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Diário da Região

23/02/2016 - 00h00min

Umberto Eco

Ideias e um legado que vão muito além do nome da rosa

Umberto Eco

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Uma das maiores referências culturais, artísticas e acadêmicas, Umberto Eco, que morreu na última sexta-feira, aos 84 anos, é muito mais que o autor de O Nome da Rosa, romance da década de 1980 que projetou seu nome no mundo. Além de excelente romancista, cujas obras revelam uma brilhante relação entre teoria e criação literária, o intelectual italiano foi responsável por uma série de estudos que estruturam a construção do conhecimento em áreas como artes, filosofia, linguística, política e comunicação.

Pilar internacional de toda uma disciplina, a semiologia (teoria das representações dos signos na sociedade pós-moderna), que marcou os estudos de comunicação no mundo, Eco também deixa um imenso e singular legado sobre estudos de estética. Ele foi antes de mais nada um intelectual brilhante e reconhecido por sua obra sobre a estética medieval e sobre a filosofia da arte. Para Orlando Amorim, professor da Unesp de Rio Preto, Eco tem uma importância histórica nos estudos de letras e linguística. “Ele foi uma das principais figuras que contribuíram no entendimento da semiótica. 

E isso no auge das discussões sobre o tema, entre as décadas de 1960 e 80”, comenta o professor. Sua primeira publicação, o livro Obra Aberta, de 1962, influenciou o ensino da literatura em todo o mundo, sendo até hoje uma referência para os acadêmicos da área. “Umberto Eco foi um grande exemplo de intelectual independente, influenciando diferentes áreas com seus estudos. Com o livro Obra Aberta, ele modificou o ensino da literatura, defendendo que uma obra literária está sujeita a diferentes enfoques e interpretações”, comenta o professor e advogado Gentil de Faria, que leciona na Unesp de Rio Preto.

Conforme Amorim, Eco foi ainda um dos pioneiros nos estudos sobre narrativas literárias. O professor cita o livro Lector in Fabula (1979), que trata da figura do leitor no processo de interpretação de uma obra literária. Outro trabalho importante é Seis Passeios Pelos Bosques da Ficção, uma série de conferências feitas pelo intelectual italiano na Universidade Harvard, em 1993. “É uma obra importante até hoje para quem estuda ficção”, sinaliza Amorim. Eco foi um intelectual muito ligado com o mundo, manifestando-se sobre diferentes momentos históricos tanto em sua obra literária como em seus estudos. 

“Ele tratava a semiótica como a ciência dos signos, não se restringindo ao universo da escrita. Para Eco, tudo pode ser lido como signo nos mais diferentes campos do conhecimento”, pontua Amorim. “Umberto Eco sempre manteve um discurso acessível, contrário ao pensamento acadêmico tecnicista e seu estilo rebuscado. Analisava as coisas como se estivesse batendo um papo com alguém sobre o assunto”, acrescenta Faria. Professora do curso de jornalismo da Unirp e especialista em escrita criativa, Dinamara Costa classifica Eco como um pensador que instiga para o equilíbrio, algo fundamental para o mundo contemporâneo.

No campo da comunicação, ela cita como importante o livro Apocalípticos e Integrados (1964), escrito por Eco depois de se integrar à chamada Escola Sociológica Europeia, da qual faziam parte nomes como Edgar Morin, Jean Baudrillard ou Roland Barthes. Esse grupo foi marcado por uma visão menos negativa sobre os meios de comunicação de massa, dissociando-se das críticas funcionalistas e da Escola de Frankfurt. “Herdeiro do pensamento clássico latinista, Eco era moderno e centrado, mantendo uma lucidez enorme ao pensar sobre a nossa época”, opina.

Planos para novo livro

Escritor, ensaísta, linguista e filósofo, Umberto Eco planejava lançar mais um livro neste ano, Pape Satàn Alepe, uma coletânea de textos da coluna que ele assinava na revista l’Espresso, criada em 2000. Inicialmente, o lançamento do livro estava previsto para maio, mas com sua morte a editora La Nave di Teseo decidiu antecipá-lo para o próximo final de semana, na Itália. Ainda não há previsão de lançamento no Brasil.

O título da obra faz referência a um verso do poeta Dante Alighieri contida em Inferno, o primeiro volume de A Divina Comédia. O verso é famoso pela incerteza sobre seu significado, tendo, ao longo do tempo, gerado debates e teorias diversas por parte de estudiosos. Umberto Eco vinculou-se à editora independente La nave di Teseo após sua editora antiga, a Bompiani, ser comprada pelo grupo Mondadori, de propriedade da família Berlusconi.

Ele foi um grande crítico da política do ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi. Na literatura, O Nome da Rosa é considerado sua grande obra. Lançado em 1980, o livro chamou a atenção por mesclar ficção e fatos históricos numa trama de investigação. Seis anos após o lançamento, o livro foi adaptado para o cinema pelo diretor Jean-Jacques Annaud, tendo o ator Sean Connery como protagonista. 

Contribuições de Umberto Eco

Fique por dentro:

O Nome da Rosa (1980) - Obra que projetou o nome de Umberto Eco como romancista, O Nome da Rosa já vendeu 10 milhões de cópias e foi traduzido por cerca de 30 línguas. Também ganhou adaptação no cinema protagonizada por Sean Connery, no papel de um frade franciscano que investiga uma série de crimes misteriosos cometidos dentro de uma abadia medieval

O Pêndulo de Foucault (1988) - Romance repleto de referências esotéricas à Cabala, filosofia religiosa judaica de origem medieval, à alquimia e a teorias conspiratórias. Na história, sociedades secretas estão envolvidas em um suposto plano que governaria a humanidade

A Misteriosa Chama da Rainha Loana (2004) - Nesse livro, Umberto Eco traça um panorama da Itália na período do fascismo, recorrendo a referências literárias, históricas, filosóficas, religiosas e políticas. A história se passa nos anos 1990, em Milão, onde um vendedor de livros antigos e raros perde a memória e começa a reconstruir sua história

Número Zero (2015) - Um grupo de redatores, reunido ao acaso, prepara um jornal. Não se trata de um jornal informativo; seu objetivo é chantagear, difamar e prestar serviços duvidosos a seu editor. Um perfeito manual do mau jornalismo

Estudos

Obra Aberta (1962) - Uma coletânea de ensaios escritos por Umberto Eco sobre as formas de indeterminação das poéticas contemporâneas, tanto na literatura como nas artes plásticas e na música. Sua publicação deu-se em uma época em que a Europa presenciava a proliferação de obras de artes indeterminadas com relação à forma, convidando o intérprete a participar de forma mais ativa na construção final do objeto artístico

A Estrutura Ausente (1968) - Uma das obras referenciais para o estudo da semiótica. Analisando as comunicações visuais e a arquitetura, Eco trata do que é e do sentido que pode ter uma pesquisa que considere todos os fenômenos de cultura como fatos de comunicação

Seis Passeios pelos Bosques da Ficção (1994) - O que é o texto de ficção? Em que medida ele difere da verdade histórica? Essas e outras questões cruciais da arte narrativa são discutidas, de forma acessível e bem-humorada, por Umberto Eco em seis conferências que realizou em 1993, na Universidade Harvard

História da Beleza (2004) - Um tratado sobre estética, o livro discorre sobre a história e a representação da beleza nas sociedades desde as antigas até as modernas. Afinal, o que é beleza? O que é arte? Gosto se discute? Eco propõe essas indagações em seu livro

 

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