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Uma mulher no combate à pandemia

Millena Grigoleti - 10/10/2020 00:05

Há 22 anos, quando entrou na faculdade de enfermagem, Andreia Francesli Negri Reis já sentia que não queria apenas cuidar das pessoas de forma assistencialista, mas já era encantada por saúde pública e almejava fazer algo pela coletividade - mesmo que não soubesse como colocar isso em palavras. "Eu só queria saber uma forma de fazer a diferença, de trabalhar na área da saúde e ajudar as pessoas.

"Gerente do Departamento de Vigilância Epidemiológica de Rio Preto, Andreia é uma das cabeças à frente do Comitê Gestor de Enfrentamento ao Coronavírus da Secretaria de Saúde de Rio Preto. Aos 40 anos, é casada, mãe de uma filha e vive o maior desafio da carreira, iniciada no Hospital de Base, no setor de Hemodiálise, em 2002. "É um setor altamente especializado, era apaixonada pelo que eu fazia", lembra a profissional. Ela, no entanto, já enfrentou outras tantas crises na cidade, que vive às voltas com dengue e já passou por outras pandemias. 

Quem a vê nas lives semanais transmitidas pela Prefeitura pode não imaginar o currículo extenso: formada em enfermagem pela Famerp, é mestre em Epidemiologia da Hipertensão e Diabetes em Rio Preto pelo programa de pós-graduação em Enfermagem da Famerp e cursando doutorado na linha de pesquisa de virologia e biologia molecular aplicada à medicina, trabalhando o tema epidemiologia da dengue pela pós-graduação em ciências da saúde, também pela Famerp. 

Andreia diz que é muito grata por todas as oportunidades que teve na vida profissional. "O fato de ser mulher na Saúde não é incomum, mesmo porque a grande maioria dos profissionais de saúde são mulheres. O que vale mesmo é, independentemente do sexo, etnia, o que for, é a pessoa estar comprometida, ter dedicação, ser esforçada", considera Andreia. "Quando você trabalha com saúde pública tem aquele compromisso não só com uma, duas pessoas, mas com uma população inteira e dar a resposta, fazer o melhor no meu serviço é dar uma boa qualidade de assistência, ajudar a prevenir algumas doenças, reduzir o máximo as consequências de estados de doenças ou agravos à população por meio de organização, implantação, priorização na saúde pública - na saúde pública, temos muito o trabalho com prioridades, do que é mais emergencial, a necessidade mais iminente", explica Andreia.

Com a pandemia, a rotina da enfermeira deixou de existir. Não há mais hora para almoçar, jantar ou mesmo para chegar em casa. "Agradeço meu esposo e minha filha pela paciência que têm tido comigo desde março. Sempre me apoiando e tendo muita paciência, isso é muito importante para mim, é o que me dá alicerce para me dedicar ao trabalho. É um momento que não dá para ter nada que atrapalhe, e sim tudo vindo a ajudar", comenta ela. Andreia conta que os pais não moram em Rio Preto e, quando os visita, é sempre com todos os cuidados, para protegê-los. "Isso é bastante ruim, como deve estar sendo para todo mundo."

Ela não vê lições aprendidas com a pandemia, mas evoluções. "Muitas mudanças foram necessárias, implantadas, executadas em todos os segmentos da sociedade, na saúde, educação, transporte, forma de se relacionar com a mídia." Em sua concepção, instrumentos de trabalho que estavam em desenvolvimento foram agilizados e implantados, como a notificação em tempo real - agora, laboratórios e farmácias, por exemplo, podem notificar casos de coronavírus, o que antes não era possível, já que a comunicação de novos casos das doenças era mais centralizada.

A vida pública da enfermeira começou em 2004, quando Andreia prestou o concurso da Prefeitura. Por algum tempo, conciliou dois empregos, mas no ano seguinte, querendo engravidar, pediu demissão do HB, onde atuava com os pacientes de hemodiálise, e pediu transferência para um setor ambulatorial - na Prefeitura, trabalhava em emergências, então enfrentava plantões aos domingos e feriados. Para passar mais tempo com a bebê, precisava de um posto onde pudesse ter horários mais regulares. 

Foi quando começou a trajetória na Vigilância Epidemiológica, no setor das infecções sexualmente transmissíveis e Aids. "Me especializei bastante na epidemiologia da Aids, aprendi a trabalhar com vigilância em epidemiologia e já começando o primeiro enfrentamento de uma pandemia, que a aids é uma pandemia que veio para ficar, já dura décadas."

Em 2007, a enfermeira assumiu a vigilância das doenças respiratórias - como meningite, coqueluche, varicela, Influenza e já ajudando na parte operacional da dengue, que foi um ano epidêmico. Em 2008, mais uma crise: um surto de doença meningocócica do tipo C, que obrigou a Saúde a estruturar um esquema de vacinação em tempo recorde, depois de ter o estado de crise reconhecido pelos órgãos estadual e federal de Saúde. "Foi uma experiência bem sucedida", lembra Andreia.

A primeira pandemia dos anos 2000 chegou no ano seguinte, em 2009, a H1N1. "Foi uma experiência ímpar, quando realmente tivemos essa aproximação de trabalhar com as fases da pandemia. Foi a primeira que eu coordenei com as ações epidemiológicas do agravo e naquele ano acabei assumindo a área técnica de doenças transmissíveis."

No ano seguinte, a dengue explodiu em Rio Preto, fazendo o maior número de pacientes até então - foram 24.286 casos confirmados e 11 mortes. "A dengue é um enorme desafio para a saúde pública mundial e também para nós aqui em Rio Preto, uma cidade que fica numa região tropical com o clima perfeito para o mosquito."

Em 2013, Andreia assumiu o posto que ocupa até hoje, à frente da Vigilância Epidemiológica - desde então, foram seis diferentes epidemias de dengue. Todas são distintas em vários aspectos, seja de enfrentamento, seja de diretrizes.

A enfermeira destaca que a Covid é o seu maior desafio profissional e o de outros profissionais que ingressaram na vida pública há pelo menos 30 anos. Andreia lembra que as pandemias sempre vão ocorrer, que não se sabe quando nem qual agente as causará. "Essa pandemia veio para mudar os hábitos principalmente da população do Ocidente, no Oriente o uso de máscara já era bastante incorporado. Faz parte da rotina quando uma pessoa está doente, com resfriado ou com sintomas gripais ou mesmo não estando doente usar a máscara. Aqui no Ocidente foi uma rotina implantada diante da necessidade de proteger e reduzir a transmissão do coronavírus. Não esperávamos ter que incorporar e vai ficar bastante tempo."

 

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