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Diário da Região

07/08/2016 - 00h00min

O MAR ESTÁ PARA PEIXE

Projeto Pescar é referência para capacitar jovens

O MAR ESTÁ PARA PEIXE

Guilherme Baffi Os jovens são acolhidos pelo projeto e realizam aulas de capacitação de segunda a sexta-feira, no período da tarde. O curso se constitui em 880 horas durante dez meses
Os jovens são acolhidos pelo projeto e realizam aulas de capacitação de segunda a sexta-feira, no período da tarde. O curso se constitui em 880 horas durante dez meses

Inspirado pelo provérbio chinês “Se quiseres matar a fome de alguém dá-lhe um peixe. Mas, se quiseres que ele nunca mais passe fome, ensina-o a pescar”, que nasceu o Projeto Pescar, uma franquia social com 98 unidades espalhadas no País e com presença internacional também na Argentina, Paraguai, Angola e Peru, com mais 28 unidades. No último dia 27 de julho completou dez anos que o Projeto Pescar foi implantado em Rio Preto. Ao longo dessa década, 147 jovens foram atendidos e formados para o mercado de trabalho e para a integração social.

Ele foi trazido para a cidade pelo empresário Marcelo Lourencin, presidente da Shift e, atualmente, é mantido por 12 empresas e conta com a colaboração de voluntários. O Pescar é um programa de capacitação profissional e desenvolvimento social de adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Os jovens são acolhidos pelo projeto e realizam aulas de capacitação de segunda a sexta-feira, no período da tarde. O curso se constitui em 880 horas que são distribuídas em dez meses. Terminada a capacitação, eles são encaminhados para o mercado de trabalho e a efetividade é de 100%.

Os ‘peixinhos’, como são chamados os participantes, ainda são acompanhados por mais dois anos depois de formados. “Mantemos contato para saber sobre a empregabilidade, como ele está se desenvolvendo e até mesmo em questões familiares, se ele precisa de algo, se há algo a mais que podemos fazer”, diz a educadora social Erika Morales Puga. Segundo ela, a meta do projeto é estimular o desenvolvimento pessoal, cidadania e valorização do trabalho. Além de promover o estreitamento do vínculo com a família e com a comunidade na qual o jovem está inserido.

Há oito anos a Visual Systems é uma das mantenedoras. Segundo o empresário Rafael Derrico, 47 anos, o projeto foi apresentado a ele por Lourencin e a identificação com a proposta foi imediata. “Fiquei encantado em poder contribuir na formação desses jovens que ansiavam em fazer coisas boas para suas vidas, com capacidade para isso, mas que não tinham oportunidades”, diz. O empresário afirma ainda que a participação é uma forma de contribuir socialmente. 

Além de recursos financeiros, a empresa promove ações com os participantes, como palestras e visitação. Há ‘peixinhos’ dentro da Visual e dois jovens estão se desenvolvendo para se tornarem técnicos dentro da empresa. “A gente acaba ganhando mais do que investindo. Depois de passar pelo curso, esses jovens ficam muito aguerridos e dedicados às chances que lhes são abertas.” O próximo passo da empresa, diz Derrico, é envolver os colaboradores no projeto para que eles também sejam voluntários dentro do Pescar.

 

Marina Laura Lucio Santos - 07082016 Marina Laura Lucio Santos, 17, percebeu transformações em sua vida com apenas cinco meses no projeto; ela melhorou sua comunicação e sua autoestima

O programa

Durante este mês estão abertas as inscrições para os interessados em participar do Projeto Pescar. Eles devem ir até a Faculdade de Tecnologia (Fatec) às segundas, quartas e quintas, das 13h30 às 17h, para preencher a ficha de inscrição. É preciso levar RG, CPF, comprovante de residência e atestado de escolaridade. O jovem deve estar acompanhado por um responsável e as vagas são para quem tem de 16 a 19 anos.

Devido a quantidade de vagas, são 15 por grupo, e o número de jovens que se inscrevem, é feito um levantamento das necessidades e vulnerabilidades de cada candidato e, a partir daí, feita a seleção. “Realizamos dinâmicas de grupo, visita domiciliar, entrevista com os familiares e com o jovem interessado”, diz Erika.

Durante os dez meses de curso, o participante têm aulas de conteúdo técnico na área de administração: introdução à contabilidade, departamento pessoal, informática, rotinas financeiras e relacionamento com o cliente. Além disso, são desenvolvidos módulos sobre cidadania, saúde, ecologia, meio ambiente e desenvolvimento social. As aulas acontecem na Fatec, que fica no bairro Eldorado, e também há aulas dentro de duas empresas parceiras do projeto, a Shift e a CCLi. 

(Colaborou Beto Carlomagno)

Projeto ajuda a transformar vidas

O estudante Ademir dos Santos Pereira, 16 anos, está há cinco meses no projeto. Soube do Pescar pelo Centro de Referência e Assistência Social (Cras) de Talhado, onde mora. “É muito legal, é totalmente diferente do que eu imaginava ser um curso profissionalizante. Ajuda bastante na escola e no convívio com as pessoas. Eu era muito tímido e percebi que mudei, me relaciono melhor com as pessoas, perdi toda aquela inibição, falo melhor em público e aprendi a trabalhar em equipe”, conta.

Ademir diz que se identificou com a área de administração e quer ser ‘peixinho’ em alguma empresa. “Vou poder ajudar meus pais e também não serei mais tão dependente deles para as minhas coisas.” Em apenas cinco meses, Marina Laura Lucio Santos, 17, percebeu transformações em sua vida. De tímida e alguém que tinha dificuldades de falar com outras pessoas, desenvolveu a comunicação. “Isso está sendo muito importante para mim e sei que será fundamental no mercado de trabalho”.

Outro comportamento que mudou é que Marina tinha baixa autoestima. “Antes do Pescar, qualquer coisa desagradável que acontecesse comigo eu ficava a semana inteira ansiosa, não conseguia parar de pensar e tinha dores de cabeça. Hoje eu sinto confiança em mim e nas coisas que eu faço”. Dentro do curso, a adolescente se identificou com o módulo de inteligência de mercado e diz que, se houver uma oportunidade, gostaria de trabalhar como ‘peixinho’ nessa área.

 

Roberto Hebert de Souza Vinha - 07082016 Influenciado pelo Pescar, o ex-participante Roberto Hebert de Souza Vinha, 24 anos, fundou seu próprio projeto, o Juventude Consciente, que pretende desenvolver ações sociais

Pescar existe graças ao trabalho voluntário

Além das empresas mantenedoras, o projeto só consegue existir com o trabalho dos voluntários. Dentro do Pescar, apenas a educadora social Erika Puga é contratada, todos os demais são colaboradores. A agente financeira Simone Nadruz, 45, está no projeto desde o início. Ela soube do Pescar dentro da empresa que trabalha. “O Marcelo, que é o presidente da Shift, foi quem o implantou aqui em Rio Preto e eu me voluntariei”. A agente financeira dá aulas de atendimento telefônico, rotinas financeiras e arquivologia. Seus módulos começam no segundo mês e prosseguem até a conclusão do curso.

“É excepcional poder dar oportunidade a adolescentes que vêm de famílias menos favorecidas, para que se tornem seres integrais. Além da capacitação profissional, a questão social também é trabalhada”, afirma Simone. “É interessante ver esses adolescentes se desabrocharem. Alguns chegam mais tímidos outros mais agressivos e se transformam ao longo dos dez meses de curso”, prossegue. Nestes dez anos de projeto, Simone acompanhou o crescimento de diversos ‘peixinhos’ que hoje já são pais, mães e profissionais em Rio Preto.

A escritora e administradora de empresas Lilian Patrícia Lourenço, 37, é voluntária há sete anos. Ela desenvolveu um programa de aulas de administração comportamental, apresentou ao Pescar, e passou a atuar no projeto. Além de trabalhar no desenvolvimento comportamental dos jovens, também ensina empreendedorismo, logística e economia. “O projeto é mais do que capacitar o jovem para o mercado, é torná-lo um ser humano melhor, com valores éticos e de respeito. Poder participar dessa transformação não tem preço”, conclui.

Empresário viabilizou ideia

O empresário Marcelo Lourencin foi convidado pela direção de um laboratório de análises clínicas de Brasília para a formatura de uma turma do Projeto Pescar. Presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Tecnologia e Informação (Apeti) na época, Marcelo também ocupava a cadeira de responsabilidade social do Centro das Indústrias do Estado de são Paulo (Ciesp). Foi nesse meio que ele buscou o apoio de empresários para investir no programa.

“Ao conhecer a iniciativa em um cliente em Brasília, percebi que poderíamos trazer para Rio Preto. Após contatar uma rede de amigos empresários, foi possível iniciar o Pescar em nossa cidade. Agora, 10 anos depois, vejo quanto resultado trouxe para tantas vidas. Pessoas que foram impactadas direta e indiretamente por um projeto que se concretizou graças à união de forças dos voluntários, das empresas e, em especial, de todos os alunos e familiares”, diz. A história do Projeto Pescar iniciou em 1976, em Porto Alegre, quando o empresário Geraldo Linck presenciou um menino assaltando um idoso e, chocado com a agilidade do jovem contra a fragilidade da vítima, resolveu fazer algo para mudar aquela situação.

O empresário montou uma sala e ensinou curso de mecânica automotiva para jovens das comunidades do entorno da sua empresa, na época uma região carente da capital gaúcha. Os resultados alcançados com as primeiras turmas chamaram a atenção de organizações socialmente responsáveis e, em 1988, o Projeto Pescar foi implantado em outras empresas. Quando morreu, em 1998, o empresário destinou parte de sua herança para constituir a Fundação Pescar.

 

Arte - Projeto - 07082016 clique na imagem para ampliar

Impacto nos participantes é grande

Em 2009, Roberto Hebert de Souza Vinha, 24 anos, participou do Projeto Pescar. Foi lá que descobriu que sua vocação profissional é na área da tecnologia da informação. Hoje cursa informática para negócios na Faculdade de Tecnologia (Fatec). “Durante quatro anos atuei em uma empresa como estagiário na área de informática. Consegui o emprego depois de concluir o curso. Além de toda a capacitação profissional, o Pescar também forma cidadãos”, afirma.

Em junho, Roberto criou seu próprio projeto, o Juventude Consciente. Conseguiu mobilizar cerca de 100 jovens e pretende desenvolver ações sociais, de cidadania e conscientização em Rio Preto e região. Na segunda-feira, dia 1º, ele e outros integrantes do Juventude estiveram no Asilo de Schmidt para entregar caixas de leite. “Soube que eles estavam precisando de leite e pedi a colaboração para que pudéssemos ajudar os velhinhos”, conta.

Como está no início, o grupo ainda está elaborando outras ações. “Um dos projetos é o plantio de árvores, outro será de informações para um trânsito mais seguro e também queremos levar até as pessoas conhecimentos sobre seus direitos e deveres”, conta.
Há três anos, quando Isabela Fernandes, 20, se inscreveu no Projeto Pescar, não imaginava o quanto sua vida se transformaria. Ingressou no mercado de trabalho, esta no 3º ano de fisioterapia, e, com suas próprias economias, conheceu Vancouver, no Canadá, onde fez um curso de inglês. 

“Fiquei lá de 26 de junho até 17 de julho. Foi uma experiência incrível, realmente a realização de um sonho”. Ela atribui ao Projeto Pescar as possibilidades que têm de uma vida melhor. A primeira oportunidade de trabalho de Isabela foi na CCLi Consultoria linguística, empresa apoiadora do projeto. Ela começou como ‘peixinho’, mas se aprimorou, foi efetivada e atua como consultora de atendimento da empresa. “O projeto também possui um foco no autoconhecimento e enfatiza a importância do trabalho e da família. Tenho muito mais determinação e coragem para buscar os meus sonhos”, diz.

 

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