110 anos de imigração japonesa em Rio Preto
Sonho de uma vida melhor, que trouxe 781 estrangeiros orientais que cruzaram o oceano para chegar ao Brasil, faz aniversário nesta segunda, 18; em Rio Preto, descendentes lutam para preservar tradições

Há pouco mais de um século, o navio Kasato Maru atracou em Santos trazendo os primeiros 781 imigrantes japoneses, carregado de esperança. Eles podiam até não saber, mas estavam começando a construir a maior colônia japonesa fora da terra do sol nascente. Nesta segunda-feira, dia 18, completam-se 110 anos da imigração japonesa no Brasil.
Hoje, a comunidade de descendentes já está na quinta geração. Em Rio Preto, são mais de 300 famílias com ascendência japonesa que mantêm viva a cultura e a sabedoria de um povo que tanto influenciou a vida dos brasileiros.
Os imigrantes japoneses se estabeleceram na região Noroeste do Estado quase dez anos depois da chegada do Kasato Maru. Em 1916, um grupo formava a colônia Fukushima, em uma área próxima a Onda Verde. Dentre as atividades desenvolvidas estavam o cultivo de milho, arroz e café.
A herança cultural japonesa trazida pelos imigrantes permanece enraizada por aqui, seja na música, na culinária e no idioma. Sanseis, yonseis e gosseis (netos, bisnetos e tataranetos) se reúnem com o objetivo de manter viva a cultura trazida por seus ancestrais.
Para muitos, o ponto de encontro é a Associação Cultural Esportiva Nipo-Brasileira. Dez anos atrás, pelo menos 600 famílias faziam parte do grupo, número que caiu pela metade. "Isso não quer dizer que o número de descendentes diminuiu", explica o vice-presidente da associação, Alberto Kenichi Sakakibara. Ele ressalta que a mescla de culturas e a miscigenação têm feito as novas gerações se afastarem dos costumes orientais.
Mesmo com as dificuldades, Sakakibara reforça que a principal marca da cultura japonesa entre os brasileiros é o respeito aos antepassados. "Vejo jovens determinados que buscam cada vez mais conhecer suas origens".
Legado familiar
A família Assakawa foi uma das que decidiu se estabelecer em Rio Preto. Toyoziro Assakawa, de 82 anos, se fixou no bairro Boa Vista e passou a desenvolver atividade comercial. A Loja Tokio, especializada no comércio de roupas infantis, foi fundada há 38 anos e, atualmente, possui três unidades. Hoje, a empresa se tornou um legado familiar, administrada pelos filhos de Toyoziro e Eheco Assakawa.
Logo depois da imigração, os primeiros japoneses vieram para trabalhar na lavoura. Na região de Rio Preto, isso ocorreu uma década depois da chegada do Kasato Maru. Esse foi destino dos antecedentes da família Assakawa, que vivem na região de Sertãozinho. Mais tarde, a família se mudou para Icem e depois Jales. Já adultos, Toyoziro e Eheco escolheram Rio Preto como lar. "Quando criança trabalhava na roça, mas quando minha primeira filha nasceu decidimos ir para a cidade", conta Toyoziro.
Assim que abandonou a vida na lavoura, Toyosiro passou a ser chamado de Oswaldo. "As pessoas não sabiam falar meu nome, então foi mais fácil me chamarem assim", explica. Ao longo de 60 anos de casamento, Toyosiro e Eheco tiveram oito filhos. Os primeiros cinco foram mulheres, apenas os três últimos nasceram homens.
"O sonho do meu pai sempre foi o de ter filhos homens, pois era a tradição que nós assumíssemos o negócio da família", explica Fábio Assakawa, o mais velho entre os homens.
Juntos há quase 60 anos, o casal se uniu seguindo as tradições do "miai", casamento arranjado. Ou seja, eles não se conheciam até antes do casamento. Prática comum no oriente, principalmente na Era Meiji, essa era uma maneira de aproximar as famílias. "Nós não namoramos. Fomos apresentados pelos nossos padrinhos. Praticamente, nos conhecemos no dia do nosso casamento", diz Toyosiro.
Há 110, a vinda dos imigrantes foi movida pelo desemprego e outros problemas econômicos que assolaram o Japão. No Brasil, muitos prosperaram no comércio. Agora as novas gerações desfrutam de todo o esforço. Fábio admira o esforço e comprometimento dos pais. "Agora nós cuidamos dos negócios da família e cuidamos deles [pais]. Essa é a nossa tradição".