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México

Identidade Mexicana

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    • São José do Rio Preto
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O pasto verde ganha um desenho de linhas azuis conforme se avança pelos arredores de Guadalajara. A pintura é obra do agave azul, planta da qual se obtém a mais famosa bebida mexicana. São quilômetros de plantações que fazem do segundo maior polo econômico do país - o município perde para a capital, Cidade do México, e disputa posição com Monterrey, ao norte - o berço da tequila. Na região, concentram-se as principais destilaria, além de restaurantes e bistrôs que fazem jus ao sucesso da gastronomia mexicana. Mas não só.

Se por um lado Guadalajara se impõe como metrópole pulsante, principalmente depois de ter recebido os Jogos Panamericanos, em 2011, a cidade de 1,5 milhão de habitantes (são mais de seis milhões na área metropolitana) guarda ares de interior. No centro histórico, de forte influência espanhola, famílias relaxam e barraquinhas vendem balões e algodão doce. Caveirinhas coloridas sorridentes se unem à decoração. E a comida regional é preservada com gosto. Fazem sucesso as tortas ahogadas, sanduíches feitos com um pão de sal conhecido como "birote", recheado com carne de porco e mergulhado em um molho picante, bem a la mexicana.

Alma de País

A uma hora de Guadalajara, vários povoados preservam a autenticidade do país, com muitos mariachis, charrería (tradição similar a um rodeio), tequila, arte e uma zona arqueológica de 350 a.C., Guachimontones. A recomendação é provar todos os sabores. A proximidade de Guadalajara com os municípios que os concentram permite isso. Inclusive se o tempo for apertado: em poucos dias se absorve a energia tapatía, como são chamados os que nascem ali. O vizinho mais famoso é Tequila, cidade que deu nome à bebida. Até os bancos das ruas são decorados com o desenho do agave azul.

É onde fica uma das fábricas da José Cuervo, a primeira que abriu suas portas à visitação. Bem perto está Tlaquepaque. O município de nome que trava a língua é um divertido centro de artesanato, com peças indígenas huicholes, roupas bordadas, muitas obras de barro e um mercado onde mariachis passam de mesa em mesa, oferecendo músicas a famílias e casais apaixonados. Também próximo está Chapala, povoado que dá nome ao maior lago mexicano, com 80 quilômetros de extensão, e a Ilha de Mezcala, local de culto pré-hispânico e já disputado pelos espanhóis. Toda a região é uma viagem nos símbolos mexicanos.

Florença Mexicana

Guadalajara é a capital de Jalisco, que fica no Oeste mexicano. O nome tem origem árabe e significa "rio que corre entre pedras". A cidade é homônima da Guadalajara da Espanha e, também por isso, carrega muito do estilo do país que explorou e colonizou a região. Um passeio pelo centro histórico - de preferência a pé, para desfrutar cada detalhe - evidencia a combinação entre tradição e modernidade. Há símbolos da arquitetura colonial, da barroca, neoclássica e da art nouveau, ao lado de construções contemporâneas, que exploram também a vocação da cidade para negócios.

Vale começar a caminhada pela Praça de Armas, para conhecer a catedral, neogótica e majestosa, cuja pedra fundamental foi lançada no ano de 1541. É da época da fundação de Guadalajara pelos espanhóis, que aconteceu atrás do Teatro Degollado, na Praça Fundadores, que também merece visita. Mas há dois lugares em especial que, pela riqueza de arquitetura e beleza de cores e murais, contribuem para Guadalajara ser também conhecida como a "Florença do México": o Palácio do Governo de Jalisco, construído em 1650, e o Instituto Cultural Cabañas, aberto em 1810.

Crítica e realidade social

Nas paredes e no teto, um mural imenso de Juan Clemente Orozco engole os visitantes que sobem as escadas do Palácio do Governo. Foi pintado no fim dos anos 1930, e traz Miguel Hidalgo, um dos heróis da independência mexicana, como personagem principal. Ele concentra os conflitos de um país então em ebulição, de base rural indígena, explorado por uma elite poderosa. "O estilo muralista surgiu depois da Revolução Mexicana, em 1910, como forma de unir a população e mostrar por que o país estava mergulhado em pobreza", conta a guia turística Liliana Acevez, da DragonFly. "Foi daí que surgiu a ideia de pintar a história mexicana em paredes de prédios públicos."

Orozco, diz Liliana, nasceu em Jalisco e foi um dos maiores do estilo, com Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros. Um segundo mural de Orozco embeleza o palácio. Ele traz Hidalgo, outra vez, em momento posterior à assinatura da independência. No centro, o então presidente Benito Juárez aparece como fantoche político - não é dele o braço que na cena assina o acordo. Mais acima, Hidalgo observa tudo, com expressão de insegurança e medo. O palácio abriga ainda um museu que conta a história da região e dos grupos que ali moraram desde antes da fundação da cidade pelos espanhóis, como capital do que chamavam a "Nova Galícia".

Quando os primeiros espanhóis chegaram, a partir de 1530, toda a área do estado de Jalisco era habitada por povos indígenas como os huicholes, caxcanes, cocas, otomíes, entre outros. Documentos mostram que eles já estavam organizados em sociedades, muito antes, principalmente nos vales. A cidade se desenvolveu rapidamente durante a Conquista, chegando a competir em importância com a Cidade do México, que fica a pouco mais de 400 quilômetros dali. Passear nos corredores do museu é também imaginar como teria seguido a região sem os quatro séculos de influência espanhola.

Patrimônio cultural

A alguns metros dali, caminhando pela Praça Tapatía, está o Instituto Cultural Cabañas. Já foi hospício, orfanato e é hoje considerado a joia de Guadalajara. A começar pela arquitetura neoclássica, e os 23 pátios internos. Em 1997, o instituto foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Orozco surpreende de novo. No interior da capela, não sobram paredes ou tetos sem sua técnica e críticas sociais - em uma delas, pinta a si mesmo.

É "O homem em chamas", que parece exausto. Dizem que seria uma autorrepresentação do artista, que terminou a vida sem a visão de um olho e sem um braço, já cansado da classe política. A cidade expõe as contradições do país enquanto lembra, a todo momento, a raiz do mexicano: há agaves azuis em canteiros nas ruas, na gastronomia, na tequila, no mel de agave (outra maravilha local) ou expostos em pinturas de artistas amadores no bairro de Chapalita.

Povoados exaltam a cultura

Um dos maiores exemplos da importância dos arredores e povoados de Guadalajara para a cultura mexicana é Tlaquepaque, município a cerca de uma hora da cidade. O nome vem da língua nativa náhuatl e significa "lugar sobre colinas de terra de barro". Não por nada, a cidade é referência em cerâmica e centro de compras para artesanato. Na rua principal, artistas independentes e galerias expõem pinturas, joias, as típicas roupas bordadas mexicanas e peças em pedra obsidiana, palha ou miçanga.

Há trabalhos lindos da cultura huichole, que estampam em bijuterias e têxteis suas crenças e conhecimentos de harmonia com a natureza. E variadas obras em barro são expostas no Museu Regional da Cerâmica, em um lindo casarão no centro da cidade. Sobram, ainda, boas opções de restaurantes que exaltam a culinária mexicana e bares que transformam a habitual calma no fim de semana.

Vulcão e lago

Se o desejo é ouvir música, o Parián está a poucos metros. No tradicional mercado cercado por restaurantes, grupos de mariachis devidamente paramentados passam de mesa em mesa oferecendo clássicos mexicanos. O pagamento pode chegar a uns R$ 50 por canção, e não raro casais e famílias se estendem tarde adentro entre músicas de Vicente Fernández, Juan Gabriel e outros medalhões regionais. A cultura mariachi resiste com orgulho. Para os visitantes, uma sugestão de pedido aos músicos: a canção tema local, Guadalajara, que na letra exalta a cidade "que conserva a água do poço, a fiel mantilha (xale típico, herança da influência espanhola) das mulheres e que tem a alma mais mexicana".

Outras paradas imperdíveis são os povoados de Ajijic e Jocotepec, a cerca de uma hora e meia de Guadalajara. Jocotepec é conhecida pelo comércio de tecidos, cultivos de terra e construções do século 16. Virou base de muitos intelectuais estrangeiros na busca por tranquilidade no interior mexicano. Ajijic parece um museu a céu aberto, parado no tempo. O povoado fundado no ano de 1531 e de apenas 11 mil habitantes é conhecido pela arte de galerias, nas ruas, e nas casas coloridas, com pinturas nos muros de cenas do cotidiano mexicano.

O nome também vem do náhuatl e significa "lugar por onde corre a água". No fim de tarde, um deque vira ponto de encontro de amigos, casais e famílias. A região não tem praia, mas perto dali está o maior lago do México, o Chapala, de 80 quilômetros de comprimento. Ele envolve Ajijic, Jocotepec e uma cidade homônima, Chapala. Fica a cerca de uma hora de Guadalajara e a região é conhecida pela temperatura amena. Seu grande atrativo é o calçadão, que leva ao mercado de artesanatos e à mistura de cores e peças típicas de diferentes regiões do país. Dali se vê o imponente vulcão adormecido Cerro Viejo, que rodeia a orla de água doce.

São bem procurados também os banhos de água termais, famosos, claro, num espaço de terras vulcânicas. Já na parte norte do lago está o município de Poncitlán. É de onde saem os barcos para a famosa Ilha de Mezcala. São 20 minutos de lancha até 20 hectares de história viva. No local, há vestígios de ocupação desde os anos 200 d.C: de tumbas, ornamentos e pedra obsidiana, além de achados referentes a um presídio e a um forte usado pelos insurgentes da guerra da independência. Já falaremos deles adiante.

A cidade que deu nome à bebida

A 60km de Guadalajara, surge um lugar imperdível. É Tequila, município de 40 mil habitantes que - adivinhe - deu o nome à bebida. Junto com os povoados de El Arenal, Amatitlán, Magdalena e Teuchitlán, forma a chamada Rota da Tequila. É onde se concentram os campos de agave azul e a maioria das destilarias, entre elas a da José Cuervo, uma das mais antigas marcas da bebida mexicana - foi criada no ano de 1758 e hoje exporta para mais de 52 países.

É ali que está La Rojeña, uma das fábricas do Mundo Cuervo, que produz 60 mil litros da bebida por dia. Os apreciadores podem fazer uma visita guiada ao local e acompanhar todo o processo de produção: do corte da pinha, o "coração" do agave, que reúne a maior concentração de açúcares, ao cozimento e às etapas de purificação, com os diferentes tipos de gradação: tequila 51% agave, complementada por outros açúcares, e tequila 100% agave, do tipo branca, repousada, envelhecida, extra envelhecida e jovem.

O processo começa na pinha, que leva até dez anos para alcançar o ponto ideal de corte. Cada fruto pode pesar até 40kg - e produzir quase seis litros da bebida. "O agave é um dos maiores símbolos de mexicanidade e era apreciado desde os nativos", diz Marco Antonio Sanchez, guia do Mundo Cuervo. "Existem mais de 200 tipos de agave. A tequila vem do agave azul, cujo 'coração' é cozido em forno de pedra e triturado. Depois se tira o suco, para fermentar e destilar."

As folhas não produzem a tequila, mas opções para o seu aproveitamento já começam a surgir. A Mundo Cuervo tem um acordo com a Ford para produzir um tipo de plástico para peças de automóveis, a partir do agave. E, na Califórnia, o surfista Gary Linden inovou ao fabricar uma prancha que é feita com a planta mexicana. As histórias em torno da bebida são contadas também com brinde na visita à La Rojeña: há degustações que mostram os diferentes tipos de tequila e as melhores harmonizações. Na fábrica, o passeio custa cerca de R$ 40, ou R$ 60, com a degustação.

Outra opção é pegar o "trem da tequila", que sai de Guadalajara, passando pelos campos de agave até a destilaria. O tour inclui viagem com mariachis, a visitação e a volta a Guadalajara. Custa entre R$ 300 e R$ 400. E nem tudo é só tequila em Tequila: o centrinho é uma graça, com coreto, igreja e paz. Dá para descansar nos bancos da praça principal - decorados, claro, com a figura do agave azul. Ao lado, um museu do Mundo Cuervo reproduz os fornos de pedra onde se cozinhavam os agaves nas fazendas de antigamente.

O espaço tem ainda centro de convenções e ampla área verde disputada para eventos e casamentos. Ao fundo, está a Fazenda Centenário, que tem o balcão mais comprido da América Latina - com direito a uma imagem na ponta final de Cantinflas, personagem do humor mexicano, que sorri com ar maroto. A paisagem de volta de Tequila para Guadalajara, novamente com as linhas azuis do agave no pasto verde, embriaga os olhos de quem reconhece nelas os valores do país.

Serviço

Como chegar

  • A Copa Airlines tem voos de ida e volta para Guadalajara saindo das cidades de Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife e Manaus, com conexão na Cidade do Panamá, a partir de R$ 3.373.
  • Os voos que passam por Rio de Janeiro e São Paulo são diários. A United tem voos do Rio para a cidade, com conexão em Houston, por a partir de R$ 2.544. Também saindo do Galeão, a American Airlines tem bilhetes por R$ 3.598, via Nova York e Dallas. Valores, com taxas, para última semana de novembro.

 Onde ficar

  • NH Collection Guadalajara (Guadalajara). Localizado no Centro Histórico, tem diárias de casal a partir de R$ 300. Avenida Cristóbal Colón 73. www.nh-hoteles.pt
  • Hacienda Lomajin (Guadalajara). Diárias a partir de R$ 600. Carretera a Colotlán Km 20. haciendalomajim.com
  • Hotel e Restaurante Solar Animas (Tequila). Diárias a partir de R$ 700. Ramón Corona 86, Centro. hotelsolardelasanimas.com
  • Hacienda El Carmen (Ahualulco de Mercado). Diárias a partir de R$ 400. Ramón Díaz Ordaz 2, El Carmen. haciendadelcarmen.com.mx

Passeios

  • Centro Histórico de Guadalajara. A DragonFly oferece tours guiados pela cidade. Preços a combinar. Mais informações no dragonfly.pro
  • O "trem da tequila" faz o trajeto de Guadalajara à fábrica da empresa em Tequila. Ingressos a partir de R$ 300. mundocuervo.com
  • Tlaquepaque. A Sin Fin de Servicios faz o transporte. Preços a combinar. sinfindeservicios.com
  • Ilha de Mezcala. Lanchas oferecem o serviço de transporte para a ilha saindo de Poncitlán, em Chapala. A partir de R$ 50.