Diário da Região

20/01/2010 - 00h08min

Novo Silva?

Rio-pretense Rodrigo Silva é promessa da arte naïf

Novo Silva?

Eduardo Secco/Arquivo Rodrigo Silva, que começa a despontar no cenário da arte naïf, e no detalhe José Antonio da Silva, um dos maiores pintores primitivos
Rodrigo Silva, que começa a despontar no cenário da arte naïf, e no detalhe José Antonio da Silva, um dos maiores pintores primitivos

Com sobrenome e uma história de vida similar a do artista naïf José Antonio da Silva, Rodrigo Silva é uma revelação no cenário das artes plásticas rio-pretense. De origem humilde, de pouco estudo e domínio da linguagem culta, Rodrigo demonstra ao mesmo tempo facilidade de articular ideias e pensamentos por meio dos pincéis. Auxiliar de serviços gerais do Senac em Rio Preto, divide seu tempo no trabalho com a pintura, expressa em cores vibrantes, de um colorido quase circense, que dão o tom à sua obra.


Autodidata, este rio-pretense de 31 anos pinta com delicadeza o cotidiano, manifestações folclóricas, ambientes rurais e o simbolismo religioso. Sua primeira obra, aos setes anos, foi a “Santa Ceia”, reprodução do quadro Leonardo Da Vinci, em cartolina e tinta guache. Mas sua estreia aconteceria apenas 13 anos depois, quando ainda sabia pouco sobre o estilo naïf (arte primitiva moderna produzida por artistas sem preparação acadêmica). O jovem, de 20 anos, morador de uma casa simples no bairro Maceno, estava ilhado no estilo moderno e contemporâneo. Sentia que faltava-lhe algo. “Era uma pintura indefinida. Experimentava vários sabores e estilos”, afirma.


Em 2007, incentivado por grandes nomes do cenário primitivista rio-pretense, como Daniel Firmino, Edgard Di Oliveira e Orlando Fuzzineli, Rodrigo conheceu o que era ensinado pelo ícone do naïf em Rio Preto, José Antônio da Silva. Assim, deixou de lado o estilo moderno e começou a delinear os elementos que marcariam sua produção atual, e desde então se mantém fiel ao desenho “infantil”, a retratração simples e as cores fortes e primárias que não se misturam na tela. Sua arte se manifesta por meio de figuras “rechonchudas”, algo que pode ser notado em uma exposição sua, chamada “Sem Preconceitos”, ano passado, no Museu de Arte Naïf de Rio Preto.


Na lançamento da mostra, o artista plástico Jocelino Soares disse que o público que fosse visitar a exposição ia se surpreender pela qualidade das obras. “Rodrigo Silva, conhecido por figuras rechonchudas, é uma das maiores revelações do cenário das artes plásticas rio-pretense. Suas obras têm um colorido intenso e detalhes magníficos, como os de grandes artistas naïfs”, chegou a declarar. Hoje, o artista plástico Orlando Fuzinelli toma como sua a opinião de Jocelino. “Rodrigo Silva figura um primitivista clássico. Segue o princípio básico de José Antonio da Silva, que é a simplicidade, humildade e criatividade apurada, com o tema voltado para questões nostálgicas do campo e sem repetições”.


Para Daniel Firmino, Rodrigo retrata a religiosidade, manifestações populares e o povo brasileiro, inspirado em sua vivência e na urbanidade rio-pretense. “É um artista ora interessado na cultura, ora interessado no cotidiano urbano, apresentando uma paisagem onde inclui cores, ritmos, luz e movimento.” Na opinião de Firmino, por ter uma linguagem própria, por meio da qual procura expressar seu universo e suas experiências de vida, Rodrigo Silva tem grande chance de ser selecionado na Bienal 2010 “Naïfs do Brasil”, que acontece em Piracicaba. “As obras do Rodrigo se enquadram na categoria de arte ingênua, espontânea e instintiva, marca do primitivismo clássico, muito semelhante a do Silva”, diz.


Outra semelhança entre o “mestre” e o “aprendiz” é a falta de modéstia. Enquanto artista, José Antonio da Silva (que chegou a trabalhar como faxineiro da Prefeitura) não admitia que o chamassem de caipira, ingênuo, primitivo, mas sim de gênio, pois não tinha complexo de inferioridade. Rodrigo defende que a sua arte já era de qualidade desde quando iniciou. “Como eu consegui pintar uma Santa Ceia como apenas sete anos? É dom de Deus mesmo. Também pintava mulheres épicas e casarões medievais”, diz ele.


No entanto, quando perguntado sobre a semelhança com Silva, Rodrigo (que já teve suas obras expostas na Biblioteca Municipal, nos Correios, Automóvel Clube, Riopreto Shopping, Swift e Sesi) fica sem graça, mas admite que Silva é referência e fonte de inspiração. “Silva ganhou um lugar de destaque no cenário da arte naïf brasileira e mundial pela releitura de paisagens urbanas, novas perspectivas e peças controvertidas. É um incentivo para que meu trabalho chegue próxmio da perfeição do nosso grande mestre.”


O artista, como Silva, mantém uma opinião bastante estruturada do que quer para seu futuro. “Quero pintar cada vez mais telas, sair do Brasil e fazer sucesso lá fora, como Silva fez. Nasci pintor e fazer obras é meu remédio diário. Eu transcendo, é algo divino, é a encarnação de Deus. Só é uma pena a falta de incentivo.”


Artistas humildes e muito talentosos


A origem humilde de certos artistas naïf se traduz em suas profissões também. Além de José Antonio da Silva (que foi faxineiro) e Rodrigo Silva (que é auxiliar de serviços gerais), outros dois exemplos em Rio Preto são Deraldo Clemente e Olinda Cândida da Silva. Deraldo, envolvido com a arte primitiva há 40 anos, é sorveteiro; Olinda, descoberta há oito, trabalha com reciclagem de lixo.


Deraldo é conhecido pelo pontilhismo. Começou a desenvolver a arte ainda criança, durante o período que morou na casa de assistência Alarme. Sua grande incentivadora foi Dinorath do Valle. Até 1994, pintava muito em primeiro plano, sem perspectiva, com dois ou três personagens apenas. Depois foi se aprimorando, mas seguindo as técnicas que aprendera com José Antonio da Silva. “O olhar sobre minha obra ora é de estranheza, ora de encantamento. E isso é extremamente prazeroso.”


Já a obra de Olinda é marcada pelo traço rústico. A artista foi descoberta pintando em telha e pedaço de pau em cores neutras, chapadas e simples. Nada que tire o crédito da obra. Os temas de suas pinturas têm referência no passado e presente humildes, dos tempos em que viveu no campo, até chegar a Rio Preto e ir morar no Solo Sagrado. Na cidade, foi jardineira, faxineira e vendedora. Segundo o artista plástico Daniel Firmino, o trabalho de Olinda é de um “primitivismo legítimo”.

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