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Diário da Região

24/05/2015 - 00h00min

Literatura

Laurentino Gomes investiga a escravidão

Literatura

Divulgação Laurentino Gomes tem um objetivo de tornar mais acessível a história do Brasil. Fez isso em sua primeira trilogia. E pretende continuar agora levantando uma reflexão sobre a escravidão no País. Lançamento está previsto só para 2019
Laurentino Gomes tem um objetivo de tornar mais acessível a história do Brasil. Fez isso em sua primeira trilogia. E pretende continuar agora levantando uma reflexão sobre a escravidão no País. Lançamento está previsto só para 2019

Laurentino Gomes acaba de anunciar um novo projeto: uma série de três livros sobre a história da escravidão no Brasil, com previsão de lançamento a partir de 2019. Para o jornalista e escritor paranaense, 127 anos depois da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, esse é um passivo histórico que os brasileiros não conseguiram resolver. 

"Meu objetivo com essa nova trilogia é menos abrir novas frentes de pesquisas e mais tornar esse assunto mais popular e acessível a leitores que nunca se interessaram muito por ele." O autor da trilogia "1808", sobre a fuga da corte de Dom João para o Rio de Janeiro; "1822", sobre a Independência do Brasil, e "1889", sobre a Proclamação da República no Brasil, concedeu entrevista ao Diário, diretamente de Portugal, onde lançava a edição de seu livro mais recente.

Por que a história da escravidão no Brasil precisa ser passada a limpo?

Esse, infelizmente, é um tema ainda muito mal tratado na historiografia brasileira, repleto de preconceitos e distorções. Acredito que seja o tema mais importante de toda a História do Brasil. Tudo o que nós já fomos, somos hoje e seremos no futuro gira em torno das nossas raízes africanas e do uso da mão de obra cativa. Sem a escravidão, o Brasil de hoje simplesmente não existiria. 

Foi a maneira encontrada por Portugal para ocupar e explorar uma colônia 91 vezes maior, em extensão geográfica, do que a pequenina metrópole. As consequências são profundas. Joaquim Nabuco dizia que não bastava abolir a escravidão, era preciso também educar, dar terras e oportunidades para os ex-escravos, de modo a incorporá-los na sociedade brasileira como cidadãos de plenos direitos. 

Isso jamais aconteceu. Basta ver as estatísticas atuais sobre as diferenças de tratamento e oportunidade entre negros e brancos em todos os níveis e aspectos da sociedade brasileira, e também a polêmica que envolve políticas públicas como as cotas para estudantes negros nas escolas e universidades. A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje, porque nos recusamos a estudá-lo e encará-lo mais a fundo.

A história da escravidão geralmente é contada do ponto de vista da classe dominante branca, tirando o protagonismo do povo negro. Pode comentar a respeito? 

Sim, a história é geralmente muito mal contada, quase sempre pela perspectiva dos brancos. Há muita caricatura e preconceito na forma como a nossa herança africana é tratada nos livros, no cinema, nas novelas e minisséries de TV, na música e outras obras culturais. Mas essa é também uma história pouco contada. 

O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu entre 40% e 45% de todos os 12 milhões de escravos que, segundo as melhores estimativas, foram trazidos para a América nos primeiros 350 anos da colonização. Apesar disso, a produção cultural brasileira relacionada à escravidão é ainda relativamente modesta quando comparada, por exemplo, com a dos Estados Unidos. 

O número de filmes, minisséries, documentários e obras literárias sobre a escravidão no mercado norte-americano é enorme, embora os Estados Unidos tenham recebido somente 7% dos cativos africanos. É hora de tentar corrigir essa desproporção. Há uma produção acadêmica razoável no Brasil sobre o tema, e também cultural - como o celebrado filme "Chica da Silva", com Zezé Mota, mas ainda há muito o que fazer. 

O que foi crucial para a escolha do tema?

Essa é uma ideia que foi crescendo ao longo da trilogia "1808", "1822" e "1889". Nos três livros eu tratei bastante da escravidão. Quando a corte de Dom João chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, de cada três brasileiros um era escravo. O tráfico negreiro era na época o maior negócio do Brasil e, talvez, até de Portugal, mobilizando milhares de pessoas e centenas de navios nas costas nos dois lados do Oceano Atlântico. 

Os homens mais ricos do Rio de Janeiro eram todos traficantes de escravos e foram os que mais deram contribuições à corte portuguesa, tanto com dinheiro quanto com apoio político. Na Independência, o Brasil rompeu os vínculos com Portugal, mas manteve inalterada a situação social até então vigente. Uma tentativa de José Bonifácio de Andrada e Silva de acabar com o tráfico negreiro foi um dos motivos para o fechamento da Constituinte em 1823. 

Há uma sensação de orfandade da Independência brasileira, porque os escravos viram que as ideias libertárias defendidas pelos brancos na época não os incluíam. O Brasil foi o último pais do hemisfério ocidental a acabar com o tráfico, em 1850, e também o último a abolir a escravidão, em 1888. A principal consequência foi a queda da monarquia e a Proclamação da República no ano seguinte. Tudo isso foi me convencendo de que era preciso escrever uma nova trilogia. 

Por que é tão difícil para a sociedade brasileira se tornar igualitária?

Acredito que a escravidão é um passivo que o Brasil não conseguiu até hoje corrigir. A escravidão foi oficialmente abolida pela Lei Áurea em 13 de maio de 1888, mas os ex-cativos acabaram abandonados à própria sorte. O Brasil nada fez para promovê-los à condição de cidadãos. O resultado é uma tragédia humana e social de dimensões gigantescas. 

O cinturão de pobreza e de violência que hoje se observa na periferia das metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, é ainda herança do nosso passado escravocrata. Uma sociedade nacional é um pacto que se projeta no futuro. Se uma geração não faz o que deve ser feito, as gerações seguintes terão de assumir a tarefa de corrigir os problemas.

Portanto, mesmo hoje, mais de um século após a Lei Áurea, está em nossas mãos enfrentar a tarefa de corrigir esse passivo. A política das cotas raciais pode ser polêmica e até injusta em muitos aspectos, mas é talvez a primeira tentativa séria e concreta que o Brasil faz para enfrentar essa herança mal resolvida. 

Além disso, temos um problema de terminologia ao tratar da escravidão e de sua herança. Alguns preferem a palavra negro, outros preto, afrodescendente e assim por diante. Tenho certa aversão aos modismos politicamente corretos que tentam resolver passivos históricos por meio da semântica e do vocabulário em lugar de políticas públicas concretas. 

O que adianta ser bacaninha no vocabulário e chamar os negros de afrodescendentes se, na prática, eles continuam a ser discriminados e violentados todos os dias? Eu uso nos meus textos a expressão negros que, acredito, seja de aceitação mais geral, mas realmente não me preocupo muito com terminologias, desde que elas tenham significado real para os meus leitores. Acho que isso também pode nos ajudar a lidar com esse passivo histórico.

 

 


 

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