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Diário da Região

20/12/2015 - 00h46min

ARTIGO

Medeia e a fúria narcísica

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Guilherme Baffi Kátia Ricardi de Abreu é psicóloga clínica especialista em Análise Transacional e consultora de empresas
Kátia Ricardi de Abreu é psicóloga clínica especialista em Análise Transacional e consultora de empresas

Vamos refletir sobre relações amorosas, a dor diante das rupturas e as possibilidades de elaborações. Após uma separação, é muito frequente alimentar ressentimento em relação ao ex parceiro. A dor vivenciada com a culpabilização do outro coloca-o na posição de algoz enquanto se permanece na clássica posição de vítima. Este sentimento, no entanto, torna inviável a superação. Quem não ouviu falar em Medeia? Figura mítica de mulher que tudo sacrificou em nome de sua exigência de amor por um homem, para obter o amor de Jasão, não hesitou em perpetrar todo tipo de transgressão, inclusive matar os próprios filhos. 

Temos então, o protótipo da mulher que busca exclusividade no desejo de um homem. Quando perde o amor do seu homem ela "se" perde. Experimenta a angústia não da perda real do objeto amado, mas da perda do amor por parte dele. Seu medo é ser abandonada pelo parceiro e perder seu amor, porque tem necessidade e total dependência uma vez que abdicou de sua própria vida em favor dele. Isso a faz pensar que poderá exigir o amor deste homem, pedir provas como recompensa por sua dedicação. Sua fragilidade narcísica percebe o parceiro como indispensável ao seu equilíbrio e isso a faz lançar mão do controle e da posse. Acusa-o de traidor pelo simples fato de existir fora da relação. Nada pode ser feito sem que ela esteja incluída e qualquer outro relacionamento passa a ser ameaçador.

De objeto desejado, temos na paixão patológica, perversão do amor, o objeto necessário, insubstituível, e sua perda implicaria em aniquilamento. A ansiedade de perdê-lo faz aumentar a cobrança, a avidez, o controle e ela finalmente o perde. Quando constata que este amor é oferecido a outra mulher, suas emoções são extremas e podem chegar a altos graus de destrutividade com a perda do controle da razão.

A pessoa narcisicamente vulnerável se acomete por sentimentos de fúria, quando o objeto amado deixa de viver de acordo com as expectativas que depositou nele. Essa fúria narcísica responde a uma ferida narcísica. Surge então necessidade de vingança, perseguição àquele que é identificado como algoz. Visto como inimigo, passa a ser alvo de destruição e a heroína de Eurípedes deseja-lhe os mesmos sofrimentos e humilhações por ela vividos. A atitude vingativa imbuída de irracionalidade, revela sua agressividade arcaica. O ódio e a satisfação sádica do sofrimento e degradação do objeto amado, entram em ação. O amor não pode ser renunciado. Assim, Medeia é personificada em crimes passionais e em processos tramitando em Varas de Família.

Sigmund Freud, em "Luto e Melancolia", indica a necessidade de um tempo determinado para o trabalho de luto ser concluído e o ego se ver novamente livre e desinibido para novas investidas libidinais. A ruptura de uma relação amorosa requer um trabalho psíquico, e elaboração de um processo de luto. A Medeia sente dificuldade em elaborar este luto, sua ferida dói não porque perdeu o objeto amado, mas porque perdeu um lugar que julga ser seu de direito. Ela quer reconhecimento de um suposto valor. 

A melancolia indica que um trabalho de luto não pôde ser realizado, a libido não foi retirada do objeto amado e isso impede qualquer outro investimento afetivo. As separações litigiosas, mantidas durante anos, são alimentadas quando os envolvidos não conseguem elaborar a separação psiquicamente. Mais do que contrariedades e frustrações vivenciadas em qualquer rompimento, torna-se ofensivo para aqueles que têm intensas necessidades narcísicas, constatar que o outro é independente e está conseguindo gerenciar sua vida após o rompimento.

A capacidade de reparação depende da maturidade do casal e a ruptura poderá despertar soluções criativas em prol da felicidade em substituição a movimentos que levam à destruição, desgaste e mais conflitos. Cada parceiro pode assumir a sua parte da responsabilidade nesta história que vinha sendo construída por ambos. Perdoar, analiticamente falando, não significa esquecer. Implica reconhecimento do próprio desamparo e o do outro.

Citando as palavras sobre o Amor Fino, de Padre Antônio Vieira, em "Sermões": Quem ama porque o amam é agradecido. Quem ama para que o amem é interesseiro. Quem ama não porque o amam nem para que o amem, só esse é fino. Eu diria que só esse é amor! Quando se rompe um relacionamento, podem acabar todas as formas de amar, menos uma: o amor de ser humano para ser humano. Qualquer um é digno de receber este amor, principalmente aquele que já partilhou momentos que não serão esquecidos porque foram bons. 

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