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Diário da Região

14/02/2016 - 00h00min

SENHOR ESTAGIÁRIO

Estagiários na faixa de 30 a 40 anos aumentam no mercado de trabalho

SENHOR ESTAGIÁRIO

Johnny Torres Fábio Vinícius Macedo, 37 anos, mantém o foco no objetivo de conseguir uma oportunidade de estágio na área de direito
Fábio Vinícius Macedo, 37 anos, mantém o foco no objetivo de conseguir uma oportunidade de estágio na área de direito

Rita Solimenes está indo para o seu segundo ano de estágio na área de pedagogia, mas ela não é a típica estagiária que vem em mente. Rita está prestes a fazer 54 anos, está fazendo um curso superior pela primeira vez e ela não é a única.

É comum, quando o assunto é estágio, pensarmos automaticamente em jovens no começo de seus 20 anos, muitas vezes dando início à sua carreira profissional. No entanto, essa preconcepção está longe de ser a verdade absoluta. A cada dia, mais e mais pessoas acima dos 30 e 40 anos estão voltando aos estudos e isso tem se refletido no mercado de trabalho, afinal, o estágio é uma parte importante de qualquer graduação.

As razões para essa mudança são variadas. Alguns não estão contentes com suas carreiras e resolvem recomeçar. Outros foram obrigados pelo mercado. Perderam o emprego e viram nesse fato uma oportunidade de seguir um novo caminho. Além disso, temos aqueles que não tiveram a chance de fazer uma faculdade quando eram mais novos e voltam aos estudos assim que podem.

Independentemente da razão, o importante é se renovar sempre, garante Ana Carolina Verdi Braga, diretora da Cegente Educação Coorporativa. “Não importa o motivo da decisão, só de retomar os estudos e estagiar já é um ponto muito positivo. Isso mostra que a pessoa está tentando se adaptar a um novo momento, seja econômico ou de sua própria vida. Não há um momento certo para se capacitar, qualquer hora é hora. No entanto, com a crise, agora é mais importante que nunca”, afirma Ana Carolina.

 

Rita Solimenes Com quase 54 anos, Rita Solimenes está realizando o sonho de fazer uma faculdade e trabalhar no que ama, como educadora de crianças

O caso de Rita é o último. Quando terminou o ensino médio, seus pais não a deixaram continuar os estudos, uma convenção da época. Logo em seguida, acabou se casando e teve dois filhos. Mas nada disso fez com que o sonho de se tornar uma educadora morresse. “Sempre quis trabalhar com crianças. Gosto demais. Então, quando meus filhos se formaram, vi que era o momento ideal de voltar a me preocupar com o meu futuro”, conta.

Já no início do curso, Rita foi em busca de um estágio. Primeiro passou na seleção da Prefeitura para o estágio nas creches municipais, depois foi contratada pela escola Infantário dos Sonhos, onde está desde o meio do ano passado. “Só no estágio que aprendemos a lidar com o racional, a lidar com os pais das crianças e a compreender a teoria e transmiti-la para a prática. Além disso, estagiar aumenta as chances de ficar no emprego depois que a pessoa se forma”, avalia.

A história de Alexandra Andréa Silva Garcia, de 42 anos, é semelhante à de Rita. Ela também sempre sonhou em cursar pedagogia, mas não tinha condições financeiras e nem apoio, tanto que nem havia terminado o ensino médio. Casamento, filhos, tudo veio para atrasar o sonho, mas nunca acabar com o desejo.

“Assim que senti segurança em voltar a estudar, com meus filhos já maiores, voltei. Encontrei um supletivo, terminei o ensino médio, e fui para a faculdade. Quando comecei o curso já parti em busca de um estágio. No começo foi um pouco difícil, fiquei uns três meses procurando, mas a minha experiência como mãe ajudou muito.”

Agora, já há quase um ano como estagiária, Alexandra vê a importância do trabalho fora da sala de aula para a formação profissional. “A teoria é simples, você vai, estuda e pronto. Agora, a prática é desafiadora. Na minha área, por exemplo, cada criança é diferente, cada uma tem um comportamento e precisamos saber como lidar com essas situações”, diz.

Maturidade

A escolha de uma nova profissão com mais idade também contribui para que a formação seja mais certeira, garante Ana Carolina. “Nossa sociedade dita que temos que decidir o que queremos ser muito cedo. Por isso tomamos tantas decisões erradas. É muito ingrato. Quando a pessoa vai fazer uma faculdade mais madura, seu aproveitamento é melhor e o resultado também.”

 

José Carlos Teodoro Garcia Júnior José Carlos Teodoro Garcia Júnior tem 39 anos e faz faculdade de direito; estágio é parte da formação profissional

Rotina entre os livros e as vendas

José Carlos Teodoro Garcia Júnior até tentou fazer uma faculdade quando terminou o ensino médio, mas não deu certo. “Comecei o curso de ciências contábeis com 17 anos. Não gostei e desisti no primeiro ano, queria fazer direito”, conta.

Depois disso, acabou indo trabalhar e se tornou representante comercial. No entanto, a vontade de fazer direito permaneceu. Hoje, com 39 anos, Garcia Júnior está indo para o quarto ano do curso e fazendo estágio na esperança de, quando concluir o curso, deixar o posto de representante comercial e se dedicar totalmente ao direito.

“Meu trabalho atual me permite fazer meu próprio horário, assim consigo adequar meu tempo ao estágio no escritório de advocacia de um amigo. Não é um trabalho remunerado, mas é uma parte muito importante da formação. Faço pelo aprendizado. Inclusive, já completei minhas horas de estágio obrigatório, mas vou continuar até o fim da faculdade para conseguir o máximo de experiência possível”, diz. Segundo ele, a intenção com a volta aos estudos é conseguir mudar de vida, ter uma melhoria.

Nunca é tarde

Fernando Suarez Melgar resolveu voltar a estudar com 72 anos e, junto, fazer estágio. Sem vontade de desacelerar, resolveu que gostaria de reativar uma empresa da família que fabrica pastas e bolsas para notebooks. Para se preparar para o empreendimento, resolveu fazer o curso de técnico de administração do Senac. Nos dois anos de duração do curso, Melgar passou por três empresas, onde o estágio serviu como preparação para seu próprio negócio.

“Enquanto estava nestas empresas, gostava de observar o comportamento dos gestores, dos colaboradores e me comparar, ver o que eu faria igual e o que eu faria diferente”, conta.

Segundo ele, um senhor de 72 anos chegar para fazer estágio na empresa causava um pouco de estranheza no início. “Inicialmente, havia um tratamento com certo cuidado. Depois, passados alguns dias, eles viam que não havia essa necessidade. No entanto, é uma coisa cultural nossa. No Brasil, temos a mentalidade de que em uma certa idade a pessoa deve se aposentar e pronto.”

Além disso, Melgar diz que falta no brasileiro o hábito de aproveitar o que aquela pessoa com experiência e sabedoria pode oferecer. “Muita gente tem aquela visão de que o idoso é aquele que não produz, que dá trabalho. Mas jovem é aquele que tem sonhos, que sente a vida pulsar e que quer realizar, não aquele que é novo biologicamente.” 

 

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Apesar de falta de retornos, estudante mira em estágio

A vantagem da experiência apontada pelos especialistas para pessoas acima dos 30 anos que buscam estágio não é uma realidade para o técnico gráfico Fábio Vinícius Macedo, de 37 anos. Ele está cursando direito, mas não consegue um estágio.

“Fiz várias entrevistas até agora e nada. Alguns deram esperança, mas não deram nenhum retorno depois. Vejo um pouco de dúvida nos patrões por estar contratando um estagiário que tem a mesma idade ou até mais que seus advogados”, avalia. Apesar da dificuldade, Macedo garante que não vai desistir. “Antes de mais nada, o estágio é uma oportunidade importante para o estudante vivenciar a profissão. Além disso, preciso conseguir alguma oportunidade para cumprir minhas horas de atividades extracurriculares, que são uma exigência do curso.”

 

‘Adultos’ voltam aos bancos escolares

O interesse de pessoas acima dos 30 anos pelo ensino superior tem crescido no Estado de São Paulo. De acordo com o Censo da Educação Superior, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 2014, último ano divulgado, o número de alunos com 30 anos ou mais matriculados em cursos de ensino superior no Estado de São Paulo cresceu 9,31% na comparação com 2013.

Na divisão por faixas etárias, com exceção da que leva em conta pessoas com mais de 80 anos, todas a partir dos 30 anos tiveram crescimento no número de matrículas. O destaque ficou para a alta de 16,21% no grupo de 65 anos ou mais. Em 2013, foram 1.178 matriculados nesta faixa etária, enquanto em 2014 foram 1.369.

Para o gerente regional do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) em Rio Preto, Ney Godoi, esse crescimento no número de alunos e estagiários acima dos 30 anos demonstra que as pessoas estão mais preocupadas em investir em sua formação. “Normalmente, são pessoas que trabalhavam em outras áreas, mas estavam insatisfeitas com o rumo de suas profissões. Há um público crescente em busca de uma reciclagem profissional.”

Segundo Godoi, os cursos de administração, informática, pedagogia e direito são os que mais atraem esse público.

E para se preparar para o mercado de trabalho, nada melhor que um estágio na nova área. “A vivência prática é tão importante quanto a teoria. No dia a dia, há coisas que só se aprendem trabalhando na área”, afirma Ana Carolina Verdi Braga, diretora da Cegente Educação Coorporativa.

No entanto, é preciso se atentar para alguns pontos na hora de buscar uma vaga. Para começar, o candidato deve ter consciência de que ele está entrando em uma empresa e em um posto de trabalho que marcam o início de uma profissão, diz Ana Carolina. “Esta pessoa, nos seus 30, 40 anos, por exemplo, não está no começo, mas naquela empresa e naquele cargo ela está. Por isso, ela deve respeitar seus superiores, que, na maioria das vezes, podem ser até mais novos.”

Outra dica é ter humildade, mas saber demonstrar seus conhecimentos. “Estagiários mais velhos são pessoas que já tiveram uma vivência prática, mesmo que em outra área. Suas experiências podem ser um diferencial, ajudá-lo a se sobressair”, aconselha a especialista.

Por isso, é muito importante que o estagiário saiba trabalhar a parte comportamental, que é a maior preocupação da empresa que vai contratar, diz Ana Carolina. “Como ele já tem a vantagem da experiência de vida, ele precisa demonstrar que sabe conviver com os outros funcionários e chefes. Mostre que você sabe trabalhar em grupo, deixe isso bem claro já na entrevista.”

Mas mesmo com essas questões, Godoi garante que candidatos a vagas de estágio acima dos 30 anos possuem vantagem na hora da contratação. “Evidentemente que algumas empresas optam por pessoas mais jovens, mas a maioria prefere aquelas que estão mais bem preparadas e essa experiência de vida ajuda tanto na contratação para a vaga temporária quanto na efetivação após a conclusão do curso. Além disso, a pessoa está chegando fresca nesta nova área, sem nenhum vício, o que é mais um fator positivo.” 

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