A escala 7x0 que ninguém fala
As consequências da informalidade foram claramente vistas durante a pandemia

Há algum tempo temos discutido, enquanto sociedade, sobre os modos e as escalas de trabalho existentes no Brasil contemporâneo. No começo do ano, o discurso sobre o fim da escala 6x1 tomou tração e recentemente até o Presidente da República afirmou que colocará a estrutura do governo a favor desta reforma trabalhista.
Junto crescem os discursos extremistas de que “o país vai quebrar”, “essa reforma vai gerar desemprego” e “está cada vez mais difícil empreender no Brasil”, mas a verdade é que o mercado precificaria esta reforma, como precifica todas as reformas. Em um curto prazo, até geraria alguma inflação, mas em pouco tempo tudo se restabeleceria tal qual aconteceu com a implementação do 13º salário, das férias remuneradas e da redução de 48 para 44 horas semanais.
Um bom exemplo de que a economia não iria afundar com a mudança da escala de trabalho é o próprio mês de Abril/25. Por uma incrível coincidência, em abril tivemos 2 semanas com apenas 4 dias úteis e uma semana com (pasmem!) 3 dias úteis. E o apocalipse econômico não aconteceu.
No entanto, toda essa discussão se restringe ao trabalho formal. Sabe qual classe de trabalhadores não chega nem perto de acessar esses direitos trabalhistas previstos na CLT? Os artistas e técnicos da Cultura! Estes profissionais foram jogados para a informalidade, trabalham em escala 7x0, não têm qualquer direito trabalhista e só recebem seus cachês com, no mínimo, 30 dias depois do serviço prestado (eu mesmo já tive cachê pago 180 dias depois), algo impensável para qualquer outra classe de trabalhadores.
Aqui estamos falando de 5% dos trabalhadores brasileiros que, inclusive no último censo do IBGE, foram identificados pelo órgão como os profissionais mais qualificados e os mais informais do Brasil. As consequências da informalidade foram claramente vistas durante a pandemia, quando os artistas mantiveram a sanidade mental da sociedade ao mesmo tempo em que recorriam a doações de cestas básicas, pois suas apresentações foram canceladas do dia para a noite e não tinham o mínimo de seguridade social.
A verdade é que nenhum político quer fazer a discussão sobre as condições de trabalho dos artistas e a população em geral acha que artista é quem faz sucesso em novela e internet, o que gera um culto insano às celebridades em detrimento do trabalhador das artes e da cultura. Ou seja, os artistas não têm para onde correr. Ou nos organizamos em busca de condições de trabalho e seguridade social ou a tendência é piorar cada vez mais.
Lawrence Garcia
Diretor da Cia. Apocalíptica de Teatro