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Diário da Região

24/02/2016 - 08h00min

Caio Fernando Abreu

Estudos ampliam olhar sobre obra do autor gaúcho

Caio Fernando Abreu

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Contista, romancista, dramaturgo e jornalista, o gaúcho Caio Fernando Abreu morreu no dia 25 de fevereiro de 1996, dois anos depois de descobrir que havia sido infectado com o vírus HIV. Vinte anos se passaram e sua obra é objeto de dezenas de estudos acadêmicos, dentro e fora do País, o que reforça a importância de seus textos no panorama da literatura contemporânea brasileira. A diversidade de leituras sobre a obra de Abreu feitas por dissertações de mestrado e teses de doutorado evidencia o rigor estético e a intertextualidade presentes em sua literatura - um universo em que ficção e realidade são separados por uma linha muito tênue.

“Os primeiros estudos sobre a obra de Caio Fernando (Abreu) tinham enfoque na homossexualidade e no erotismo presentes em seus textos. Em meados dos anos 2000, houve um crescimento expressivo no número de pesquisas com enfoque em outras questões. Ou seja, a obra desse escritor é múltipla, permitindo uma série de leituras”, comenta a tradutora e intérprete Lara Souto Santana, de São Paulo, que pesquisa a obra do escritor gaúcho há 10 anos. Ela participou da edição de A Vida Gritando nos Cantos, coletânea de crônicas publicadas no jornal O Estado de S.Paulo entre 1986 e 1996.

Abreu retratava em seus contos, crônicas, romances e peças, grande parte de natureza autobiográfica, a solidão do homem em um cenário urbano, envolvido por questões como a sexualidade e o sexo, a violência, as drogas, a marginalidade, a morte e o amor. Para Lara, Abreu escreveu sobre a dor humana, e isso é algo atemporal. “A obra dele faz referência ao seu tempo. No entanto, esses elementos estão inseridos em um cenário muito maior, que é a alma humana”, opina a pesquisadora.

Linguagens convergentes

Para Wanderlan da Silva Alves, professor da Universidade Estadual da Paraíba, Abreu foi um dos primeiros escritores brasileiros a lidar abertamente com temas tabus como o erotismo e a Aids, o que dá para sua obra um caráter de coragem e de inovação. “Sua obra foi lida por uma geração inteira, que viu suas angústias e seus desejos retratados em seus textos. Apenas o interesse deste jornal em fazer uma reportagem sobre o assunto demonstra que a literatura de Caio Fernando Abreu ainda está viva”, destaca Alves, que pesquisou o escritor gaúcho em sua dissertação de mestrado, defendida na Unesp de Rio Preto.

Em sua pesquisa, Alves demonstrou a convergência de linguagens presente na escrita de Abreu, como o cinema, a música e o texto jornalístico. “No romance Onde Andará Dulce Veiga?, que foi meu objeto de estudo, há capítulos inteiros escritos como se fossem uma reportagem de jornal, assim como narrativas cinematográficas, que fazem o leitor vislumbrar a situação descrita como se ela estivesse sendo filmada por uma câmera de vídeo.”

Já a tradutora paulistana pesquisou a música presente na obra do escritor gaúcho. Em muitos de seus contos, Abreu começava indicando uma música para ser ouvida durante a leitura daquele texto. “É como se fosse uma trilha sonora. O escritor vai engendrando a narrativa no ritmo da canção”, sinaliza Lara, que mantém o blog Letras Partilhadas (www.letraspartilhadas.com.br), no qual há uma seção inteira dedicada ao escritor gaúcho.

Limiares autobiográficos

O caráter autobiográfico da obra de Caio Fernando Abreu também foi alvo de estudos de egressos da Unesp de Rio Preto. Professora da Unioeste, em Marechal Cândido Rondon (PR), Ellen da Silva Dias buscou trabalhar em sua dissertação de mestrado e sua tese de doutorado outras perspectivas sobre os textos do escritor gaúcho para além da discussão em torno de questões como orientação sexual e identidade de gênero. “Explorei a questão poética, assunto da teoria literária, buscando identificar características que fazem sua obra ser o que ela é. 

Pesquisei a evolução de temas, narrativas e personagens recorrentes ao longo de sua carreira literária”, explica. Para Ellen, Abreu foi o maior personagem de suas histórias. E essa persona de escritor foi construída ao longo de sua obra, seja pela apropriação de outros escritores que ele admirava ou pela utilização de relatos autobiográficos como elementos de sua escrita, o que é mais evidente em suas crônicas e cartas. Por outro lado, ela mesma relativiza a classificação de cartas e crônicas como um registro biográfico. “Elas não deixam de ser ficção, pois são uma representação desse eu por meio da escrita.”

 

Caio Fernando Abreu - 24022016 Portador do vírus HIV, Caio morreu em 1996

Metáforas da morte

Em seus estudos sobre as narrativas autobiográficas de Abreu, o professor André Luís Gomes utilizou como recorte as representações da morte presentes na obra do escritor gaúcho. “Tratei não apenas da morte propriamente dita, mas das metáforas da morte que emergem das imagens construídas pelo escritor. Na obra de Caio Fernando, morte e vida são faces da mesma moeda. Ele demonstra que é preciso saber viver a vida assim como é fundamental saber morrer a morte”, destaca Gomes.

Na fase que antecede a infecção pelo vírus da Aids, a morte é retratada pelo escritor em situações de violência e violação de direitos, enquanto que os textos posteriores a essa época falam da convivência com o HIV. “É um período menos melancólico e mais positivo de sua escrita.” Para Gomes, o que mais o impressiona na obra de Caio Abreu é a verdade contemporânea que ela carrega. “Ele é o escritor que ajudou a definir a literatura dos anos 1980”, enfatiza. 

Para ler

Contos

O Ovo Apunhalado (1975)

“O que me inquieta e fascina nos contos de Caio Fernando Abreu é essa loucura lúcida, essa magia de encantador de serpentes que, despojado e limpo, vai tocando flauta e as pessoas vão se aproximando de todo aquele ritual aparentemente simples, mas terrível porque revelador de um denso mundo de sofrimento.” É o que escreveu Lygia Fagundes Telles no prefácio desse livro, lançado após sofrer cortes da censura militar

Morangos Mofados (1982)

Quarto livro de contos do escritor gaúcho, Morangos Mofados é considerado pela crítica a obra-prima de Caio Fernando Abreu. Organizados em duas partes (O Mofo e Os Morangos), os contos dessa obra traduzem o ideário da vivência dos anos 1980

Ovelhas Negras (1995)

Uma coletânea de textos escritos entre 1962 e 1995 e que acabaram ficando de fora dos livros lançados anteriormente. Alguns contos foram proibidos pela censura militar e outros pelo próprio autor, que os considerava obscenos, cruéis e herméticos. Assim como o nome do livro sugere, são textos marginais, bastardos, deserdados

Crônicas

A Vida Gritando nos Cantos (2012)

Reúne crônicas publicadas por Caio Fernando Abreu no Estadão, entre 1986 e 1996. Estão presentes os três contos da série Cartas Para Fora do Muro, em que o escritor assume sua condição de soropositivo e compartilha com os leitores seu processo de aceitação da Aids

Romance

Limite Branco (1970)

Primeiro romance de Caio Fernando Abreu, sendo escrito em 1967 e publicado em 1970. Ele tinha 19 anos quando escreveu esse livro. Apresenta a história de Maurício, um adolescente gaúcho que vive uma ambiguidade sexual e tem medo de se tornar adulto. Personagem é uma espécie de alter ego do autor

Onde Andará Dulce Veiga? (1990)

Segundo romance de Caio Fernando Abreu, está entre as obras mais estudadas do escritor gaúcho. A história passa na década de 1980, com um jornalista tentando descobrir o paradeiro de uma cantora sumida desde a década de 1960. É também autobiográfica, com o autor projetando-se na figura do jornalista

Biografia

Para Sempre Teu, Caio F. (2014)

Escrito por Paula Dip, que conviveu durante 20 anos com o escritor, o livro reúne cartas, bilhetes e particularidades compartilhadas por ela com Caio Fernando Abreu. Traz ainda depoimentos de pessoas importantes na vida
do escritor, como Cazuza e Ney Matogrosso. Foi adaptado para o cinema em 2015, pelo diretor Candé Sales

 

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