É o reconhecimento do nosso trabalho, da nossa liderança numa equipe com 330 pessoas. O programa de excelência da AmBev consolida, acompanha e verifica o mais alto nível de gestão das 140 revendas, assim como tudo o que a gente faz com as pessoas. O programa é reconhecidamente um dos mais difíceis do mundo, porque ele olha realmente muito no detalhe. Então, nós estamos muito honrados, porque destas 140 revendas, nós respeitamos todas e sabemos que só tem fera nesta turma. O PEX estabelece altos padrões de desempenho, estimulando melhores práticas em gestão e liderança entre as revendas. É uma premiação concorridíssima e, dentre as mais de 140 excelentes revendas Ambev de todo o Brasil, é com orgulho que brado aos quatro cantos que ficamos entre as três melhores.
BE – Muitas empresas estão passando por reestruturações. Muitas estão cautelosas e demitiram uma parcela dos seus funcionários para trabalhar de forma mais enxuta, um reflexo da pandemia e das incertezas econômicas. Como você tem reagido a este cenário?
Adriana – Sim, é verdade. A gente tem visto muitas notícias de empresas que estão demitindo. Em geral, a maioria dessas empresas são ligadas a tecnologia. Eu tenho a impressão que houve, nos últimos anos, um entusiasmo excessivo na área de tecnologia e provavelmente com contratações até acima do necessário por conta da expectativa de desenvolvimento de muitos aplicativos e inteligência artificial. E agora, talvez, esteja ocorrendo uma acomodação do mercado. E se tratando do mercado tradicional, que usa a tecnologia aliada à gestão, já que uma não pode viver sem a outra, eu acredito que nós tenhamos que sempre ter, anualmente, a revisão do planejamento estratégico, olhar isso muito de perto, com muito cuidado e, seja qual for a situação política do País e do momento que a gente está vivendo, é preciso avaliar que o Brasil é muito maior que tudo isso. Então, eu vejo que a gente tem que ser cuidadoso, cauteloso, mas não pode se influenciar por qualquer notícia ou movimento, e deixar este humor afetar a empresa. O que vale na empresa é a pesquisa de mercado, a tendência de venda dos seus produtos, sua prestação de serviço e, aí sim, continuar investindo ou ajustar a equipe conforme a necessidade.
BE – Sua veia empreendedora veio do seu pai? É verdade que, ano assado, completou 40 anos de trajetória na empresa?
Adriana – Sim, veio do meu pai, da minha família. A família Neves é uma família de portugueses, que vem de uma cultura do comércio. E é verdade: Eu fiz 40 anos de trajetória, no ano passado, no dia 1º de julho. E foi muito engraçado porque, num dos meus artigos publicados no Diário da Região, que eu escrevo às quintas-feiras, eu coloquei no título ‘Quarentei’ e recebi muitas mensagens me parabenizando pelo meu aniversário. E, inclusive, dizendo que eu estava bem para os 40 anos. Lógico que eu agradeci, fiquei feliz e nem me dei ao trabalho de explicar que era 40 anos de empresa, e não de idade. Bom, eu comecei aos 13 anos, então, na época, eu estava fazendo 53. Mas, foi super bacana. E é uma trajetória muito bonita. Quando a gente olha e vê a empresa crescendo e a gente também crescendo – não só como empreendedor, mas como líder e como ser humano – é muito bacana. Estar numa empresa com tanta gente nos faz repensar na nossa postura e em como a gente sente, em como a gente é como ser humano para ajudar esse País e as pessoas.
BE – Você também foi presidente por duas gestões na Associação Comercial e Empresarial de Rio Preto (Acirp). Como foi liderar a tão importante instituição? Hoje, você continua atuando na Acirp de alguma forma?
Adriana – Sim, eu fui presidente da Acirp por duas gestões. Ainda estou na Acirp por meio do Conselho Consultivo – eu sou presidente do Conselho Consultivo nesta gestão do Kelvin Kaiser. E o meu maior legado (que levo dos meus quatro anos na Acirp e o que eu mais aprendi) foi liderar líderes: Você está todo dia liderando uma equipe de 46 diretores. Na época, 150 pessoas em núcleo, 60 funcionários. E através do nosso método de sistema de gestão, implantar isso e incentivar que os diretores voluntários aderissem foi, para mim, o maior desafio. Acho que o que eu deixei de bacana também para a Acirp foi este modelo de administrar tudo com gestão, olhando indicadores, fazendo acompanhamento dos resultados, tornando perceptível para a equipe, reconhecendo a equipe, delegando. E eu gosto bastante de delegar e de reconhecer as pessoas que estão entregando. Então, eu acho que o meu maior desafio também foi a minha maior entrega.
BE – No Diário da Região, você compartilha quinzenalmente seus conhecimentos sobre economia, gerenciamento e carreira, na coluna Painel de Ideias. Todos os temas dos textos são escolhidos de acordo com a sua experiência? Quais temas pretende escrever?
Adriana – Sim, eu procuro escolher sempre temas dos quais eu falo com um pouco mais de propriedade ou experiência. Então, eu gosto bastante de falar sobre gestão, sobre as pessoas nas empresas, sobre liderança, planejamento estratégico. Gosto de falar destes temas porque eles estão ao encontro da minha experiência. Mas, de vez em quando, eu também falo de algum tema que está pipocando na época, que está em evidência. Então, eu me sinto compelida a falar sobre este tema, e alguns eu tenho que até pesquisar. Eu estou com muita vontade de escrever sobre o entusiasmo que as pessoas estão com o chat GPT. Mas quando são temas que envolvem tecnologia, eu peço ajuda para o meu filho Enrico, que é sempre mais antenado do que eu. Então, quando é muito filosófico ou de tecnologia, eu peço ajuda para ele. Mas estou com vontade de questionar se já é um ‘Feliz Ano Novo’, já que é comum falar que, no Brasil, a gente começa a trabalhar depois do Carnaval. Então, são temas que estou disposta a escrever.
BE – Na sua opinião, ao empreender e assumir o papel de líder em uma empresa, a mulher também passa a ter muito mais autonomia para tomar decisões em sua vida?
Adriana – Eu acho que toda vez que a gente se coloca num papel de líder, a gente tem que aprender a tomar decisão, e a tomada de decisão, em geral, é solitária – a responsabilidade da decisão é sempre de quem toma. Então, isso sim dá mais autonomia na vida de qualquer pessoa, independentemente de ser mulher ou não. Ter que passar por essas situações de tomada de decisão é o que cria autonomia para qualquer pessoa. Toda vez que a gente tem autoridade, a gente recebe junto responsabilidade. Estas são duas palavras que estão sempre interligadas: Autoridade e responsabilidade.
BE – Você é mãe do Enrico. Me fale também sobre o seu papel de mãe? Como a maternidade e a carreira podem andar juntas?
Adriana – Agora o Enrico está com 24 anos, então é muito mais fácil. Mas, sabe que eu tenho a impressão que ele sempre me ajudou, ele sempre esteve muito próximo de mim e eu sempre fui de conversar muito. Então, acho que maternidade e carreira podem caminhar juntas, mas claro que a gente precisa ter uma rede de apoio quando os filhos são pequenos. Não tem como fazer sem ter uma rede de apoio. Mas, hoje, eu tenho convicção que muito mais se aprende do que ensina, tanto quando eles são bebês como quando eles são velhos. Eu mesma me via, quando o Enrico era bebê, desenvolvendo mais meu lado afiliativo e de treinadora dentro da equipe, justamente quando eu tive filho. Antes de eu ter filho, eu era menos delegadora, eu era mais centralizadora e eu não tinha muita paciência para ensinar. Então, veja só, foi justamente quando eu tinha um bebê que eu desenvolvi esse meu lado que eu acho tão importante para um administrador, para um líder, enfim, para alguém que está numa organização.
BE – Não podemos romantizar o empreendedorismo feminino. É preciso admitir o excesso de carga mental e física diariamente. Muitas mulheres têm três jornadas cheias de desafios para dar conta de tudo. Dentro desta jornada, a organização é fundamental?
Adriana – É verdade, não dá para romantizar. Inclusive eu fico bem irritada quando eu vejo alguns gurus por aí dizendo que a gente tem que equilibrar, equilibrar tudo e se manter equilibrada... isso gera mais ansiedade ainda. Eu admito que é muito difícil a gente conseguir equilibrar tudo na vida da gente, principalmente a mulher com trabalho, marido, casa, filho e toda a responsabilidade da tomada de decisão em todos esses aspectos. O que eu acredito é que tem época em que a gente dá mais foco em um dos pratinhos, outra época dá mais foco em outro e a gente vai tentando equilibrar todos. Mas é claro que tem épocas da vida que a gente dá mais foco em uma coisa do que outra e não é fácil. Seria leviano dizer que é simples e não é. Por isso que a gente tem que ter vontade e tem que querer enfrentar, com ajuda de uma rede de apoio – estar com outras mulheres para trocar boas práticas, experiências de como foi, de como pode ser feito. E, com os filhos, ter uma conversa muito aberta. Eu mesmo, em algum momento, perguntei para o Enrico se eu tinha sido uma mãe ausente e ele, que é muito espirituoso, disse que era para eu aumentar a carga da terapia porque tinha sido tudo bem. Ele disse que eu tinha muita energia e se tivesse ficado com toda essa energia em cima dele quando era pequeno, teria sido pior. É uma passagem engraçada, mas que me aliviou bastante depois de anos ter ouvido isso dele.
BE – E o seu lazer? O que a Adriana faz quando não está na Conebel? O que você faz para manter a mente e o corpo saudáveis e ter tempo de qualidade com a família e amigos?
Adriana – Quando eu não estou na Conebel, eu estou com meu filho Enrico ou com o amor da minha vida, que é o Sérgio. A gente gosta bastante de caminhar e de nadar. E é o que a gente faz para manter a mente sã e o corpo são também. Eu até brinco com o Sérgio que a gente conversa melhor quando a gente está caminhando. Então, saímos para dar longas caminhadas e é quando falamos sobre relacionamento, amor e coisas do dia a dia. A gente gosta bastante de ficar filosofando também. A gente tem até um grupo no WhatsApp, só nós dois, onde mandamos pensamentos que tivemos, espontaneamente, para depois, com tempo e nas caminhadas, filosofar.
BE – Para finalizar a entrevista, fale sobre os seus planos futuros. O que ainda pretende fazer neste ano e nos próximos que virão?
Adriana – Eu pretendo continuar ajudando a empresa crescer, pretendo continuar sendo uma boa mãe e estar cada vez mais perto do meu filho, estar sempre por perto do Sérgio, porque ele me faz muito feliz. Pretendo continuar ajudando também a Cegente (que é a empresa de cursos corporativos da qual eu dou aula e também sou acionista) a crescer, porque a gente vê realmente resultados com as empresas que procuram os produtos de capacitação e de desenvolvimento que a Cegente oferece. E, é claro, que pretendo sempre estar por perto das ONGs de Rio Preto, das entidades filantrópicas. Pretendo este ano, de novo, através do Núcleo Social da Acirp (que agora é presidido pela Adriana Cirelli) reeditar o GSS, que é o curso de Gestão Social Sustentável, em que a gente capacita as entidades de Rio Preto em gestão e liderança. Eu faço isso de forma voluntária e é uma coisa que me faz muito feliz e faz as entidades de Rio Preto crescerem. Eu acredito muito que Rio Preto cresce por conta do associativismo, por conta das entidades e das ONGs que têm aqui e que empurram a cidade, ajudam a cidade. Então, a gente não fica dependendo só do poder público. A cidade está muito bem por isso. E, por isso, quero estar sempre por perto.