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Relacionamento

O macho ferido

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    • São José do Rio Preto
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O estudo foi feito em 2013 e publicado no Journal of Personality e Social Psychology, mas de lá para cá pouca coisa mudou: os homens ainda sentem sua autoestima ferida quando a esposa ou namorada se destaca. Difícil explicar como, em pleno século 21, depois de todas as conquistas das mulheres, os homens ainda sejam capazes de se sentir assim. "Não faz sentido que um homem possa se sentir ameaçado se sua companheira o supera em algo que eles estão fazendo juntos, como a tentativa de perder peso", explica a autora principal do estudo, Kate Ratliff, da Universidade da Flórida.

"Mas a pesquisa encontrou evidências de que os homens interpretam automaticamente o sucesso de uma parceira como seu próprio fracasso, mesmo quando eles não estão em concorrência direta." No estudo, Kate e sua equipe analisaram cerca de 900 pessoas que vivem nos EUA e na Holanda. Os resultados mostram que os homens, subconscientemente, se sentem piores quando pensam em algum momento em que a parceira prosperou em uma situação e que eles tinham falhado. 

Será que existe uma explicação sensata para tal atitude? Por que os homens se sentem inferiorizados em vez de comemorar o sucesso de suas parceiras? O que tanto deixa esse homem inseguro? O psicólogo André Apolinário Silva Marinho explica que até mais ou menos a metade do século 20 os papéis sociais eram definidos a partir do gênero. Era muito claro o que um homem e uma mulher deveriam fazer. O homem deveria trabalhar profissionalmente e manter a provisão da casa, assim como tomar as decisões pertinentes ao cotidiano da família. À mulher estava destinada a administração do lar, o cuidado e a educação dos filhos. 

"A dissolução dos critérios definidores do gênero deixou o homem completamente perdido, em franca crise de identidade. Pensemos em um exemplo: um funcionário exerce diariamente determinada atividade. Um belo dia, chega ao trabalho e é avisado que aquela atividade não mais será realizada na empresa, porém ele não será demitido e que não terá mais uma função definida. Como será que se sentirá esse funcionário que durante anos a fio habituou-se a obedecer uma rotina muito bem definida que o orientava e conferia-lhe valor? No mínimo, desorientado e desvalorizado. Esse é o homem atual, em crise de identidade, desorientado e desvalorizado", define Marino: "Parafraseando o psicanalista J. Lacan, poderíamos dizer hoje que 'o homem não existe'", completa. 

A culpa não é delas

Mulheres bem sucedidas profissionalmente muitas vezes não conseguem ter um relacionamento duradouro. Elas se queixam dos homens se sentirem ameaçados e por vezes terminarem o relacionamento por se sentirem inferiorizados. Mas será mesmo que essas mulheres devem se sentir culpadas? Será que precisam esconder seu sucesso profissional para se relacionar? O psicólogo Adailson Moreira é taxativo: definitivamente esse não é um problema da mulher.

"Não há nada que ela possa fazer para ajudar seu parceiro. O que ela poderia fazer? Fingir que não ganha tanto? Esconder dinheiro do companheiro? Frequentar restaurantes e bares mais baratos porque seu companheiro não consegue pagar lugares mais caros?", questiona o especialista, que em seguida reconhece: "Para a mulher bem sucedida, a questão financeira será sempre um ponto de conflito, e com toda certeza ela poderá ter mais dificuldade para encontrar parceiros compatíveis." 

Para o autor David Leslie, precisamos aprender a diferenciar o "ser para ter" do "ter para ser". "Compreender que cargos e salários não devem nos classificar como seres humanos não é uma qualidade, mas um pressuposto fundamental para avaliar nossa condição social e permear nosso caráter", garante.

Ligados pelo afeto

Antigamente, o homem era visto como provedor da família, alguém que trabalhava e trazia sustento para a casa. Hoje as contas são divididas e os homens precisam entender que para se ter uma relacionamento saudável é preciso enxergar além das cifras. "A mudança deve começar na infância, com uma educação que trate meninos e meninas da mesma forma. É necessário enfatizar também a construção da individualidade e da autonomia. Com essa visão emancipatória, as relações podem ser construídas baseadas na igualdade e na independência dos parceiros.

É muito saudável que cada um tenha sua intimidade, e a preserve, mesmo vivendo um relacionamento afetivo", orienta o psicólogo Adailson Moreira. Para o especialista, uma união não implica em fusão. "Muitos casais atualmente optam pela separação das finanças, dividindo as despesas comuns. Não há mais a necessidade de juntar as duas rendas para formar um bolo único de dinheiro. O mais importante num relacionamento tem de ser a ligação afetiva e não a financeira. Já faz tempo que casamento deixou de ser meio de vida.

Atualmente, é muito raro um tribunal conceder pensão alimentícia a ex-cônjuge; só concedem a filhos menores, pelas necessidade óbvias", declara. Segundo David Leslie, autor do livro Operação Cupido (CBE), a grandeza de um homem não se mede em centímetros, tampouco pela sua vasta sabedoria, pelo brilhantismo de suas ideias, seu cargo numa organização ou quanto ganha pelo seu trabalho. "Seu tamanho ou sua importância será, sempre, diretamente proporcional ao amor, ao respeito e à consideração que este tem pelo seu semelhante, pelos animais e pela natureza", afirma.