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Diário da Região

14/02/2016 - 00h00min

Izaltino Gonçalves

Ninguém mata o soberano

Izaltino Gonçalves

Sergio Isso Seu Izaltino, 87 anos, cravou seu nome na história da cultura da música popular brasileira com a canção do boi-herói. E quase que o Soberano foi batizado de Cigano
Seu Izaltino, 87 anos, cravou seu nome na história da cultura da música popular brasileira com a canção do boi-herói. E quase que o Soberano foi batizado de Cigano

Curioso de coração. É assim que intitula-se Izaltino Gonçalves de Paula, de nome artístico Izaltino Gonçalves, poeta e compositor, autor da letra de uma das modas de viola mais regravadas e cantadas de todos os tempos, Boi Soberano. Prestes a completar 87 anos, seu Izaltino recebeu a equipe do Diário em sua casa, em Tanabi, ao lado da mulher, Laurinda, 77, para uma ‘prosa’.

Nascido em Rio Preto, o homem que se expressa em versos e rimas nunca frequentou escola. Aprendeu sozinho, desde os 6 anos, a juntar letras e a compreendê-las. Diz que deve isso à boa memória. As irmãs o ensinavam as letras e, a partir daí, matutava até formar as palavras. A primeira que conseguiu ler foi ‘maio’, de um calendário. Antes disso, com 5 anos, acompanhou o pai e os irmãos na roça para a colheita de algodão. 

Foram meses longe da mãe e das irmãs. “Eu não apanhava nada, aí meu pai falava: você fica olhando o caldeirão de feijão cozinhando”, recorda. Uma noite, chorou baixinho. Era saudade da mãe. Ao pai, falou que tinha dor de cabeça, e ganhou um comprimido. “Não sabia que comprimido matava a saudade”, diz, em tom de brincadeira. No ano seguinte, 1936, a família mudaria para a área rural de Tanabi. Eram em 12 irmãos, quatro homens. Trabalhavam na roça e faziam serviço de carpinteiro, construindo casas, porteiras, carroças, carros de boi. Izaltino ainda tocava violão: 

“Não tinha televisão, não tinha rádio, não tinha vitrola, não tinha nada, tocava um violãozinho e cantava uns versos pra juntar a rapaziada.” A primeira música, compôs aos 22 anos, Penacho, gravada por Tonico e Tinoco. Boi Soberano viria três anos depois, em 1954. Seu Izaltino lembra que, quando decidiu fazer uma moda de boi, começou a pensar em um nome com a inicial consoante. Antes de chegar a Soberano, cogitou batizá-lo de Cigano, Minuano e Tucano. A história do boi-herói que salva o menino quando a boiada estoura em Barretos é pura ficção, ele atesta. 

“Não é real, nenhum compositor gosta de escrever coisas reais. É igual contar piada que todo mundo conhece. Quem vai comprar o disco por causa daquilo? Eu criei a história.” Ao ouvir Izaltino contar suas histórias, a impressão é que o entusiasmo da juventude continua vivo. Ele lembra da época em que se interessou pelo ofício de relojoeiro, profissão que o acompanhou por mais de quatro décadas. Ainda morava no campo, e vendeu o cavalo para fazer um curso à distância. 

Conquistou clientela e, um ano depois do casamento, foi morar na cidade, no início da década de 1960. “Feliz daquele que veio ao mundo para não fazer nada, a gente parece que veio com uma predestinação”, reflete. Izaltino calcula que compôs ‘beirando 30 músicas’. Nunca parou de escrever. “Sempre uma pessoa me pergunta, o senhor ainda escreve alguma coisa? Eu falo: ladrão pode virar milionário, ele não para de roubar, porque está no sangue. Assim é quem escreve essas coisas. 

Não tem como parar, vem aquela motivação... E eu não escrevo repetindo assunto dos outros, nem frase. Pego amor, flor, que são inevitáveis.” Boi Soberano foi gravada inicialmente por Zé Carreiro e Carreirinho. Depois, por Pedro Bento e Zé da Estrada, Tião Carreiro e Pardinho e outras duplas. Chora, Morena, Chora, gravada por Vieira e Vieirinha, e Pequeno não é Pedaço, por Cacique e Pajé, Liu e Léo, também são de sua autoria. A vida de Izaltino é marcada por uma tragédia, da qual ele fala durante a conversa. 

Com carreira promissora, o filho Sérgio, que fazia dupla com Aldemir, foi assassinado, aos 28 anos. Hoje, estaria com 52. Como o pai, tocava violão. Além de Sérgio, as filhas Eurides e Angela, e três netas, são fruto da união com Laurinda. No terreno da casa onde mora, Izaltino construiu um cômodo onde guarda suas ferramentas e amola alicates. Tem um Fusca, que costuma dirigir. Ainda gosta de pescar e de ir ao sítio. O curioso poeta não para. E antes de a equipe partir, fez questão de colocar alguns CDs com suas modas para tocar.

 

 

Boi Soberano

(Izaltino Gonçalves, Carreirinho, Pedro Lopes de Oliveira)

Me alembro e tenho saudade,
Do tempo que vai ficando,
Do tempo de boiadeiro,
Que eu vivia viajando.
Eu nunca tinha tristeza
Vivia sempre cantando,
Mês e mês cortando estrada
No meu cavalo ruano.

Sempre lidando com gado,
Desde a idade de 15 ano,
Não me esqueço de um transporte,
Seiscentos bois cuiabano,
No meio tinha um boi preto
Por nome de Soberano.

Na hora da despedida
O fazendeiro foi falando:
- Cuidado com esse boi
Que nas guampa é leviano!
Este boi é criminoso,
Já me fez diversos dano!
Toquemo pelas estrada
Naquilo sempre pensano.

Na cidade de Barretos,
Na hora que eu fui chegando,
A boiada estourou, ai!
Só via gente gritando!
Foi mesmo uma tirania
Na frente ia o Soberano!

O comerço da cidade,
As porta foram fechando,
E na rua tinha um menino,
Decerto estava brincando.
Quando ele viu que morria
De susto foi desmaiando
Coitadinho debruçô
Na frente do Soberano.

O Soberano parô, ai!
Em cima ficô bufando,
Rebatendo com o chifre,
Os bois que vinha passando!
Naquilo o pai da criança
De longe vinha gritando:

- Se esse boi matá meu filho,
Eu mato quem vai tocando,
E quando viu seu filho vivo
E o boi por ele velando.
Caiu de joelho por terra
E para Deus foi implorando:
Sarvai, meu anjo-da-guarda,
Deste momento tirano!

Quando passô a boiada,
O boi foi se arretirando,
Veio o pai dessa criança,
Me comprô o Soberano.
- Esse boi sarvô meu filho
Ninguém mata o Soberano!

 

 

Análise

Cronista da sensibilidade agropastoril

Romildo Sant’Anna

Seu Izaltino qualifica-se acertadamente como um trovador ou autor de trovas - poesia da Idade Média, com versos de oito sílabas, sentido completo e acompanhada de música. É com essa régua e compasso que concebeu a letra de Boi Soberano, uma das canções caipiras mais conhecidas e, ouso dizer, um patrimônio da Música Popular Brasileira. Como os trovadores populares das várias partes do Brasil, é também autodidata, semialfabetizado e que aprendeu a técnica da versificação pela experiência auditiva e segredos estéticos da literatura oral.

Mas quem pensa que Izaltino Gonçalves de Paula é um ‘gênio leigo’, engana-se. Disse-me que sabe de cor poemas dos ‘cobrões do passado’ como Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela, Bocage, Álvares de Azevedo, Gregório de Matos e Casimiro de Abreu. Conhece esses poetas não de lê-los, mas dos sarais de declamações de poesia comuns no ambiente familiar e encontros de vizinhos para a entreajuda no ambiente rural.

Boi Soberano é uma típica canção de epílogo: o poeta guarda para o desfecho a revelação mais empolgante da história que conta. Para meu livro A Moda é Viola, contou-me alguns de seus segredos: “A boa música tem que ter suspense. A gente começa uma moda e as pessoas aguardam um final. Então eu mudo o final. Se o boi Soberano tivesse matado o menino, não teria novidade nenhuma, era o esperado. Mas o boi salvou o menino, esse é o suspense, a novidade. É difícil achar um bom tema e o mais difícil ainda é saber contá-lo”.

Seu Izaltino possui cadernos cheios das poesias. Mas, se tivesse escrito apenas Boi Soberano, já teria currículo de poeta. Seu poema identifica-se tanto com nossos valores que mereceu continuações: Retrato do Boi Soberano, de Pirassununga e João Caboclo, e O Chifre do Boi Soberano, de Cacique, Geraldo Sampaio e José Rosa. Como poucos, é um cronista da sensibilidade agropastoril que alicerça nossa cultura, um historiógrafo das coisas que profundamente nos emocionam.

  • Romildo Sant’Anna é curador do Museu de Arte Primitivista (MAP) José Antonio da Silva é autor do livro A Moda é Viola - Ensaio do Cantar Caipira

 

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