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Diário da Região

15/03/2015 - 18h24min

Entrevista

Cássio Scapin: 'Fiz terapia para me separar do Nino'

Entrevista

Lézio Júnior Ator Cássio Scapin
Ator Cássio Scapin

O ator Cássio Scapin povoa o imaginário infantil brasileiro desde 1994, ano em que Nino, seu personagem na série "Castelo Rá Tim Bum", surgiu na tela da TV Cultura. O sucesso do seriado - que rendeu 90 episódios, um especial e uma peça de teatro - garante reprises praticamente ininterruptas ao longo das duas últimas décadas, fazendo de Nino uma figura popular até mesmo entre as crianças das gerações mais recentes.


No entanto, há muitos outros personagens que povoam o universo dramático do ator paulista, e é principalmente no teatro que eles ganharam e ganham vida. Em Rio Preto, o ator já esteve com dois espetáculos de seu currículo, "O Despertar da Primavera" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", adaptação teatral da obra de Machado de Assis que lhe rendeu inúmeros elogios da crítica e diversos prêmios por sua atuação.


Em seu mais recente espetáculo, o monólogo "Eu Não Dava Praquilo", que estreou em 2013, Scapin encara o desafio de personificar uma das figuras mais importantes do teatro brasileiro, Myriam Muniz (1931-2004), uma das atrizes do Teatro de Arena, grupo que fez história entre os anos 1950 e 60 por meio de nomes como Sabato Magaldi e Augusto Boal.


Em entrevista ao Diário, viabilizada por sua produtora, Angela Dória, natural de Mirassol, Scapin refletiu sobre o impacto de Nino em sua carreira, além de não poupar crítica às atuais políticas públicas de cultura, em especial à Lei Rouanet, que, para ele, sacrifica o artista em detrimento dos profissionais técnicos.


"A Lei Rouanet passou a beneficiar todo o entorno da produção teatral em prejuízo à matéria-prima, que é o ator. O salário de um ator que é aprovado na Lei Rouanet, muitas vezes, é inferior ao de um técnico", dispara Scapin.


Diário da Região - Como que o teatro surgiu em sua vida? Como você descobriu que o teatro era sua vocação?


Cássio Scapin - Você sabe que eu não sei, menino (risos). É verdade. Eu acho que já nasci com isso. Desde criança eu tinha essa relação com o teatro, eu queria fazer teatro. Minha mãe trabalhou em uma rádio em Ribeirão Preto, chamada PRA7, onde se fazia novela de rádio, e eu sempre ouvi desde pequeno falar sobre teatro. Mas fui a um teatro de verdade um pouco mais tarde. Antes, eu intuía o que era teatro.


E acabei nunca mais saindo desse mundo. Tanto que comecei com aquela coisa de peças em escola e tal, o normal de toda criança. Porque, "antigamente", nas aulas de educação artística que existiam, era incentivado que as crianças tivessem contato com iniciação teatral, iniciação musical, essas coisas que hoje não tem mais, pois foi retirado do currículo. Diário - Então, você já sabia que queria ser ator quando chegou sua época de prestar vestibular?


Scapin - Antes da fase vestibular, eu cheguei a ir para a escola de teatro Célia Helena, que era diferente de como a escola é constituída hoje. Era uma escola pequena, destinada para adolescentes. Eu falo que sempre comecei muito bem no teatro, porque nunca teve esta puxada que tem hoje, em que tudo estimula para a questão comercial e para a questão profissional, mas como uma simples profissão e não como uma vocação.


Eu comecei no Célia Helena porque ela tratava do adolescente no teatro. A preocupação dela era fazer um adolescente melhor para ter um adulto melhor. Através do teatro, ela dava noções de ética, de filosofia, de cidadania, de várias coisas para o adolescente. Diário - Hoje você está nos palcos com a peça "Eu Não Dava Praquilo", em que reverencia a carreira de Myriam Muniz. Como foi que surgiu esse espetáculos em sua vida?


Scapin - Foi um susto. A Myriam sempre foi muito avessa à mídia. Ela não gostava de dar entrevista, ela ficava de saco cheio. Não tinha paciência. Diário - Ela não dava praquilo (risos).


Scapin - Sim (risos). Por conta disso, há muito pouco registro da Myriam. Uma amiga decidiu fazer um videodepoimento com ela. Um grupo de amigas, na verdade, e entre elas a Angela Dória, que é de Mirassol. Tinha a Sandra Mantovani, a Angela Dória, a Vânia Toledo, que é fotógrafa. Elas fizeram esse vídeo, caseiríssimo, em que a Myriam fica falando por umas quatro horas. Dessas quatro horas, foram editados uns 40 minutos.


Quando a Myriam morreu, esse grupo presenteou os amigos e conhecidos dela com esse DVD, que é muito emocionante de ver. É muito simples, muito singelo, mas ela diz coisas muito importantes. Existe um livro sobre a Myriam feito pela Maria Tereza Vargas, que é uma estudiosa de teatro, uma crítica, chamado "Giramundo - O Percursso de Uma Atriz", em que ela conta a relação da Myriam Muniz com o Teatro de Arena, de São Paulo.


O livro traz toda a trajetória da carreira da Myriam pelo Teatro de Arena. Eu fiquei apaixonado pelo vídeo e mostrei ele a um poeta paulista chamado Cássio Junqueira. Enquanto a gente assistia ao vídeo juntos, eu já sabia o que ela iria falar, porque já tinha visto o material. E ele me indagou o porquê de não fazer uma peça com aquilo. Eu disse que ele estava louco, mas ele insistiu para escrevermos algo juntos.


A gente se meteu a besta e escreveu, reunindo esse vídeo, informações reais do "Giramundo", biográficas, que não tem no vídeo, e coletamos alguns depoimentos do folclore da Myriam de São Paulo, que as pessoas sabiam dela, e outras coisas que a gente enxertou. Por exemplo, um dos "motorzinhos" do espetáculo é que a Myriam vai fazer uma peça em que ela vai contar a história da vida dela e ela vai dizer alguns poemas que ela nunca disse na vida, e acontece. Tem coisas que a Myriam nunca disse. Ela interpreta umas coisas que ela nunca interpretou. Como é que a Myriam diria esse texto se ela estivesse fazendo? Diário - Você e a Myriam Muniz eram amigos?


Scapin - Eu não tive uma relação muito próxima com a Myriam. Eu sou muito amigo da Angela Dória, que era amiga da Myriam, pessoal e profissional. Tive algumas oportunidades de jantar na casa da Myriam, de jantar com ela em algum restaurante. Não era grudado com a Myriam. Era uma proximidade cordial.


Eu gostava, admirava a Myriam, e quem não gostava dela, né? Mas não tive uma relação íntima com a Myriam. Tive uma relação de amigo, mas não íntimo. O que me moveu para fazer esse espetáculo é que muitas coisas do teatro que a Myriam acredita são coisas do teatro que eu acredito. A gente tem uma confluência de pensamento que ajuda muito o espetáculo nesse sentido. Nada do que é falado é desprovido de causa própria. Diário - "Eu Não Dava Praquilo" vem recebendo críticas bem positivas, algumas delas classificando o espetáculo como uma aula de teatro. Você sozinho em cena mostra quão o ator é essencial no teatro.


Scapin - Sem dúvida, não existe outra coisa. Você pode fazer teatro com qualquer coisa, mas sem ator não é teatro. Será uma instalação, será um espetáculo de performance, enfim, de artes plásticas. Mas, sem o ator, não existe. A essência do teatro é o ator. A gente brinca com essa história de "me dá uma cadeira e uma pessoa que eu te dou um espetáculo de teatro". É o que a gente faz literalmente nesta peça. O ato de uma pessoa contar uma história ao vivo é intransferível. Isso é teatro. O ator é fundamental ao teatro. Diário - É inevitável não falar sobre seu trabalho como Nino no "Castelo Rá Tim Bum". É verdade que você fez terapia para se desvencilhar do personagem?


Scapin - Quando falo que fiz terapia para me separar do Nino, não é porque ele me perturbava, mas porque ele me dava muitas coisas. Você se separar de uma coisa que te dá muitas coisas é muito difícil. É o contrário. Todo mundo falava que eu estava sendo perseguido pelo personagem. Não é isso. É muito difícil se livrar daquilo que está dando certo.


E eu não queria ficar lá quando estava dando certo. Eu era muito jovem, e eu saquei isso muito rapidamente. Isso pode ser uma cilada enquanto ator, enquanto artista. Se eu ficar preso aqui, com todo o dinheiro que está me dando, com todo o prestígio que está me dando, se eu não aproveitar isso e parar na hora certa, vai ser prejudicial. Diário - Por quanto tempo você esteve envolvido com o Nino?


Scapin - Nós gravamos o "Castelo Rá Tim Bum" durante um ano e meio apenas, mas, claro, ele continua reprisando. Depois teve o espetáculo de teatro, que ficou por mais cinco anos. Era para ficar mais cinco, mas uma hora eu falei: 'Obrigado! Não quero mais.'


Não é porque eu me vinculei demais ao personagem e isso foi um sofrimento. Não! As pessoas precisam de terapia para entender essa questão (risos). Porque as pessoas não entendem que o sucesso é bom, sim, mas tem uma hora que você precisa se livrar dele para que outras coisas venham para a sua vida. Diário - Antes de "Castelo Rá Tim Bum", você já havia feito algum trabalho voltado ao público infantil?


Scapin - Sim. Eu fiz um espetáculo que, inclusive, me levou embora do Brasil. Eu fui trabalhar na Itália. Ele se chamava "Pinochio", que era um espetáculo em cima do texto do Carlo Collodi, que é o original, com uma companhia italiana que trabalhava o "teatro imagem". Isso nos primórdios, quando ninguém sabia o que era "teatro imagem" no Brasil.


Eles trouxeram esse método pra cá, e eu fiz um espetáculo de "teatro imagem" que tinha 55 minutos, só que tinha 2 minutos de fala e o resto era todo dançado e feito em mímica em cima da "Sagração da Primavera", do Stravinski. Esse espetáculo ganhou Mambembe na época. Isso pelos idos de 1983. Eu fui embora do Brasil com essa companhia e fiquei um tempo na Itália. Estudei lá e trabalhei, e voltei para terminar a Escola de Artes Dramáticas (EAD-USP). Diário - O que fala mais alto, teatro ou televisão?


Scapin - A novela é uma extensão de linguagem. Dentro do trabalho como ator, a gente tem que estar aberto para explorar todas as linguagens. E é inegável que, no Brasil, a penetração da novela é enorme. Eu acho que tem que fazer, sim. O ator tem que transitar pela televisão, pelo cinema. Tem que transitar pelas diversas linguagens. Hoje, inclusive, tem que transitar pela mídia da internet, pelos novos modelos de mídia que estão surgindo. Tem que criar dinâmicas e experiências em todas as linguagens. Diário - Quais são as suas novidades na televisão e no teatro?


Scapin - Acabei de fazer, e está no ar, "Os Milagres de Jesus", na Record. Eu sou contratado da Record. Eu faço os três últimos episódios. E "Os Milagres de Jesus" também será transformado em um longa. No ano passado, eu fiz a temporada de "Trair e Coçar é só Começar", no Multishow.


Eu ia fazer a segunda temporada, mas acho que não vou conseguir porque vai bater com outra novela da Record, que será gravada no interior de São Paulo e se chama "Escrava Mãe". A novela é sobre a mãe da Escrava Isaura. E estou dirigindo um espetáculo em São Paulo, que é "Visitando o Senhor Lui", com o Serginho Mamberti. Diário - Queria saber sua opinião sobre a nomeação do Juca Ferreira para ministro da Cultura.


Scapin - Eu acho que as políticas públicas precisam ser todas repensadas. Elas não estão funcionando como elas deveriam ou como foi a primeira intenção de funcionamento. Existe hoje uma deturpação da utilização das políticas públicas de patrocínio. Isso é uma questão muito complicada. Diário - Você acha que a Rouanet precisa ser revista?


Scapin - A Lei Rouanet foi muito deturpada, desde o seu funcionamento mais burocrático, que é muito ruim, tem impedimentos muito ruins. Existe um círculo vicioso dentro da Lei Rouanet que também precisa ser limpo e depurado. A primeira intenção da Rouanet, a primeira ideia, foi boa, mas os mecanismos e o funcionamento interno são muito ruins.


É muito burocrático. Sempre uma minoria é beneficiada. A Lei Rouanet passou a beneficiar todo o entorno da produção teatral em prejuízo à matéria-prima, que é o ator. O salário de um ator que é aprovado na Lei Rouanet, muitas vezes, é inferior ao de um técnico. Não estou desmerecendo o trabalho dos técnicos. O salário do ator é inferior ao custo da assessoria de imprensa, por exemplo.


Todo mundo começou a se favorecer da Lei Rouanet e os valores do entorno passaram a ser muito mais caros que o trabalho do artista. A Lei Rouanet precisa ser repensada urgentemente, assim como educação e cultura não podem ser pensadas como coisas distintas. Elas têm que caminhar juntas. A divisão do Ministério da Educação e Cultura é absurda. A gente tem que ter uma educação aliada à cultura e uma cultura aliada à educação. Diário - É a questão que você colocou no começo da entrevista. A arte desapareceu da escola?


Scapin - A arte sumiu da escola. Sem a arte, some o pensamento subjetivo, some a possibilidade criativa. Formamos apenas mão de obra direcionada e técnica. Sim, o Brasil é um país que precisa de técnicos. Eu entendo isso. Mas também precisamos de um pensamento universalizado a respeito da educação e da cultura, a respeito do mundo, na verdade. Um pensamento universalizado que vai ajudar a subjetivar as questões e ajudar a resolver os problemas. Diário - Você é um cara plugado na internet?


Scapin - Eu não tenho Instagram. Eu odeio "selfie". Quando uma pessoa me pede, eu tiro a fotografia. Eu sou bem educado. O que acontece agora é uma inversão. Não é mais porque a pessoa quer uma recordação de um momento carinhoso com o artista. É porque aquilo vai agregar valor à pessoa, vai lhe render não sei quantas visualizadas. Hoje, as pessoas querem sair, de certa forma, do anonimato. E elas criam núcleos de pequenas celebridades transitórias, orbitantes em todos os lugares. Elas cultivam essa fantasia idiota de serem celebridades. Diário - Qual seu conselho para um jovem que está começando no teatro?


Scapin - Que não encare o teatro como uma profissão, mas, sim, como um ofício. Como uma vocação. Se você não tiver essa vocação, não pense no teatro como uma coisa que possa te dar sobrevivência ou status econômico. Existe uma coisa anterior a isso tudo. E ela virá se você tiver vocação. Se não tiver vocação, será apenas uma profissão.


E você vai rapidinho para a poeira do esquecimento. As pessoas confundem um pouco. Existem atores que são famosos, famosos que não são atores e atores que não são famosos. No Brasil, temos grandes atores que não são famosos, assim como temos famosos fazendo trabalhos como atores. Mas eles são apenas famosos, não atores. Estão ocupando um outro lugar.




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