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Diário da Região

24/11/2015 - 00h00min

LITERATURA AFRICANA

Escritor Mia Couto faz palestra no Sesc Rio Preto

LITERATURA AFRICANA

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No Brasil para o lançamento de “Mulheres de Cinza” (Companhia das Letras), o primeiro livro da trilogia “As Areias do Imperador” - dedicada aos últimos dias do Estado de Gaza em Moçambique -, o escritor africano Mia Couto estará nesta terça-feira, 24, em Rio Preto, onde promove palestra no ginásio de esportes do Sesc. O evento marca o encerramento do projeto Histórias e Letrinhas, uma parceria entre o Sesc e a Secretaria Municipal de Educação que colaborou no aperfeiçoamento de 100 professores da rede pública. Realizado há cinco anos, o projeto foi dedicado em 2015 à literatura africana infanto-juvenil de língua portuguesa.

Expoente da literatura africana, Couto teve duas de suas obras trabalhadas nesta edição do projeto: “Beijo da Palavrinha” e “O Gato e o Escuro”. “A própria literatura africana trabalha com a oralidade, a figura do contador. Nada melhor que ter a presença de um grande contador de histórias como Mia Couto para encerrar os trabalhos deste ano”, destaca Ana Paula Dias, técnica de programação do Sesc.

Biólogo, jornalista e autor de mais de 30 livros, Couto detém uma escrita que valoriza a identidade africana pelo viés dos sonhos, do fantástico. Sua obra, marcada pelo resgate histórico, promove a valorização das crenças e da tradição dos povos africanos. “Terra Sonâmbula”, seu primeiro romance, figura entre os 10 melhores livros africanos do século 20. Entre os inúmeros prêmios literários, destacam-se o Camões de 2013, o mais importante da língua portuguesa; e o Neusdadt Prize de 2014, considerado o “Nobel norte-americano”.

Em entrevista ao Diário, Couto fala de sonhos, das influências da literatura brasileira e latina em sua escrita, da importância da oralidade aos africanos e de problemas da atualidade, como os movimentos de agressão que predominam na Europa.

 

Diário da Região - Do que são feitos os sonhos? Qual a importância dos sonhos na vida das pessoas?

Mia Couto - Eu vejo os sonhos como alguma coisa que é mais do que a forma convencional como nós abordamos, como se fosse uma espécie de um delírio, de uma linguagem que tem que ser decifrada. Acho que é uma outra forma de pensar. Eu sou muito ligado ao sonho como alguma coisa que me ensina, que me traz um modo mais livre de estabelecer relações entre as coisas. É quase que uma forma alternativa de pensamento.

 

Diário - Sobre sua relação com a literatura brasileira e latina, até que ponto escritores como Guimarães Rosa e Gabriel García Márquez influenciaram sua escrita?

Couto - Muitíssimo. Acho que sem eles terem feito aquele caminho anterior, nós - eu falo de mim e acho que posso falar em nome dos outros africanos - não nos tínhamos descoberto a nós próprios. Acho que houve ali uma sugestão de, primeiro, incorporar a realidade exatamente como eu falava dos sonhos, como uma parte que envolve sentimentos mágicos, o pensamento mágico. Isso como parte da nossa própria realidade em primeiro lugar. Depois também, do ponto de vista dos brasileiros, a maneira como se incorporavam os elementos africanos, daquilo que era uma identidade própria, uma identidade nacional. Tudo isso foi uma grande escola para nós.

 

Diário - Como é ser um escritor moçambicano num período em que o nacionalismo no mundo está em questionamento em consequência da globalização?

Couto - A escrita é uma maneira de afirmar as identidades num momento, como você diz, em que se apagam essas fronteiras entre elas. E que se apagam, sobretudo, por razões de mercado; nós deixamos de ter identidade para sermos simplesmente consumidores, para sermos parte de um mercado, para sermos recursos humanos, deixando de ser pessoas. Portanto, acho que a construção de identidades em si mesma não cria uma fronteira fechada; quanto mais identidades, melhor. É preciso haver uma grande diversidade de identidades. Nunca pensei que o nacionalismo fosse somente uma resposta a essa homogeneização que é criada pelo capitalismo neoliberal.

 

Diário - Como foi lidar com a quebra de expectativas das pessoas que imaginavam você um escritor negro, por ser moçambicano?

Couto - Agora, divirto-me com esse assunto. Há vários equívocos de raça, de sexo - às vezes, por causa do meu nome, pensam que sou uma mulher, pensam que sou uma mulher negra. Então, isso é divertido porque, no fundo, mesmo que saibam quem eu sou, que sou de raça branca, que sou do sexo masculino, não sabem grande coisa. É aí que está uma das funções da literatura, a de mostrar que, percebendo essas categorias, a gente pensa que já sabe de alguém (porque é brasileira, porque é moçambicano, porque é homem, porque é mulher, etc), mas não sabemos de absolutamente nada sobre o que é exatamente aquela pessoa, a pessoa verdadeiramente. Eu próprio não sei quem sou.

 

Diário - Sobre esses movimentos de agressão na Europa, como o recente caso de Paris, você acha que isso é produto do rancor do imperialismo europeu, sobretudo no século 19? Em que medida isso ainda ocorre em Moçambique?

Couto - Eu acho que são coisas distintas, mas as tensões que existem hoje não são tensões religiosas, são tensões, sobretudo, de ordem política. E não são tensões criadas por outros de fora apenas. É possível perceber que, no mundo islâmico, a dinâmica das tensões é justamente relacionada à modernidade que já ocorreu no mundo cristão. E nós sabemos e vemos os retratos disso; há quanto tempo se manifestam as reações de extrema violência entre diferentes grupos islâmicos? Há tensões que foram pioradas, que foram potencializadas por intervenção exterior, essa intervenção da ordem da arrogância, da ordem de quem pensa que pode policiar o mundo. Mas acho que é preciso, sobretudo, compreender essas dinâmicas, compreender que elas são complexas, que não podem ser simplificadas no retrato de um confronto isolado. É muito mais que isso.

 

Diário - O que o mundo tem a aprender com a experiência de Moçambique?

Couto - Eu acho que é preciso perceber que muito do que reagimos por via da violência é um grande medo, um medo do outro. E esse medo é criado, é manipulado. E a resposta é conhecer o outro; é fazer o esforço de escutar para além do estereótipo, para além da imagem feita desse outro. Em Moçambique, esse processo foi ocorrendo, pois percebemos a importância de nos sentarmos com os chamados “outros” dentro de Moçambique. E nós já pagamos o preço de um milhão de vidas por conta da guerra civil.

 

Diário - Aqui no Brasil, sempre presenciamos casos de preconceito racial nas redes sociais. Você acha que as redes sociais podem representar algum perigo na perpetuação de certos preconceitos por favorecer seus usuários com o anonimato?

Couto - Para dizer a verdade, não sou muito ligado às redes sociais. Eu já sou antigo. O Facebook, para mim, é um espaço de comunicação, sim, mas não quero viver lá mais do que o necessário. É só o tempo de encontrar um ou dois amigos. A gente não pode culpar apenas o Facebook, ele apenas vai potencializar alguma coisa que já existia antes. O mau caratismo já está instalado há muito tempo. A rede social apenas favorece alguma coisa que já estava lá. Não podemos culpar as tecnologias, porque o preconceito é fruto do humano.

 

Diário - Como a oralidade, muito presente na cultura africana, é tratada hoje pela educação?

Couto - A experiência que tivemos foi que, no princípio, confundimos oralidade com analfabetismo. Acreditávamos que a oralidade era simplesmente uma ausência de escrita, uma questão técnica, uma questão de exercício de um outro saber. E isso foi sendo corrigido, porque a força da oralidade em Moçambique é tão grande que é a cultura predominante no país. A cultura dominante em Moçambique é a cultura da oralidade. É importante esse convívio entre a cultura oral e a cultura escrita. São duas formas de saber e acabam por ser a mesma coisa. Ninguém no mundo, mesmo o país mais desenvolvido tecnologicamente, vive fora da oralidade. A oralidade não é território dos primitivos, não é território das crianças; a oralidade é uma parte da nossa própria humanidade. Essa dualidade, essas dicotomias que se criaram são muito artificiais.

 

Mia Couto - 24112015 Vencedor de alguns dos principais prêmios da literatura mundial, o escritor Mia Couto, de Moçambique, é autor de livros como “Terra Sonâmbula”. No Brasil, ele lança a obra “As Mulheres de Cinza”

 

Autor fecha projeto com chave de ouro

  • A presença de Mia Couto hoje em Rio Preto hoje marca o encerramento do projeto Histórias e Letrinhas, uma parceria entre o Sesc e a Secretaria Municipal de Educação que tratou do aperfeiçoamento de 100 professores da rede pública
  • Realizado há cinco anos, o projeto foi dedicado em 2015 à literatura africana infanto-juvenil de língua portuguesa
  • Expoente da literatura africana, Couto teve duas de suas obras trabalhadas nesta edição do projeto, “Beijo da Palavrinha” e “O Gato e o Escuro”

 

 

 

Serviço

  • Encontro com o escritor Mia Couto. Hoje, às 20h, no ginásio de esportes do Sesc Rio Preto. Gratuito

 

 

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