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Diário da Região

28/06/2015 - 00h00min

Amazônia

O grande encontro

Amazônia

Agência O Globo Espelho d’água: céu e água refletidos no leito do rio é cena comum no Negro
Espelho d’água: céu e água refletidos no leito do rio é cena comum no Negro

Um cruzeiro de quatro dias pela região amazônica começa com voo de uma hora sobre o tapete verde desenhado pela floresta.

Um espetáculo à parte é o encontro das águas escuras do rio Negro com as barrentas do Solimões, quando então, nasce no Brasil o nome rio Amazonas.

CORAÇÃO DO BRASIL

 
Foram quatro dias navegando ou caminhando pela floresta, conversando com nativos ou observando pássaros, mamíferos e répteis. Por via fluvial, essa viagem singular pode ser feita a partir de diferentes padrões. Em navio de cruzeiro superconfortável. Em barcos ou iates, com ou sem cabine. Ou nas barcas de transporte regular que ligam cidades e vilas ribeirinhas. O preço varia de R$ 150 a R$ 1.449, ao dia, por pessoa.

E se já sabemos por que e como navegar pela região, cabe a questão: quando? Junho e julho são os meses ideais porque ainda é época de cheia e, ao mesmo tempo, é quando as chuvas dão uma trégua. Trégua? Bem, considerando o regime de chuvas amazônico, é bom estar preparado. No coração do Brasil, dizem os guias, "no inverno, chove o dia todo; no verão, todo dia chove.

 

O encontro das águas dos rios Negro e Solimões

Na Amazônia, como em lugar algum, acompanha-se paulatina e incessantemente princípios fundamentais de sustentação do planeta. O sol esquenta, a água do rio começa a se transformar em vapor quente, nuvens se formam e a chuva já vem. À noite, o céu volta rapidamente a ficar estrelado. Dia seguinte, provavelmente você vai acordar tipo 4h30m para pegar uma lancha e ver o nascer do sol.

E talvez já tenha fotografado um lindo pôr de sol no dia anterior. Além de ter visto a natureza refletida nas águas do Negro, rio usado pelo Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) como exemplo de espelho quase perfeito do cenário ao redor. De onde vêm essas condições? De igarapés (braços de rio) e igapós (as áreas de florestas inundadas) em dias de superfície lisa (sem vento) e quando o sol começa a descer.

Esses passeios fluviais pela Amazônia seguem pelo Negro, pelo Solimões ou pelos dois. E haveria muita diferença entre eles, além de sua cor? Há, sim. No Solimões, que nasce no monte Nevado Mismo, nos Andes peruanos, a água tem mais oxigênio, ou seja, mais vida, mais peixes e, consequentemente, mais gente, ribeirinhos, mais movimento, embarcações. Já no Negro, que vem da Colômbia, a natureza atrai toda a atenção. Nos passeios pelos igapós, você toca a copa das árvores e vê flores que, quando o rio baixa, estão lá em cima. 

O Solimões é mais rápido, corre a uns 3 a 5 metros por segundo, mais que o dobro do Negro. É mais frio: tem temperatura em torno de 22°C, contra 28°C do parceiro. Um tem cor de café com leite, por causa dos sedimentos que carrega ao descer pelos Andes. O outro lembra a tonalidade do chá preto, por causa da decomposição das plantas e da acidez da água. Por essas peculiaridades, quando se encontram - abaixo de Manaus, na direção do Oceano Atlântico - deslizam lado a lado, por uns seis quilômetros, formando o peculiar, curioso e belo Encontro das Águas. 

É nessa junção que surge, no Brasil, o nome rio Amazonas. Ele sai do Peru com sete apelidos diferentes, inclusive Amazonas, mas entra em terras brasileiras como Solimões. Este ano, o Negro, que é o principal afluente do Amazonas, está enfrentando uma das cinco maiores cheias de sua história. Até o fechamento desta edição, o nível das águas medido no Porto de Manaus registrava cota de 29,61 metros, número que está bem próximo ao recorde de 29,97m, do ano de 2012.

Ruim para quem mora perto do rio, bom para o turismo, o sobe e desce das águas mostra como a vida na Amazônia pode ser instável, mas principalmente mágica. Pelas ruas dos rios. Igarapé (do tupi, "caminho da canoa") é um braço de rio, que tem pouca profundidade e corre no interior da mata. Igapó (do tupi, "água de raiz") é o nome que se dá a áreas de floresta inundadas, com árvores que vivem como hidrófilas.

 

turismo - amazônia 2 Barco regional com redes de dor


Na aldeia, educação bilíngue
 
Na terra de Uhí (ou Estéfani), o cacique não estava, quando nosso grupo de visitantes chegou. Ele tinha ido a Manaus, a 70 quilômetros, para uma reunião do programa do governo federal "Luz para todos". Na Vila Três Unidos, localizada no rio Cuieiras, afluente do Negro, tudo funciona por gerador. Só que não é pouca coisa. A comunidade, formada por 18 famílias e umas 80 pessoas, conta com TV, computador, antena parabólica e wi-fi, entre outras modernidades.

Quem nos recebeu foi Tomé Cruz, ou Uika, 31 anos, formado em pedagogia intercultural e um dos dois professores da comunidade, que tem duas escolas. Uma de educação básica, outra de ensino médio. Além de contar com alunos que fazem curso de universidade a distância. A vila está dentro da APA do rio Negro, e nela funciona o Núcleo de Conservação e Sustentabilidade Assy Manana, projeto que reúne parceiros públicos e privados em torno de uma metodologia de ensino que busca aliar educação formal e conhecimentos tradicionais.

Na educação básica, municipal, são 25 alunos, e o ensino é bilíngue. Português pela tarde e kambeba, a língua de sua etnia, à noite. Na estadual, são 120, já que, como sede do projeto, a vila concentra estudantes de diferentes comunidades da região. Uma lancha escolar garante o transporte rio acima.

Vêm aí as pousadas-chalés

Três Unidos quer mais. No caso, terá pousadas para receber turistas e pesquisadores. Também com apoio de órgãos públicos, a vila se prepara para, no mês que vem, inaugurar quatro chalés que estão sendo construídos próximos dali. Cada um terá capacidade para quatro pessoas. E cada família kambeba terá direito a construir e negociar o seu.

"Estamos em terra indígena, em área de conservação, tudo está sendo feito com recursos naturais e cuidadosamente," garante Tomé, acrescentando que o grupo é originário do Solimões e foi se assentar ali, em 1990, por iniciativa de seu avô, o fundador. Aliás, conta Tomé, orgulhoso, dois arqueiros kambeba da Vila Três Unidos foram selecionados para representar o Brasil nos Jogos Olímpicos: "Treinaram bastante e conseguiram."

Para receber os turistas, moças e rapazes parecem vestir suas roupas de domingo. Dançam e cantam, apresentando um pouco da cultura kambeba. Depois, vendem artesanato e conversam com quem quiser saber mais sobre eles. Aculturados? Sim. Tristes? Não. Bem alegres. As crianças, então, nem se fala.

 

turismo - amazônia 3 O navio-hotel Grand Amazon, no rio Negro

DE GAVIÕES A BOTOS, EM MEIO A MACACOS

A 60 quilômetros de Manaus, próximo à área conhecida como Praia do Davi, na região do Negro, vive uma comunidade de 30 pessoas. Entre elas, está o próprio Davi, caboclo que não se deixa abater: depois de anos seguidos vendo entrar água dentro da casa em que morava à beira-rio, mudou-se floresta adentro. Para a nova moradia, foram levadas tábuas da construção antiga. E hoje o que restou da velha casa é uma das áreas onde, em meses de cheia, passeiam os botos-cor-de-rosa de um dos projetos autorizados pelo Ibama na região, gerenciado por ele.

As visitas à Praia do Davi só podem ser feitas pela manhã. É quando chegam ali grupos de 20 pessoas, que têm 20 minutos para tomar banho ao lado dos botos, que aparecem atraídos pelos pequenos peixes oferecidos pelo projeto. Os botos fazem a festa dos turistas.

Mais tarde, ali perto, em meio à floresta inundada, copas de árvores junto à superfície do rio deixam à vista uma preguiça. Lentamente enroscada nos galhos, quase ao alcance das mãos, ela também provoca exclamações dos visitantes. Mais adiante, de repente, quem aparece são os pequenos macacos de cheiro, que pulam sobre ombros e braços dos turistas para pegar seu prêmio: normalmente, pedaços de banana.

De um lado, corre no rio Negro o bochicho sobre um famoso hotel de selva que teria fechado duas de suas torres por diferentes motivos, entre eles, problemas com o Ibama, por causa do esgotamento sanitário. Mesmo motivo que condenaria o alojamento de turistas em casas flutuantes. E o que dizer da alimentação artificial de botos e macacos? Não pelo alimento em questão, é que recebendo alimentos, estes animais ficam dependentes dos seres humanos, pelo menos em parte.

Por outro lado, salta aos olhos na Vila Três Unidos, onde a construção é rústica e natural, nossas conhecidas caçambas de lixo coloridas, convidando à separação de materiais plásticos, latarias e demais resíduos. E o hotel-navio da rede Iberostar, construído para navegar pelo Negro e pelo Solimões, trata seu próprio esgoto e tem câmaras frias para levar todo o lixo para Manaus.

Claro que de alguma forma todos estão interferindo no ambiente, mas o menos possível. Mesmo porque, cabe a nós, visitantes, seguir aquela máxima do turismo ecológico: "não leve nada, além de fotos; não deixe nada, senão pegadas."

 

turismo - amazônia 5 Turistas registram a natureza e não levam nada a não ser fotos

Piranhas de volta à água

O tour pelos rios da Amazônia inclui ainda a focagem de jacarés. Os maiores, espertos, são mais difíceis de observar. Os filhotinhos se expõem e são alcançados com facilidade pelos guias. São puxados ao barco, mas rapidamente devolvidos ao rio. Outra atividade local é a pesca de piranhas, que, da mesma forma, são logo recolocadas na água.


Já a observação de pássaros acontece a qualquer momento. Alguns são particularmente interessantes: como o gavião caramujeiro, que até se alimenta de peixes, mas tem o bico alongado e a ponta bem envergada, para puxar as lesmas, sua refeição favorita, de dentro dos caracóis.

Calor amazônico no ar

Quanto às opções de banho de rio, é bom saber que não são muitas. Há áreas específicas que os guias locais costumam indicar. Até porque, há de se ter cuidado com vários bichos. 

Sendo assim, nessa hora, contratar o passeio em embarcações que tenham piscina - e ar-condicionado também - faz toda a diferença. O calor amazônico estará no ar, seja qual for a estação do ano. E a qualquer hora do dia - a não ser o início da tarde, quando a temperatura sobe ainda mais. 

 

Leve dinheiro e protetor solar

Para as visitas a comunidades locais, lembre de levar dinheiro, porque haverá artesanato diferente para comprar. Baterias e cartões sobressalentes para câmeras fotográficas também são indicadas: invariavelmente, você vai ver, alguém do grupo terá tido problemas por tirar fotos além do previsto.

No item bagagem, atenção. Protetor solar não pode faltar. Para as caminhadas, repelentes, assim como calça e camisa compridas. E, pensando na chuva, são essenciais tênis ou galocha, capa plástica longa e chapéu ou bonés. Até porque sustentam os guias locais, "não há tempo ruim, o que há é roupa pouco apropriada". 

EMBARCAÇÕES E CRUZEIROS DE PADRÕES VARIADOS


O tour fluvial pela Amazônia pode ser feito a partir de embarcações de diferentes padrões. E as empresas que prestam o serviço na região oferecem pacotes em formatos e preços variadíssimos. Há opções tanto para quem espera serviço cinco estrelas, como para quem quer subir rio acima, dormindo em redes e parando nos povoados. Comemorando seus dez anos de cruzeiros pelo Negro e pelo Solimões, o Iberostar Grand Amazon, único hotel-navio da rede espanhola no mundo, pouco ou nada deixa a desejar em termos de conforto. 

 

turismo - amazônia 4 Dois rios, o Negro e o Solimões, correndo lado a lado

A embarcação levou quatro anos para ser construída - em estaleiro ali mesmo, em Manaus. Não tem quilha, seu fundo é chato, o que facilita a navegação em tempos de seca. A estabilidade é grande, e o passageiro não sente enjoo ou mal-estar. Com serviço all-inclusive, o navio-hotel tem 73 cabines, todas com varanda, e capacidade para 150 pessoas. Não aceita crianças menores de 10 anos e oferece três percursos: quatro noites, pelo Negro, três noites, pelo Solimões. Nos roteiros, navegação pelos igarapés, focagem de jacaré, observação de pássaros, mergulho com botos e visita a comunidades locais.

Passeios semelhantes - não exatamente os mesmos - integram os roteiros das demais empresas de turismo da região. A Amazon Clipper Turismo oferece tour em duas categorias. A Tradicional, em embarcações e serviços mais rústicos, com oito cabines para até oito pessoas. E a Premium, com 16 cabines, para até 32 pessoas. Já a Katerre faz cruzeiros regulares em roteiros de quatro a oito dias pelo rio Negro. E oferece passeio específico para o Encontro das Águas.

Seus barcos têm capacidade para 16 e para oito pessoas. Também negocia passeios privativos, em que o turista estabelece o número de dias e os lugares aonde quer ir. As barcas de transporte aquaviário regular da Amazônia são uma opção para o turista menos exigente, que busca fazer um contato mais próximo com as comunidades e o jeito de vida locais. E no Porto de Manaus, vários barqueiros/guias oferecem serviços personalizados.

 

COMO CHEGAR:

:: De avião: As empresas TAM, Gol e Azul têm tarifas a partir de R$ 1.142,08. Valores pesquisados para a última semana de julho, incluídas todas as taxas.
 
ONDE COMER:

:: Restaurante Banzeiro. Rua Libertador 102, Nossa Senhora das Graças. Reservas pelo site restaurantebanzeiro.com.br. Telefone: (92) 9204-7288

:: Restaurante Papagaios's. Conjunto Eldorado, Rua X, 01. Praça do Caranguejo. Site: restaurantepapagaios.com.br
 
PASSEIOS:

:: Iberostar Grand Amazon. Faz percursos pelo rio Negro, de segunda a sexta; pelo Solimões, de sexta a segunda, com tarifas que variam entre R$ 750 e R$ 1.033. iberostar.com

:: Amazon Clipper Cruises. Sobe o Solimões de segunda a quarta; e o Negro, de quarta a sábado. Os preços variam de acordo com duas categorias: na Tradicional, R$ 2 mil por pessoa (para o Solimões) e R$ 2.727 (Negro); e na Premium, R$ 2.796 por pessoa e R$ 3.726, respectivamente. amazonclipper.com.br

:: Katerre. Faz cruzeiros pelo Negro, em roteiros regulares ou privativos. Em quatro dias, o pacote sai a R$ 2.965, por pessoa. Privativas até oito pessoas, o pacote custa  R$ 4.295 por dia. katerre.com. Cooperativa Porto Turismo. Telefone: (92) 99177-5741.

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