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Diário da Região

09/12/2015 - 00h00min

A CARA DA CONQUISTA

Jéssica retrata o perfil da equipe de futebol feminino do Rio Preto

A CARA DA CONQUISTA

Guilherme Baffi Jéssica, que chegou a anunciar a aposentadoria no começo do ano, marcou quatro gols na campanha do Jacaré no Nacional; ontem, posou de modelo no Riopretão
Jéssica, que chegou a anunciar a aposentadoria no começo do ano, marcou quatro gols na campanha do Jacaré no Nacional; ontem, posou de modelo no Riopretão

Três meses depois, Jéssica pôde voltar ao salão de beleza para fazer uma escova em seus cabelos lisos e na altura dos ombros. Nada de curto, mas, se muito comprido, atrapalha Jéssica de Lima, camisa 5 do Rio Preto/Smel, a exercer sua profissão. A jogar o seu futebol digno de uma campeã brasileira. “Quando faz escova é preciso ficar três dias sem lavar o cabelo, e como fica sem lavar depois dos treinos e jogos?”, explica a atleta. Não gosta de touca ou faixa e, como único recurso para conter a inquietude de suas mexas, a solução é amarrar com elástico. “As unhas, mesmo, nem faço mais.”

Dois dias depois de fazer o gol do título do Brasileirão, no empate por 1 a 1 entre Rio Preto e São José, Jéssica foi para o salão de beleza La Belle a convite do Diário da Região. Foi recebida com entusiasmo e uma gafe. “Você é a Darlene?”, disse uma atendente do salão. “Não, sou a Jéssica!”

Jéssica não tem o prestígio de ser atacante da Seleção Brasileira, como Darlene. Mas é a cara deste inédito título brasileiro do Rio Preto. Nasceu na pequena Iacanga, de 11 mil habitantes e mais conhecida por ser a vizinha de Bauru. Começou a jogar futebol na infância, mesmo com a resistência dos pais e, com 19 anos, já se destacava como meia do Marília, até ser convidada por Dorotéia de Souza Oliveira, para jogar no Rio Preto.

De meia, a possível camisa dez do time, posição ocupada pela então desconhecida Marta, foi recuada para a função mais proletária dos gramados, a de volante. “Todo mundo começa a jogar lá na frente”, sorri Jéssica, responsável por apelidar as companheiras de time. “Logo quando cheguei ganhei o apelido de Cabeça. O Chicão é o Mou, Mourinho, e a Dorotéia tiramos sarro do seu cabelo. Quando ela arruma o cabelo, já ganhamos por 1 a 0.”

No gramado é incansável na marcação, também sabe sair para o jogo, fazer gol e é muito articulada nos bastidores. Se o Rio Preto conseguiu uma vaga neste Brasileiro, foi graças ao desabafo de Jéssica e Dorotéia na CBF, em maio deste ano. A entidade voltou atrás, depois da visita e deu uma vaga ao Rio Preto.

Em campo, Jéssica fez quatro gols no Brasileiro. Entre eles, o mais importante, no domingo passado, completando escanteio para abrir o placar diante do São José. “Na hora do escanteio, o que eu lembro é que pedi para Deus me abençoar. A Suzana foi para bola, sabia que ela iria ganhar no alto, e a minha sorte é que a zagueira adversária não me acompanhou na marcação. Ai, não lembro mais nada. Eu só queria comemorar com as meninas e a nossa torcida, no outro lado do campo”, lembra.

Beckenbauer a Ceni

No futebol feminino, onde as referências tanto positivas e negativas são do meio masculino, o repórter de campo Sérgio Lourencim apelidou Jéssica de a Kaiser (o Imperador em alemão), em alusão ao volante Franz Beckenbauer.

O salário e a estrutura da equipe feminina não se comparam. Jéssica recebe auxílio-atleta da Prefeitura para defender o Rio Preto. No começo deste ano, quando o secretário de esportes, Francisco Júnior, anunciou cortes no auxílio, cujo o valor máxima é de R$ 1,1 mil por mês, Jéssica, aos 34 anos, anunciou a Dorotéia e ao técnico Chicão Reguera, o seu fim de carreira.

Para não perder a atleta, Dorotéia propôs a volante acumular com o cargo de preparadora física. Jéssica começou a temporada, na comissão técnica, porém, depois de o time não ir bem no começo da Copa do Brasil, foi convencida por Chicão a voltar. “Agora, já não faço planos. As meninas até brincam que virei o Rogério Ceni, porque não vou parar e quero jogar a Libertadores”, planeja Jéssica.

Com o título, o Rio Preto garantiu vaga na Taça Libertadores de 2016. Jéssica não tem um pingo do glamour de Rogério Ceni. E também não se ilude em fazer fama como jogadora de futebol. Depois de ficar quase três horas no salão de beleza e poses para fotos no estádio Anísio Haddad, zona sul da cidade, a jogadora precisou correr. Atravessou a cidade para dar aulas de futebol para meninas da zona norte. “Dar um sentido de vida para essas crianças e adolescentes, é o mais importante. Ajudar uma menina, com depressão depois de perder a mãe, através do esporte, é o que me importa. É mais valoroso que fazer um gol, um título”, conta Jéssica, enquanto vislumbra as garotas à sua espera, no gramado. “Vai ser engraçado quando me verem maquiada.”

Gabi, companheira de time, foi de bate-pronto. “Que flor!”

 

Preconceito na rua e resistência do pai

 

Jéssica, por pouco, não existiu para o futebol. Só depois da morte do pai, quando tinha dez anos, se entregou de vez ao esporte - tão machista. “Meu pai não gostava, e a minha mãe tinha medo de machucar. Mas, os meninos iam me chamar em casa. E, se alguém do time adversário me ofendia, como me chamar de ‘mulher-macho’, eles me defendiam”, recorda Jéssica. “Sei como é o preconceito. Sou heterossexual, não quero casar porque não me vejo, num domingo, cozinhando. Não sou boa de cozinha. Mas quero muito ser mãe, isso eu quero.”

Até, hoje, a mãe Maria, de 61 anos, teme ver um jogo de Jéssica na televisão. Não assistiu nem a decisão do título.
Como professora de futebol para meninas, Jéssica também lida com a resistência de alguns pais. “Esse ano tenho três casos e até estamos contando com a ajuda de psicólogo. O pai e a mãe acham que as filhas vão virar isso ou aquilo. Eu tento explicar para os pais que a opção sexual do seu filho não depende do que ele vai fazer.”


O título, além de diminuir o preconceito, poderá atrair incentivadores da torcida esmeraldina. “A torcida comemorou com a gente e dizia nunca ter sido campeã. Tanto que uns torcedores revelaram que foram fazer faixa e enfrentaram resistência de alguns membros. Quando fomos campeões, com a faixa Fanáticos Feminino aparecendo na TV, diziam não acreditar. Felizmente estão mudando.” 

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