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Um ala de respeito

O lateral é considerado o jogador mais completo de um time de basquete. Também, pudera. É desafiador e fascinante, o conjunto de suas atribuições. Ele pode se infiltrar no garrafão. Tem a responsabilidade de fechar o contra-ataque e disputar os rebotes. É o dono da leitura do jogo, e, por obrigação, deve arremessar de média e longa distância. A corrida pela vacina contra o novo coronavírus colocou em quadra gigantes da especialidade. Na busca por arremessos salvadores, equipes em todo o planeta jogam pela vitória da humanidade. Em Rio Preto, temos um ala referência internacional em virologia que está nesta luta. Desde o inicio de agosto, Maurício Lacerda Nogueira comanda os estudos na Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) - em torno da CoronaVac, vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac Biotech em parceria com o Instituto Butantã. A partir deste mês de outubro, pelo mesmo Centro Integrado de Pesquisa do Complexo Funfarme (Famerp e Hospital de Base) ele comandará também os estudos da vacina Ad26.COV2.S, contra o coronavírus, produzida pela empresa americana Johnson & Johnson.

Ser escolhido para conduzir dois estudos internacionais de uma vacina aguardada por todo o planeta exigiu um preparo de respeito. Sim, Maurício teve uma formação digna de lateral de seleção brasileira.

O ala, vocacionado para Medicina, nasceu em Jaboticabal. Na Universidade Federal de Minas Gerais formou-se médico, fez mestrado e doutorado. Por quatro anos morou em Washington, nos Estados Unidos, como pós-doutorando no National Institute of Allergy and Infectious Diseases. É Livre Docente em Virologia, Professor Adjunto da Famerp e atua na Unidade de Biologia Molecular do Hospital de Base. Antes do novo coronavírus, Maurício jogava contra a dengue, desenvolvendo estudos para uma vacina contra a doença. Além de comandar a pesquisa da vacina, Maurício, o lateral com visão ampla do jogo e do adversário a ser vencido, armou um estudo clínico sobre a evolução da SARS-CoV-S durante a pandemia em Rio Preto. Maurício é casado com a professora da Famerp, Mara Nogueira, doutora em microbiologia, também com pós-doutorado na área de bacteriologia e uma das responsáveis pela microbiologia do Hospital de Base. Ele tem apenas 50 anos e é pai de duas princesas, Giulia e Carolina.

Além da cerveja gelada, Maurício convoca o heavy metal do Iron Maiden e do Mettalica para espairecer entre uma jogada e outra. Pausas raras, merecidas. Afinal, ele é o homem da nossa esperança contra o coronavírus em Rio Preto. É, também, o lateral do seu time de amigos do Monte Líbano. A seguir, a palavra de quem tem a imensa responsabilidade de virar e ganhar o jogo!

V&A - Participar da busca da vacina contra a Covid-19 tem impactado sua vida profissional? Quais são suas expectativas?

Maurício Nogueira - Participar do estudo da vacina contra a Covid-19 na verdade, é uma continuação de uma série de trabalhos que nós estamos fazendo. Nós temos participado do estudo da vacina da dengue, que é um problema sério. Na verdade, é só um reconhecimento da expertise que a instituição (Famerp e Hospital de Base) adquiriu com este tipo de trabalho. São estudos extremamente complexos e extremamente complicados de conduzir que dependem de uma expertise de pessoal, de vacinar, acompanhar, etc. A expectativa é fazer um estudo e cumprir com os critérios de boas práticas clínicas, que são os critérios que definem como fazer esse tipo de estudo, ou seja, permitir que os dados que nós geramos aqui sejam suficientes para poder aprovar a vacina.

V&A - O Sr. mantém contato com os voluntários? A condição ou o relato de algum deles foi marcante nesta experiência?

Maurício Nogueira - Nós conversamos diariamente com os voluntários. Eles são, na maioria, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem que estão no dia a dia desta batalha. A pandemia do coronavírus é uma pandemia que vai marcar uma geração como assim marcou a gripe espanhola no século passado. São pessoas que estão desempenhando o seu trabalho no máximo, sofrendo muito, mas também ansiosos e animados em participar do estudo. Em poderem contribuir não só no aspecto do atendimento, mas também em colaborar para criar um medicamento que possa trabalhar contra essa doença.

V&A - A corrida por uma vacina mostra a realidade de um drama mundial. Qual é o alerta ou a lição do novo coronavírus para o ser humano?

Maurício Nogueira - São duas grandes lições. A primeira é que sem ciência não se acha solução. O coronavírus foi descoberto porque existia lá em Wuhan um laboratório que era capaz de detectar isso e detectou rápido. E todos os lugares do mundo foram capazes de rapidamente responder a isso onde existia ciência. A segunda lição é o papel enorme de reserva da sociedade que a universidade é. Aqui em Rio Preto, por exemplo, quem conseguiu responder e fazer isso rapidamente, para fazer diagnóstico e ajudar o município, foi a universidade, foram os funcionários públicos, que hoje em dia são criticados, etc. Estudantes, professores, funcionários das universidades, tanto da Famerp quanto da Unesp, além do Instituto Adolfo Lutz, que também é um órgão público, foram os grandes responsáveis por montar um sistema de diagnóstico, além, claro, do Hospital de Base no tratamento desta população.

V&A - O aumento da fome no mundo e todas as suas consequências, de desnutrição à alimentação de animais como cobras, morcegos, etc, podem provocar novas pandemias?

Maurício Nogueira - O grande problema das futuras pandemias - que nós vamos ter e que serão inevitáveis - é como cada vez mais o ser humano interage de uma forma mais próxima e mais intensa com esses ambientes de transição entre matas e cidades. Nós desmatamos e chegamos cada vez mais próximos. Esses ambientes de transição são onde esses vírus, ou bactérias e parasitas conseguem fazer o que se chama de specie jump, ou seja, pular de espécie. Nesse caso específico, nós tivemos o vírus de morcego que conseguiu infectar humanos. Isso ocorre porque nós estamos cada vez mais degradando o ambiente e mais próximos e em contato com o ambiente degradado.

V&A - Vacina chinesa, russa, americana, brasileira. De onde nos virá primeiramente, a esperança?

Maurício Nogueira - Não importa a origem. O que importa é que ela esteja disponível para a população. As abordagens das vacinas são internacionais, todas elas são importantes e são complementares, porque nenhum fabricante vai conseguir fazer vacina para todo o mundo. A vacina boa é aquela que funciona, não importa de onde ela venha.

V&A - Qual a importância da vacina neste e nos próximos séculos? As piores guerras serão as sanitárias? A imunidade será a principal arma?

Maurício Nogueira - A única forma de controlar doenças é ter imunidade contra elas. E a única forma de ter imunidade de forma segura é ter vacinas. Para ter vacinas você precisa de duas coisas: vigilância, ou seja, saber o que está acontecendo e novamente o papel da universidade e dos institutos de pesquisa é fundamental; e depois, o desenvolvimento de vacinas que normalmente começa nas universidades e chega para a indústria. O fato é que esse governo mínimo que não tem universidade e não tem serviço público deixa a população exposta. A população precisa sim do governo e das universidades para poder controlar, entender e identificar esses problemas.

 

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